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Revista Webguide (03/2000)
Autor:
Data: 14/3/2000
Webguide: Quando e como começou o interesse pela Internet e em criar um site para demonstrar suas andanças?
Tito Rosemberg - Descobri a Internet no início dos anos 80 através de uma revista americana que eu assinava, chamada Co-Evolution Quarterly, editada em San Francisco pelas mesmas pessoas que estavam na origem do movimento hippie, que sempre me fascinou.
Ainda hoje muito poucas pessoas sabem que há quase 30 anos atrás, quando os militares americanos resolveram abrir a grande rede para os civis, foram alguns ex-hippies de Sausalito, San Francisco e Berkeley os primeiros que perceberam que ali estava uma fantástica ferramenta capaz de mudar o caminho da humanidade.
Eu sabia da existência do “Well”, um ponto de encontro virtual, quase uma lista de discussão entre estes ex-hippies, que se utilizavam do computador para mandar mensagens uns para os outros, e sempre falava sobre isso com os amigos no Brasil, tentando interessá-los para fazer algo igual no Brasil. Percebi logo que estava diante de algo que iria mudar o mundo, ainda que meus amigos não entendessem porque eu me interessava tanto pela Internet.
Nesta época a imprensa brasileira nem comentava que havia surgido essa tal de Internet, mas entre os “alternativos” americanos havia uma grande esperança de através deste novo meio romper-se o domínio das grandes empresas e grupos políticos sobre a transmissão eletrônica de informações e música. Eu mesmo ainda nem usava computador mas sabia que o futuro seria digital, tanto que quando o acesso à Internet, através do Ibase, começou a se tornar realidade no Brasil eu convenci muita gente a entrar nela.
Uma destas pessoas foi minha irmã Sonia Rosemberg, uma excelente artista plástica, que percebeu no computador uma ferramenta a mais para exercer seu talento, e logo estava desenhando coisas lindas para a Internet. Quando ela montou sua empresa virtual, a ART3D, eu pensei ter ali o caminho das pedras.
No final de 1996 eu estava começando a trabalhar com turismo ecológico na Califórnia e pedi a ela para fazer minha página. De lá para cá deu no que deu.
Webguide: como curiosidade, onde passou a virada do milênio?
Tito Rosemberg - Eu pensei que Roma seria um lugar bom para passar este ano do Jubileu de Cristo, porque para mim o milênio de verdade só começa em 2001. Mas depois de tudo que aconteceu em Roma nestes últimos dois mil anos, de horrível e de lindo, achei que seria um bom local para entrar o ano. Foi lindo! O maior e mais alegre congestionamento de trânsito que jamais vi na vida. Os romanos são absolutamente anárquicos e um carioca aqui se sente em casa. Depois disso surgiram uns trabalhos de fotografia e aí fui ficando até hoje.
Webguide: Com certeza deve ter passado por algumas situações engraçadas ou curiosas em suas viagens, poderia contar uma?
Tito Rosemberg - Em 1975 eu estava viajando pela Libéria, um país paranóico e desconhecido do oeste da África, com dois amigos americanos à bordo de um Land Rover procurando ondas boas para uma reportagem para a mais antiga revista de surf do mundo, a Surfer, da Califórnia.
Um dia estávamos num “point” perfeito, com ondas fantásticas, e resolvemos tirar umas fotos com o fotógrafo metido no meio da floresta fechada que circundava a praia e nós junto do carro na beira do mar, com as pranchas fincadas na areia.
Enquanto ele fazia as fotos e do meio da vegetação nos dizia para mudar a posição das pranchas, passou um oficial do Serviço Secreto local e desconfiou dos nossos objetivos. Em poucos minutos voltou com uma tropa de policiais e nos deu voz de prisão.
Logo estávamos os três mais as pranchas no gabinete do governador da província de Robertsport, um negrão alto e evidentemente muito poderoso que gritava incessantemente conosco em inglês, a língua oficial da Libéria. Ele nos chamava de espiões, dizia que as pranchas eram antenas que captaram as riquezas do fundo do mar, e as provas é que nós fomos vistos indo e vindo pela arrebentação sem pescar nenhum peixe, e naquelas partes do mundo só se vai ao mar para pescar.
Depois, para piorar nossa situação, ele achava que enquanto estávamos tirando as fotos e mudando a posição das pranchas fincadas de pé na areia, na verdade estávamos enviando com nossas “antenas” sinais para algum satélite distante.
Enquanto o governador gritava e nos ameaçava de fuzilamento por espionagem, seus auxiliares, uns oito caras, batiam palmas a cada nova frase do chefe. Uma cena psicodélica. Os caras gritando e aplaudindo e nós de calção e prancha no gabinete finamente decorado. A sorte foi que minha esposa, uma americana, que viajava conosco, tinha ficado no hotel e ao saber por pescadores do que tinha acontecido ligou para a embaixada americana em Monróvia e pediu socorro.
