Entrevistas

Revista Internet.br (05/1998)
Autor:
Data: 14/5/1998

Internet.br: Para você, qual o significado da palavra "aventura"?

Acho que aventurar-se é não aceitar as verdades pré-digeridas por outros viajantes e sair em busca de suas próprias respostas para as questões existenciais que estejam a nos exigir maior entendimento.

O aventureiro, assim como o jornalista, é acima de tudo um curioso. Eu que sou os dois, tornei-me um obcecado pela busca do conhecimento em primeira mão. Saber que em alguma parte do mundo existem costumes e tradições que são absolutamente diferentes daquelas às quais me acostumei, é uma tentação irresistível.

Não se deve esquecer também que a palavra "aventura" pode ter conotação positiva ou negativa. Um golpista do mercado financeiro pode ser chamado de "aventureiro". Um irresponsável também pode ser chamado de "aventureiro".

O dicionário diz que aventureiro é todo aquele que inicia uma empreitada de resultado imprevisível. O Amyr Klink, por exemplo, não gosta de ser chamado de aventureiro porque segundo ele seus projetos são cercados de uma margem de sucesso muito grande, mas pelo fato de envolver uma possibilidade de fracasso, não há como negar que o que ele faz, goste ou não do termo, são aventuras.

Eu sou literalmente atormentado pelo fato de saber que existem em outras partes do planeta culturas que ainda me são totalmente desconhecidas, terras distantes muito diferentes das que já conheci.

Gostaria de, ainda nesta vida, poder explorar todos os cantos do nosso fascinante planeta, e quando não estou viajando, estou fazendo planos para novas viagens.

Por outro lado, acho que a vida que a maioria dos brasileiros vive é uma verdadeira aventura. Lutar contra o desemprego, a criminalidade, a insegurança econômica também é uma aventura, e das brabas.

Internet.br: Qual foram as suas maiores aventuras? Onde, como, data.

Acho que em termos de desafio, as travessias do deserto do Saara foram inesquecíveis.

A primeira foi em 74 num Land Rover, e sem estar acompanhado de outros veículos, o que torna tudo muito mais arriscado: se dançar vai ser complicado resolver, pois não há outra máquina para te tirar dali do fim do mundo. A navegação no deserto imenso e sem horizonte é feita por bússola e intuição, e é ideal para se desenvolver um sentido de orientação similar ao dos pombos-correio. Passei dois anos na África, viajando, surfando e morando à bordo deste Land Rover, escrevendo matérias para diversas revistas e jornais brasileiros e estrangeiros.

Anos depois, em 1988, voltei ao Saara acompanhado de dois outros jipes, o que teoricamente deveria me trazer mais segurança, mas logo no início da travessia descobri que havia uma total incompatibilidade de propósitos e comportamento entre eu e os que deveriam ser meus companheiros.

Um dos pilotos, por exemplo, exibicionista incontrolável, abusava do excesso de velocidade, o que me deixava sempre muito preocupado com o aumento da possibilidade de um acidente grave num local onde o socorro é inexistente. Preferi seguir a viagem em solitário, o que aumentou outra vez o risco, mas mesmo assim, menor do que viajar com pessoas imprudentes.

Outra viagem interessante foi em 1981, quando com uma namorada resolvemos vir da pequena cidade em que morávamos, no norte do estado de Washington, na costa oeste dos USA, até o Rio de Janeiro, usando de transporte público e carona.

Foram muitos meses na estrada, através das Américas do Norte, Central e do Sul, enfrentando os imprevistos característicos dos países de terceiro mundo, acrescentados das emoções de pegar mas de 200 ônibus, lotações, vans e trens diferentes, trafegando em algumas das piores estradas do planeta e colocando nossas vidas nas mão de alguns motoristas completamente bêbados, ou incompetentes, ou pior ainda, ambos.

Durante um ano, entre 1991 e 1992, morei numa canoa de alumínio com 4 metros de comprimento, a poucos centímetros da água, coberta por uma lona plástica, levando apenas meu equipamento de camping, câmera de vídeo e de foto e muitos bujões de gasolina, viajando pelo Rio Negro, no Amazonas, com um pequeno motor de 15 HP, conhecendo os igarapés onde só se entra com este tipo de barco com pouco calado, dormindo na canoa amarrada em galhos de arvores submersas, ancorado no meio dos rios, acompanhado apenas dos peixes-boi e dos botos na floresta alagada, passando dias papeando com os ribeirinhos em suas choupanas, acampando nas praias de areia branca. Uma viagem inesquecível, e muito barata!

Internet.br: Alguma viagem programada?

Dentro de algumas semanas estou voltando do Rio para a Califórnia, onde moro a maior parte do tempo, via Caribe, ou seja: do Rio até Porto Velho, Rondônia, de ônibus, de lá até Manaus em um "motor", como são chamados os barcos que vão levando pessoas e mercadorias pelos rios da Amazônia, passando uns cinco dias à bordo enquanto desço pela segunda vez o Rio Madeira.

De Manaus até Caracas, passando por Boa Vista em Roraima, dá para chegar nuns 3 ou 4 ônibus diferentes.

De Caracas vou pegando os pequenos barcos locais que levam as populações nativas de uma ilha para outra, passando por Aruba, Curaçao, Bonaire, Trinidad, Tobago, Granada, Barbados, St. Vincent, St. Lucia, Martinique, Dominica, Guadeloupe, Antigua, St. Bart, St. Martin, Tortola, Ilhas Virgens, Porto Rico, Republica Dominicana, Haití, Jamaica, Ilhas Cayman e Cuba, de onde vou para Miami, se já houver vôos liberados, ou Cancún caso os Estados Unidos continuem com o cruel boicote à Cuba, e de lá até a Califórnia.

