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Revista InsideNow (01/2000)
Autor:
Data: 14/1/2000
Nascido na Urca, criado em Copacabana e largado no mundo Tito Rosemberg, 53 anos, é o que poderíamos chamar de eterno viajante.
Carioca, nascido na Urca, criado em Copacabana e largado no mundo, Tito está viajando sem parar há mais de 30 anos. Um dos pioneiros do surf no Brasil, exímio fabricante de pranchas, ele virou uma espécie de referência quando se fala em botar o pé na estrada e sair atrás de ondas perfeitas. Atualmente, Tito se auto define como um "bóia-fria planetário", que está sempre viajando atrás de trabalho . Seja na França, na Califórnia ou no Marrocos. A InsideNow conseguiu encontrá-lo durante uma de suas rápidas passagens pelo Brasil, quando produziu a seguinte entrevista ...
In: Hoje em dia, o que você está fazendo?
Tito: O menos possível. Eu tenho um Land Rover na França e trabalho com turismo ecológico. Meu principal mercado é o americano. Tenho um monte de conhecidos na Califórnia e na maioria das vezes levo pessoas para o Marrocos. Na verdade, sou um chofer de táxi de sorte. Além disso, de vez em quando escrevo para algumas revistas, mantenho a minha página na Internet e viajo muito.
In: O que tem na sua página na Internet?
Tito: Tem tudo. Tem fotos sobre os 80 países que eu já visitei e um monte de fotos antigas de surf. Principalmente do Arpoador. São registros de 1963, 64, 65... Quando a gente era apenas uma meia dúzia. Também tem as fotos das madeirites da época e alguns registros das minhas viagens. Eu tenho uma espécie de diário de bordo. Enquanto viajo, vou colocando as fotos nele. Às vezes eu até escrevo alguma coisa. Ele deve ter cerca de umas 1300 fotos. Entre elas, algumas do Camel Trophy e de muitas outras viagens que eu fiz por este mundo afora.
In: Como é a sua vida hoje em dia?
Tito: Hoje me defino como "bóia-fria planetário". Viajo para onde tem trabalho. Tenho um "motor home" na Califórnia, onde cabem até seis pessoas. Quando tem trabalho na Califórnia, eu vou para lá fazer as viagens Quando não tem, faço viagens para a França, ou então faço viagens sozinho, vou passear, sem cliente mesmo. Entre a Califórnia e Biarritz fico indo e vindo.
In: Agora você está no Rio, mas na semana passada estava em Búzios. Você tem um Land Rover em Biarritz e um "motor home" na Califórnia. Afinal de contas, onde fica a sua casa ?
Tito: Eu não tenho mais casa nenhuma. No Rio, eu fico na casa da minha mãe e quando vou para Búzios, fico numa pousada. Quando estou em Biarritz, tenho um apartamentinho alugado, em Guetary, que é a cidadezinha onde eu... vamos dizer assim: moro. E, na Califórnia, eu tenho grandes amigos, de mais de 20 anos, que já são da família. Portanto, quando lá estou fico na casa deles por dois, três meses. Eles não se importam em me receber por muito tempo. São amigos que viraram meus irmãos. Então, não tem problema.
In: Como é que você começou a se envolver com o surf?
Tito: Eu nasci na Urca e com dois anos de idade eu já vivia na praia. Eu nasci em 1946. De 1947 a 1949, eu vivi muito na praia da Urca. Meu irmão ficou doente, minha mãe precisou cuidar muito dele e me deixava na praia, junto com os salva-vidas. Ficava na praia o dia inteiro. No fim de 1949, a minha família se mudou para a Avenida Atlântica, em Copacabana, ali no Posto 5. Com cinco anos de idade estava dentro d’água, ajudando o salva-vidas. A minha mãe me deu um pé-de-pato, um swim fins importado. Isso foi a partir de 50, 51, na praia de Copacabana, no posto 5 , entre a Xavier da Silveira e a Barão de Ipanema. Ali era o meu point. Naquela época, já tinha muita gente pegando onda de peito. Em Copacabana, pegar onda de peito já era um esporte tradicional.
In: Como eram as ondas em Copacabana, por volta de 1951-52?