A maior parte destas ilhas eu não conheço, mas sei que são, culturalmente muito diferentes entre si. Estou feliz pois vou ouvir ao vivo muita salsa, calipso e steel-bands, música que adoro. Acho que nuns dois meses dá prá chegar em casa, lá em Leucadia, uma pequena cidade no litoral da Califórnia, onde já tenho alguns clientes para levar no meu motorhome para conhecer o deserto e os parques nacionais de lá.

Internet.br: Como a Internet auxilia ou pode auxiliar uma expedição / aventura?

No meu caso a Internet era um luxo que se tornou ferramenta obrigatória e fundamental.Hoje, na minha pequena mochila do tamanho permitido para levar na cabine do avião, pois detesto perder malas, ou dentro do ônibus, além de toda minha roupa e equipamentos como bússola, passaporte, câmera digital, mapas e guias, há o espaço obrigatório para meu laptop Toshiba Satellite Pro 430 CDT, com 3 gigas de HD e modem de 28.8, um pouco pesadinho mas tão útil quanto inseparável.

Acho fantástico poder no período inicial de planejamento da viagem, descobrir, sem sair de casa, um imenso universo de informações que ajudam a evitar os desencontros, analisar os locais que valem a pena ser visitados, evitar as roubadas e aumentar as chances de sucesso no projeto.

Estou há dois meses pesquisando na Internet as páginas oficiais dos países e ilhas que visitarei no Caribe, as páginas alternativas às oficiais, as páginas dos guias de viagem que publicam resumos de suas edições impressas e as conferências onde quem já foi no lugar informa suas descobertas, opiniões e sugestões, que é para não quebrar a cara acreditando cegamente nas homepages oficiais, eternamente "otimistas".

Durante a viagem, uso o laptop para permanecer em contato com minha família através de E-mail, por onde envio as fotos que tiro com minha câmera digital, e bater papo usando o ICQ.

Quando a ligação telefônica é boa, uso o Real Player para ver a Globonews e ouvir a CBN de São Paulo, só para me manter atualizado com as notícias deste país curioso e bizarro que é o Brasil.

Também mantenho intensa correspondência com amigos espalhados pelos cinco continentes, quando planejo as próximas viagens e participo de discussões on-line, como o Green-Travel ( http://www.green-travel.com/ ), onde profissionais do ecoturismo responsável debatem os problemas que o turismo causa nos lugares mais preservados do planeta.

Uso a Internet para manter em dia minhas contas em dois bancos brasileiros e um nos Estados Unidos, todos online, onde tiro extratos, pago contas, faço transferências, confiro depósitos, etc.

Meu browser é o quase pré-histórico Netscape 3, leve no HD e descomplicado. Uso dois provedores lá da Califórnia: um local com acesso ilimitado e a IBM, ideal para os technomades como eu pois tem números de acesso em muitos países, inclusive aqui no Brasil, mas também uso os cybercafés de onde não consigo acesso direto ao meu provedor.

O laptop também é usado para armazenar as fotos que vou tirando com a câmera digital, e estou planejando colocar um "diário de bordo" na minha homepage, para onde eu enviaria regularmente meus relatos e fotos das viagens à medida que elas fossem se desenvolvendo, e onde meus amigos e clientes pudessem ir curtindo minhas aventuras junto comigo, sem sair de casa.

Internet.br: Quais são os três sites que você não deixa de navegar para se manter atualizado no mundo outdoor?

Há alguns sites que eu acompanho regularmente, como o longuíssimo http://www.yahoo.com/recreation/travel/travelogues/ongoing_travelogues que é onde o Yahoo lista as expedições que estão em andamento no mundo inteiro e mantém páginas atualizadas.

Em http://www.netcafeguide.com/ eu vou descobrindo onde estão localizados os cybercafés ao longo das minhas viagens. Este site não é muito atualizado, mas já me quebrou grandes galhos.

O governo dos Estados Unidos mantém um site (http://travel.state.gov/travel_warnings.html ) onde informa os viajantes para os problemas que poderão encontrar em todos os países do mundo, como locais onde há muitos assaltos, onde há golpes de estado toque de recolher, onde usar drogas dá pena de morte e onde há guerrilheiros em ação. Já me salvou de algumas frias.

Duas editoras que tem ótimos guias de viagem impressos também tem sites na Internet. Um é a Lonely Planet ( http://www.lonelyplanet.com/ e a outra é a Rough Guides ( http://www.roughguides.com/ ) e lá vou descobrindo muitas informações sobre os locais que estou visitando, sem ter que carregar os pesados livrões das edições impressas.

Para comprar livros interessantes, vou no Adventure Traveller Bookstore ( http://www.gorp.com/atbook.htm )

Internet.br: Cite três lugares imperdíveis que ninguém deveria deixar de conhecer.

Sou apaixonado pelo Anza Borrego State Park, na Califórnia, perto de San Diego, onde vou com freqüência para ficar só e meditar. É uma região desértica mas muito bonita e de fácil acesso.

O deserto do Saara é imperdível, mas tristemente a Argélia, que é um dos países mais lindos da região, atualmente está fechada aos viajantes devido à guerrilha fundamentalista. Como opção há o sul do Marrocos, perto de Marrakech, onde o deserto encontra a cadeia de montanha dos Atlas. É um arraso!

No Brasil há o Arquipélago das Anavilhanas, que é um paraíso amazônico em pleno Rio Negro. É o maior arquipélago fluvial do mundo, com centenas de ilhas onde passei semanas inesquecíveis. Para navegar sem se perder no imenso labirinto de ilhas e igarapés eu usei as fotos aéreas do Projeto Radam, que se vendem no IBGE, mas um guia local, que pode ser encontrado em Manaus, pode até ser mais útil.