Tito: Elas fechavam muito. Um tremendo quebra coco. Eu morei em Copacabana até os 16 anos de idade. O baixio acabou depois que foi feita a duplicação da Av. Atlântica. O baixio quebrava e quebrava legal, não era exatamente um tubo, mas era um senhor paredão. Quebrava com regularidade durante todo o inverno. Nos dias bons, você sentava entre a ponta do Forte de Copacabana e a ponta do Leme. A gente pegava a direita e podia sair em frente à rua Prado Júnior. Eu já peguei uma esquerda e fui parar em frente à Joaquim Nabuco. Isso já era na época das pranchas, por que de peito ninguém pegava uma onda destas. Antes das pranchas, ninguém pegava onda no baixio, que quebrava e a gente ficava só olhando. Só quando surgiram as primeiras pranchas é que a gente começou a explorar estas ondas.
In: Quando é que surgiram as primeiras pranchas?
Tito: Eu não fui um dos primeiros. Eu sou da segunda leva. Cerca de um ano depois que apareceram as primeiras pranchas no Rio. Eu acho que comecei a surfar entre 1963 e 64. Ih, rapaz, já faz um tempão...
In: Até então, você nunca havia ficado em pé numa prancha?
Tito: Eu ficava em pé num pranchão. Eu tinha uma pranchona Oceania, oca, com umas alças laterais, que foi a prancha que muita gente brincava naquela época. Tinha as pranchinhas de peito, aquelas madeiritezinhas de peito, que todo mundo usava. Naquela época, não tinha nem isopor. Daí a gente pegava com essa pranchona, a Oceania, e ia remando do posto 5 até o Arpoador. Dava a volta remando pela praia do Diabo e ia para o Arpoador, pois lá é que dava onda boa. Nesta época, já tinha um pessoal pegando onda de madeirite no Arpoador. Em Copacabana ninguém pegava ainda, nem no posto 6, nem no Leme, porque ninguém imaginava que dava para ficar em pé. A primeira vez que eu resolvi ficar em pé numa prancha foi no Arpoador. Já havia lá uma turma antiga: o Arduino, o Barriga (apelido do Irencir Beltrão), que já estavam pegando onda em pé no madeirite. Foi aí que eu resolvi aposentar o meu pranchão.
Eu tentei pegar onda em pé com a Oceania, mas ela era um trambolho, um canhão, morte certa... Ela tinha, pelo menos, uns 10 pés. Era oca, com o formato de um "Laser" e tinha uns 12 cm de espessura. Quando eu comecei a ver esse pessoal pegando onda em pé no Arpoador... Bem, ainda era no começo mesmo, tinha no máximo umas dez pessoas.
Eu comecei a pegar onda junto com um pessoal de Copacabana. Nessa época, eu já morava na Sá Ferreira e para mim era um pulo ir da Sá Ferreira para o Arpoador. Eu curtia a praia todo dia...
In: Como era a cena do surf naquela época?
Tito: Era uma cena muito alternativa. A gente escutava Vanila Fudge e Cream... Isso em 1964, 65, 66. Desde 64 a gente já estava começando a fazer umas pranchas de isopor. Foi quando o Peter Johnson esteve aqui.
Ele era um surfista de Oceanside, na Califórnia, que chegou a ser considerado o segundo do mundo e surfava pela "Surfboards Hawaii". Ele fez intercâmbio de estudante e ficou no Rio Grande do Sul por um ano, sem pegar onda. Quando apareceu na praia, estava gordinho, branquelo e ninguém quis emprestar a prancha para ele. Eu emprestei a minha, o cara entrou na água e logo mostrou que era o melhor surfista do Brasil. Depois de um ano sem pegar onda, ele ainda era melhor que todos nós. Foi o primeiro surfista a dar um "hang five" e um "hang ten" no Brasil. Alguém me disse que ele acabou se suicidando. Mas eu cheguei a morar com ele um tempo na Califórnia.
In: O australiano Peter Troy foi outro "gringo" que apareceu no Brasil nos anos 60 e revolucionou o surf brasileiro da época. Você estava presente quando ele apareceu no Arpoador ?
Tito: Eu estava no Rio, mas ele não ficou comigo. Ele estava com o pessoal do Irencir Beltrão. O cara estava dando a volta ao mundo, procurando onda. Bateu no Rio, foi no Arpoador e encontrou o pessoal.
Nessa época, algumas pessoas já estavam tentando fazer prancha de isopor, mesmo enfrentando grandes dificuldades. Foi o Peter Troy que começou a dar algumas dicas sobre como fazer uma boa prancha. Foi ele que mostrou a importância de usar o epóxi para isolar o isopor, afim de evitar que o isopor não derretesse quando entrasse em contato com a resina de poliéster. Foi quando todo mundo se empolgou e foram feitas diversas pranchas.
O Barriga, o Arduino... Essa turma era um pouco mais velha do que eu e estava um pouco na frente.
In: Então você faz parte da segunda geração do surf brasileiro?
Tito: Com certeza. A primeira geração era o Barriga, o irmão dele, o Ciro, o Arduino, o Jorge Paulo Lehman. Junto comigo veio o Persegue (Jorge Bally), o Geraldo, o Bração, o Piuí, o Rafael Gonzales.... Ninguém se conhecia até então. Ficamos amigos na praia. Em seguida, apareceu a terceira geração : o Rico, o Mudinho, o Maraca. Me lembro que ele ganhou uma prancha de fibra super legal, mas ainda não sabia surfar. Nós fizemos uma troca: eu ensinei ele a pegar onda e ele deixava eu usar a sua prancha nova. Eu o ensinei a pegar onda no posto 6. O Maraca, por exemplo, nunca pegou de madeirite. Essa geração já começou a surfar com a prancha de fibra.
Minha geração ficou uns dois anos pegando onda de madeirite. Ninguém tinha carro nessa época. Ninguém pegava onda em Ipanema. De vez em quando você ouvia falar de uns caras que pegavam onda no Leme, no Leblon entre eles o Rico e o Mudinho. Entre 67 e 68, teve um campeonato de surf no Guarujá. Nessa época, tudo era uma grande festa e, de certa forma, tudo acontecia meio às escondidas. Era uma coisa meio marginal, as famílias e as pessoas em geral não gostavam muito dos surfistas. Quando eu comecei a pegar onda, meus pais cortaram a minha mesada, falaram que eu tinha virado vagabundo. Fui super combatido.
In: Nessa época, os surfistas já sofriam com o preconceito da grande imprensa?
Tito: Não. A imprensa não tinha nenhum preconceito em relação ao surf. O que havia era o estigma familiar. Um certo conflito entre o estudo e o surf. A família queria que você corresse atrás de um diploma, enquanto a gente não conseguia ficar sem surfar. Algumas pessoas começaram a fumar maconha, o que complicou ainda mais a imagem dos surfistas.
In: Quais eram as drogas mais usadas pela juventude nos anos 60?
Tito: Tinha maconha, álcool e tabaco. Que eu me lembre, eram as mais usadas Só vim a conhecer a cocaína muitos anos depois. A gente ouvia falar que os negões lá do morro fumavam maconha e achávamos que devia ser o maior barato Um pessoal um pouco mais velho do que nós freqüentava o morro e, de vez em quando, compravam um pouco no Pavãozinho, na Rocinha ou no Vidigal. Eu morava de frente para o Pavão - Pavãozinho. Alguns de nós já tinham coragem para subir o morro e descer com o marrom. A gente começou a experimentar estas coisas com 16, 17 anos.
In: Qual era roupa da moda na época?
Tito: Na época, havia uma influência muito grande do movimento psicodélico. O mundo estava pegando fogo e quem estava na frente era o pessoal da Escola Americana, que tinha uma roupa legal, tudo trazido dos EUA. Era como se a Califórnia ficasse na Gávea, onde funcionava a Escola Americana. Os sons mais legais também vinham dos alunos da Escola Americana. Os caras traziam Jan & Dean, Beach Boys, etc. Era o que a gente curtia naquele tempo. Era durante as festas da Escola Americana que a gente ficava por dentro das modas que tínhamos que seguir. Tanto, que muita gente do Arpoador andou tingindo o cabelo para ficar louro. Era a moda do louro, do oxigenado. Eu fui muito discriminado por isso. Eu não era louro, nunca quis tingir o cabelo e achava aquilo muito ridículo. Eu sofri discriminação porque era moreno e não era boa pinta. Sempre fui meio gordinho e não tinha nada de "cool" no meu estilo.
In: Desde cedo você foi influenciado pelas matérias publicadas pela revista "Surfer" americana...
Tito: Para você ter uma idéia, a minha assinatura da "Surfer" começou em 64 Em 62, eu já lia as revistas de um amigo meu e, em 64, eu comprei a coleção dele inteira. Eu tenho a coleção da Surfer desde 62.
Aliás, ela vale uma grana. Eu pretendo até levá-la para os EUA, pois lá cada exemplar vale cerca de 50, até mesmo 100 dólares. Durante muitos anos eu representei a "Surfer" aqui no Brasil. Eu vendia os produtos deles: os pôsters, etc. No entanto, por volta de 1968, minha vida deu uma certa guinada. Eu já estava bastante ligado no movimento existencialista e preferia ser "hippie" ao invés de ser "beach boy". Eu já tinha aquela coisa de ser contra-cultura. Eu sempre quis estar periférico à moda, ao "fashion". Até então, eu ainda não tinha ido muito além de Saquarema.
Cheguei a ir de carro até Punta Del Este, quando minha família foi passar férias por lá. Eu fui com eles e aproveitei para surfar no maior número de lugares possíveis. Eu também peguei muita onda em Cabo Frio e em Saquarema. A viagem do Rio para Saquarema era uma grande aventura.
Só a barca demorava umas duas, três horas. Nessa época, tinha muita gente no Arpoador que só mergulhava. Muitas vezes, a turma da pesca submarina é que descobria os novos picos. Eles iam mergulhar em lugares como Arraial do Cabo e em Cabo Frio e acabavam descobrindo picos onde davam ondas boas para o surf. Foi aí que eu e o Maraca começamos a viajar direto. A gente ia para Saquarema, Massambaba, Arraial do Cabo e Cabo Frio. Era tudo completamente virgem. Até mesmo as praias do Rio, como a Barra da Tijuca, eram praticamente desertas. A Barra da Tijuca não passava de um imenso areal, de ponta a ponta. Foi quando a gente começou a ir para a Prainha. Naquela época, a gente chamava a Prainha de “Leprosário” para assustar as pessoas e evitar que elas descobrissem o lugar. Chegar até a Prainha era uma viagem de cão. A gente tinha que parar o carro naquele canal - ali no fim da praia da Macumba - e ir remando até a Prainha. A gente acabou descobrindo uma trilha dos pescadores, mas as pranchas eram tão pesadas que era mais negócio ir remando. A gente ouvia falar que tinha onda em Grumari, mas chegar lá era muito complicado. Tudo isso aconteceu por volta de 1966, 67. Foi uma época de descoberta, que a gente começou a viajar muito.
Eu lia muito a "Surfer" e já tinha visto matérias sobre a França, Hawaii e várias ilhas no Pacífico. Foi aí que eu comecei a ficar empolgado e resolvi conhecer o resto do mundo.
In: Qual foi a sua primeira "surf trip"?
Tito: Foi para Acapulco. Fui ajudar meu pai a fazer um negócio no México e acabei pegando onda por lá. Fiquei encantado. Aluguei uma prancha em Acapulco e fiquei empolgado com a possibilidade de viajar.
Mais viajar do que pegar onda. Tanto que, quando eu saí do Brasil, em 69, não fui para nenhum lugar de onda, eu fui para Londres, que era onde os "Beatles" estavam arrebentando, onde tudo estava acontecendo: Rolling Stones, Carnaby Street... Nesta época, eu estava muito ligado a esse movimento contestatório, que eu achava mais interessante do que pegar onda. Londres era a capital do mundo naquela época. Era demais ! Foi uma época fantástica Acabei passando um ano praticamente sem pegar onda, morando em Londres.
Depois saí viajando com um grupo de argentinos, tocando música por toda a Europa. No final de seis meses estávamos na Turquia, quando brigamos. Acabei indo sozinho para Biarritz. Cheguei lá e fiquei desbundado. Tinha um monte de surfistas, alguns americanos: o Mike Difenderfer, o Mike Cunts e o Bob Cooper, entre outros.
Me lembro bem do primeiro dia que cheguei na praia, em Biarritz. Estacionei o carro, tinha um monte de surfistas dentro d¹água e eu estava branquelo, gordinho, totalmente disforme, sem nada a ver com um esportista, depois de um ano e tanto sem pegar onda. Eu pedi uma prancha emprestada para um monte de gente, mas ninguém me emprestou. Nem os franceses, nem os americanos. Foi quando eu vi um coroa pegando onda, velhinho, barbudão, que acabou me emprestando a sua prancha. Ele saiu para almoçar e deixou a prancha comigo. Quando voltou, com a mulher, foi que ele se apresentou.
O cara era nada mais nada menos que o Bob Cooper, shaper da "Yates Surfboards". Ele estava indo para a Austrália e era um dos maiores shapers californianos da época. O Bob acabou ficando super "brother" meu. Entre 1969 e 70 rolou o primeiro campeonato europeu de surf, na ilha de Jersey, no Canal da Manch. Como eu era brasileiro, acabei representando o Brasil. A experiência foi um fracasso. A água era completamente gelada e não existia roupa de borracha na época. As ondas eram muito mexidas, péssimas mesmo. Mas este foi o meu primeiro contato com australianos, além de um monte de gente que também estava viajando. Foi lá que eu descobri que eu queria fazer prancha. Eu estava empolgado com isso.
Voltei com o Bob Cooper para Biarritz e começamos a trabalhar, em Bayonne, numa das fábricas mais antigas da época. O Bob Cooper estava shapeando lá, e eu fiquei trabalhando com ele, ajudando-o a fazer pranchas. Foi assim que eu aprendi um pouco. Um tempo depois, eu resolvi conhecer outros lugares e acabei indo parar na Inglaterra. Fiquei trabalhando na Cornualha, numa cidadezinha chamada Newquay, que é uma espécie de centro do surf na Inglaterra. Trabalhei numa fábrica de pranchas em Newquay durante um tempo e conheci um neozelandês, que me falou o seguinte: Se você quer aprender a fazer prancha de verdade, tem que ir para os EUA. Na Califórnia você vai aprender tudo.
Quando cheguei na Califórnia, dei início a uma nova fase da minha vida, que de certa forma continua rolando até hoje. Me casei com uma norte-americana, ficamos oito anos juntos , mas não tivemos nenhum filho. Não deu tempo.
In: Sua passagem pela Califórnia foi muito importante. Entre outras
coisas por que ela te transformou num excelente fabricante de pranchas
de surf.
Tito: Quando eu estava na Califórnia, fui procurar o Peter Johnson, que tinha pego onda comigo aqui no Brasil. Ele me perguntou se eu queria trabalhar e me levou na "Surfboards Hawaii", do John Price, que hoje em dia está morando no Hawaii. Chegamos lá e o John falou para eu começar quebrando o chão. Foi este o meu começo na indústria de fabricação de pranchas de surf na Califórnia. Comecei literalmente de baixo. Quem também trabalhava lá na época era o Donald Takayama, que acabou me ensinando muitos segredos. Isso tudo aconteceu no começo dos anos 70, quando eu realmente comecei a aprender a shapear, encapar, enfim, dominar todos os processos de fabricação de uma prancha de surf. Eu estava onde queria, aprendendo com os cobrões. Depois de quase uns seis meses trabalhando na Califórnia, eu já estava fazendo quilha e um montão de outras coisas. Acabei comprando uma Kombi e morando dentro dela, que ficava estacionada na porta da fábrica da "Surfboards Hawaii". Eu morava na Kombi e ficava pegando onda ali por perto Foi quando apareceu uma proposta para trabalhar na "Gordon & Smith" que, na época, era a maior fábrica de pranchas do mundo. A "Gordon & Smith" foi a minha grande escola. Não havia no mundo nenhuma outra fábrica que produzisse tanto quanto eles. Lá eu aprendi a fazer tudo. O Skip Frye foi quem me ensinou a shapear. O Sam Cody, grande cara, foi quem me mostrou como dar o "glass" e revelou todos os segredos para um bom acabamento. Foi aí que eu vi como se fazia uma prancha de verdade. De uma maneira altamente profissional Acabei ficando lá por quase dois anos. Eu morava em Ocean Beach e surfava em "Sunset Cliffs" todos os dias. Eu pegava onda de montão. Eu sempre fui Ohot dogger, nunca fui muito de me jogar em ondas cavernosas. Para mim a Califórnia foi um sonho, pois não tinha aquelas ondas cavernosas.
Sempre fui um surfista competente, mas nunca tive condições de ganhar campeonato nenhum.
Depois de algum tempo trabalhando na " Gordon & Smith", resolvi montar minha própria oficina de pranchas. Fiquei quase seis meses fazendo as minhas pranchas, que batizei como: Tito Surfboards. Eu ainda não havia feito uma prancha inteira, do início ao fim. Mas conhecia todas as fases de produção. Montei minha primeira oficina em "Pacific Beach".
Aluguei uma casa com uma garagem grande e montei minha oficina nela, com todo o equipamento que eu ia acabar trazendo para o Brasil: minhas plainas, lixadeiras e tudo o mais. Quando eu já havia feito umas 30 pranchas, senti que estava pronto. Eu já tinha acumulado a experiência na "Surfboards Hawaii" e na "Gordon & Smith" e essas 30 pranchas eu tinha feito sozinho, do início ao fim. Aí, coloquei tudo dentro de um navio e mandei para o Brasil. Era um montão de caixas, cheias de máquinas, espumas... Cheguei no Brasil em 1971, com todo
Equipamento necessário para remontar minha oficina.
In: Em 1971 você acabou voltando para o Brasil depois de surfar
praticamente toda a costa norte-americana.
Tito: Tudo começou com uma viagem muito grande pelos Estados Unidos. Eu comprei um Karmann Ghia e com minha namorada americana botamos as pranchas no teto do carro e eu surfei todo o litoral da Califórnia, até São Francisco. De lá, a gente cortou para Detroit, entramos no Canadá, rodamos o Canadá todo, descemos por New Hampshire, em New England, e fizemos todo o litoral leste norte-americano. Fomos desde New Hampshire até Key West. Passamos por toda a costa da Carolina, Nova Jersey, pegando onda por todas as praias daquele litoral.
Não tem nenhuma praia de lá que eu não conheça. Nos EUA, eu só não surfei no Oregon, por que não tive coragem de entrar no mar, que era muito frio, apesar das ótimas ondas. Também não surfei em Washington, por causa do frio. Eu não sou masoquista. Foi nesta época que pintou a oportunidade de comprar passagens baratas para o Brasil. Fui para o Rio com uma 5'6", muito pequenininha. Era uma prancha que eu mesmo tinha feito e que fez o maior sucesso no Arpoador. Por causa deste sucesso, eu acabei decidindo voltar para a Califórnia e transferi minha oficina para o Brasil. Voltei para o Rio em 1971 e montei a oficina no Recreio dos Bandeirantes. Produzi minha primeira prancha, levei ela para a praia e a vendi no mesmo dia. Em seguida, pintaram duas encomendas e dali em diante foi uma atrás da outra. Nesta época, no Rio, os surfistas ainda usavam pranchas muito primitivas.
In: Suas pranchas ficaram famosas por terem um acabamento refinado.
Tito: Nesta época, não havia muitos problemas de matéria- prima no Brasil. Havia, sim, falta de "know how". Entre outras coisas, já existia o poliuretano do Parreiras, que era bem razoável. Mas as pessoas não sabiam como trabalhar com a resina. Todo mundo trabalhava no olho. Era um dedal de catalisador, meia lata de iogurte de acelerador, tudo no chute. Eu cheguei da Califórnia com provetas, como se faz nos EUA. Na minha oficina era tudo milimetrado. Eu tinha um hidrômetro instalado na oficina e sabia direitinho se aquele dia estava mais ou menos úmido. Se estivesse muito úmido eu acelerava um pouco mais a resina. Fui montando as fórmulas. Eu fazia um processo científico de controle de qualidade para trabalhar com a resina. Deu tão certo que o próprio
fabricante de resina passou a enviar seus engenheiros para visitar minha oficina, porque eles queriam entender como eu conseguia dar aquele tipo de acabamento nas minhas pranchas. Ninguém sabia usar o monômero de estireno para dar o polimento. Todo mundo dizia que eu usava resina importada e durante um tempo eu deixei que as pessoas acreditassem nisso, mas a resina era brasileira e a fibra era a mesma que todo mundo usava. No fundo, o pessoal não tinha muita tecnologia. Era só isso.
Enquanto os demais fabricantes faziam suas pranchas na garagem de casa, eu fui o primeiro a montar uma tremenda oficina, com lâmpadas legais, parede pintada de preto, ventilação, máscara, controle de temperatura. Eu tinha um ambiente controlado para fazer as pranchas e fazia tudo sozinho, do início ao fim. Tentei ter empregados, mas nenhum deles conseguia dar o meu padrão de qualidade. Eu fazia duas pranchas por semana e tinha uma excelente margem de lucro, pois cobrava super caro. Os outros fabricantes faziam dez pranchas por semana, com um monte de operários, mas sem muita qualidade. Tinha fila de seis meses para pegar uma prancha minha. O cara dava 50% de sinal e esperava seis meses.
Foi quando encontrei um amigo economista e comentei com ele que eu estava virando um escravo da minha fábrica, já que tinha uma enorme fila de encomendas. Meu amigo economista me falou que a lei de mercado diz que se você tem muita procura por um produto, ele deve aumentar de preço, afim de selecionar o número de compradores, que pode proporcionar uma produção de qualidade e sem sacrifício. As pranchas naquela época custavam 100 dólares e eu comecei a subir o meu preço. Cheguei a 150 dólares, enquanto todo mundo continuava cobrando 100. Neste momento, o número de encomendas começou a diminuir e minha qualidade de vida a aumentar. Os outros fabricantes passaram a pedir que eu aumentasse ainda mais o meu preço, para que eles pudessem também aumentar os seus. No final das contas, eu estava cobrando 200 dólares e ninguém cobrava mais do que 130 dólares. Eu continuei com minhas duas
encomendas por semana, feitas para aqueles dois caras que queriam ter uma prancha com o meu padrão de acabamento. Eu tinha um ótimo lucro com estas pranchas artesanais e juntei uma tremenda grana, mas vivia modestamente e trabalhava de montão.
Em 1974, eu já estava cansado de trabalhar. Dei uma pirada, não agüentava mais o cheiro da resina. Também tinha um negócio que me causava uma mágoa muito grande, que era o fato das pessoas ridicularizarem as minhas pranchas, dizendo que elas eram bonitinhas, mas não tinham um bom shape. Eu enchi o saco disso. Chegamos a fazer uma brincadeira com o Geraldo Machado Costa, que gostava das minhas pranchas e era um surfistão da época. Eu ainda tinha uns adesivos da "Gordon & Smith", do tempo que eu trabalhava lá, e nós fizemos uma prancha com meu adesivo por baixo e o cobrimos com o da "Gordon & Smith". Ele foi para a praia com a prancha zerinho, dizendo que o tio dele tinha trazido da Califórnia. A prancha fez o maior sucesso na praia e todo mundo achou o shape maravilhoso. Durante uma semana, ele arrebentou com aquela prancha maravilhosa. Depois, com todo mundo no Píer, ele raspou o adesivo da "Gordon & Smith" na frente da maior galera. E lá estava o meu logotipo. Uma vez, eu li uma entrevista do André Pitzales na qual ele dizia que quando eu cheguei no Brasil acabei com o monopólio das pranchas importadas. Eu cheguei com um padrão de qualidade internacional e acabei levando os demais fabricantes junto comigo. O Mike Doyle, o Bill Bahne e vários outros shapers famosos na época, estiveram lá em casa e foram unânimes em afirmar que fora dos EUA e da Austrália, minhas pranchas eram as mais bem acabadas do mundo.
In: Como é que você foi parar de Land Rover na costa oeste africana e acabou dando carona para o Craig Peterson e o Kevin Naughton, dois surfistas americanos que estavam fazendo uma matéria histórica para a "Surfer"?
Tito: Depois que enchi o saco de fabricar pranchas no Brasil, eu vendi a fábrica e o galpão para o Rico. As ferramentas foram compradas pelo Henrique Schulemburg, que ficou um mês e meio comigo aprendendo a usá-las. Juntei todo dinheiro que tinha, fui para a Inglaterra, comprei um Land Rover, botei minhas pranchas no teto e fui buscar as ondas. Eu queria dar a volta ao mundo. Isso foi em 74. Eu acabei descendo a Europa de carro e chegando ao Marrocos, onde conheci o Kevin e o Craig.
In: Como se deu esse encontro?
Tito: Foi pura coincidência. Eu estava descendo de Casablanca para Agadir, procurando ondas. Já tinha surfado em vários lugares. O Marrocos é lindo e naquela época do ano o clima estava maravilhoso. Eu costumava pegar onda sozinho. Eu estava viajando com a minha mulher, mas quando chegamos ao Marrocos ela cansou e quis voltar para a Califórnia. Quando cheguei ao norte de Agadir, num pico chamado Killers Point, estacionei o carro e estava olhando as ondas, quando vi dois caras sentados. Eles pareciam ser americanos e estavam no maior baixo astral. Me lembro que tinha comprado um montão de tangerinas, que existem no Marrocos e são uma delícia. Fui até onde os caras estavam, ofereci umas tangerinas para eles e começamos a conversar. Eles estavam viajando de carona numa Kombi de um casal de australianos, mas acabaram se desentendendo com os donos do carro e tinham sido abandonados na praia. Eles estavam perdidos, sem grana e sem ter para onde ir. O Marrocos não é o lugar ideal para você ficar na roubada. Aquilo lá pode facilmente virar o fim do mundo. Então, eu perguntei se eles tinham algum dinheiro e se queriam viajar comigo. Eles falaram que tinham um pouco de dinheiro, que a "Surfer" estava mandando para eles. Aí eu falei que já tinha trabalhado para a "Surfer" e eles lembraram da minha reportagem, que havia sido publicada em 68, com o título: Rio - City of Love and Surf.
Essa foi a primeira matéria sobre o Brasil publicada pela "Surfer". Ela teve umas oito páginas e foi ilustrada com fotos minhas, do Greg McGilavry e do Jimmy Freeman, que estiveram no Rio, rodando um filme.
Então, eu botei pilha para eles viajarem comigo. Os dois passaram a bancar a gasolina e a comida. Esta nova situação era ideal para mim, já que eu tinha o carro, mas não tinha muita grana. Ficamos viajando pelo Marrocos por quase dois meses. Surfamos toda a costa marroquina. Quando nos separamos, eles foram fazer a América Central. Nós, então, planejamos uma outra viagem pela África, no ano seguinte. Nesta altura, eu já estava duro e precisava voltar para a Califórnia para trabalhar. Eles foram para a América Central e eu fui para a França, deixar o carro em Guetary. De lá, fui para a Califórnia, onde passei seis meses trabalhando. Acabei encontrando o Craig e o Kevin na Califórnia e pegando muita onda com eles, que já tinham voltado da América Central. Foi quando eu e o Craig decidimos fazer uma viagem pelo Saara, que até então nunca tinha sido surfado. Depois que refiz meu caixa, voltei para Guetary, junto com a minha mulher, peguei o Land Rover e descemos até o Marrocos para esperar pelo Craig. Mas ele não conseguiu a grana necessária para chegar até lá. Nós, então, voltamos para a Espanha e pegamos um navio para as Ilhas Canárias. Fiquei pegando onda em Las Palmas. O ano era o de 1975. Depois pegamos outro navio até Lanzarote, e outro que nos levou para Dakar, no Senegal. Quando chegamos em Dakar, o Craig já estava nos esperando. Subimos com ele para o Saara, na direção da Mauritânia e do Saara Ocidental. Depois descemos e fizemos a Gâmbia e o sul do Senegal, que tem ondas super legais. No final, entramos para o interior e chegamos na Costa do Marfim, onde eu tinha um amigão me esperando. Ficamos na Costa do Marfim pegando onda e fomos para a Libéria, que era considerado o melhor lugar de onda até então. Quando chegamos em Robertsport, o Kevin apareceu e nós ficamos um mês pegando ondas juntos. Mas eu já estava na África há dois anos e meio e comecei a ficar cansado. Acabamos sendo todos presos e quase fomos deportados da Libéria, sob suspeita de sermos espiões americanos. Eu já estava de saco cheio de tudo, vendi meu carro e voltei para o Brasil, para tentar fazer prancha novamente. Acabei desistindo de fabricar prancha e fui tentar ganhar dinheiro fazendo outras coisas. Mas continuei pegando onda.
In: O que representou o surf na sua vida?
Tito: O surf foi um fator fundamental. Foi através do surf que eu descobri a ecologia e acabei sendo um dos fundadores do Partido Verde no Brasil, candidato a vereador e editor de um jornal ecológico. Toda a minha militancia ecológica, o meu trabalho na FUNAI, fazendo demarcação do território Ianomami por dois anos... Tudo isso tem uma origem no surf, que me descarrilou da vida de "playboyzinho" do Iate Clube e das festinhas, que não faziam a minha cabeça. O surf é um esporte alienante, mas me trouxe toda essa consciência lúdica e espiritualizada, e o desejo de ser sempre mais. Aquela coisa mística de ver o pôr-do-sol acaba te trazendo muita consciência.
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