Lá pelas tantas, enquanto o governador enfurecido nos afirmava que “sua pele era negra mas seu cérebro era de branco”, que "tinha sido embaixador na Inglaterra", que "nós não conseguiríamos enganá-lo com nossas desculpas", toca o telefone e a onça vira ovelha. Era o próprio embaixador americano “pedindo” para nós sermos soltos. Após apenas alguns minutos o governador desliga o telefone e irado nos “expulsa” de seu estado, e nos dava uma hora para sairmos da cidade. Nunca mais voltei à Robertsport, mas soube que numa revolução menos de um ano depois, este mesmo governador psicopata foi amarrado num poste e linchado pela multidão enfurecida. O destino quase sempre é trágico com os medíocres.
Webguide: Como é o retorno do site?
Tito Rosemberg - Tem sido muito interessante manter o site. Já fiz muitos novos amigos, conheci gente muito simpática. E o mais interessante é que eles são de todas as partes do Brasil e até do mundo. Já recebi mensagens até da Rússia.
O retorno comercial foi limitado, pois no início eu vendia os passeios de motorhome pela Califórnia e no Brasil a maioria das pessoas é muito comodista e gosta de luxo, ou é pobre e fica só no sonho. Agora que não estou mais fazendo os passeios pelos parques nacionais do oeste americano, transformei o site num jornal de viagem, onde vou colocando as fotos e as histórias que vão acontecendo enquanto sigo meu destino de nômade pelo mundo afora.
Webguide: Tem algum controle sobre o numero de acessos?
Tito Rosemberg - Eu sei quantas pessoas visitaram por causa do contador na página de abertura, mas acessando periodicamente meu provedor posso saber de que país vieram os visitantes, e esta é a parte mais interessante, pois mesmo o site sendo quase que exclusivamente em português, tem muita gente da Escandinávia, Alemanha e Estados Unidos que o visitam.
Alguns são brasileiros que vivem fora, mas muitos são gringos mesmo. No início eram uns dez por dia, depois foi aumentando até que hoje são umas 50 visitas por dia, o que considero muito já que no meu site não tem mulher pelada, não tem prêmio, não tem nada à venda.
Minha página hoje é um Diário de Bordo, um site de jornalismo de viagem, um ambiente cultural.
Webguide: Como é o retorno dos internautas? muitos e-mails pedindo dicas sobre os lugares em que ja esteve?
Tito Rosemberg - O retorno é o melhor e o pior da página. O melhor é porque quando se está perdido em algum país distante é uma delícia manter o contato com pessoas afins e amigos.
Antes da Internet dava a maior solidão, uma sensação difícil de se conviver, mas hoje, graças à minha página estou sempre em contato. Também é um grande prazer poder ser útil para as centenas de pessoas que me escrevem pedindo dicas sobre lugares, veículos para se fazer uma expedição e mil outras informações.
Tem jovens que me escrevem perguntando como se faz para viajar como eu ou como escolher uma profissão, tem adultos que me escrevem contando das suas frustrações de não terem seguido seus instintos e viajarem mais, tem os desencantados que reclamam da vida que levam, tem os esperançosos, que fazem o que podem para poder viajar e conhecer o mundo. É um barato que não tem sequer como se descrever.
O pior é ter que arranjar tempo para responder a todos, pois nunca deixei sem resposta um e-mail sequer, por mais doida que seja a pergunta e olha que só de visitantes recebo uns 10 e-mails por dia. Aliás, como curiosidade, guardo todos os e-mails que recebi em minha vida virtual. Nunca apaguei um só e-mail recebido, a não ser os de SPAM, que é o câncer da Internet! Odioso!
Webguide: Para que usa mais a Internet?
Tito Rosemberg - Depende do sistema telefônico do país em que estou. Quando estou nos Estados Unidos, onde a ligação local, ou seja para o provedor, é grátis, passo horas lendo jornais brasileiros, acompanhando os escândalos que vão se revezando.
Também gosto de ouvir as rádios brasileiras através do Real Audio, pois é muito bom saber o que vai surgindo de novo na música nacional. Mando fotos para amigos e parentes mas não gosto de recebe-las pois demoram muito tempo para baixar, e quando se usa telefone emprestado não é elegante ocupá-lo por horas. Para enviar fotos eu as reduzo para uns 30 kb, mas as pessoas que não entendem como se faz isso mandam fotos enormes e um dia me mandaram uma de 8 megabytes! Quase matei a autora! Levou uma hora e meia para baixar!
Quando o sistema telefônico é um assalto, como no Brasil e na Europa em geral, onde usar o telefone é caríssimo, navego pouco pela Internet pois o custo da viagem aumenta consideravelmente.
Os governantes que deixam as empresas telefônicas cobrarem caro dos consumidores são burros e estão traindo seus países pois ao impedirem o livre acesso à Internet estão atrasando o desenvolvimento da informática e portanto travando o desenvolvimento de seus países.
Os americanos perceberam isso há muito tempo e facilitam o acesso à Internet cobrando baratíssimo as ligações ou nem cobrando, mas no Brasil como aqui na Europa, se depender de mim, os donos das empresas de telecomunicações um dia deveriam ser julgados pelo crime de lesa-pátria.
Webguide: Já existe alguma viagem programada?
Tito Rosemberg - Tem tantas... A Índia, o Nepal, Tibet e arredores estão na fase de planejamento. A Austrália é um sonho ainda não realizado. São tantos os lugares do mundo onde ainda não estive que me surpreendo quando alguém acha que os 80 países que conheço são uma imensidade.
O planeta é pequeno, mas dá um trabalho enorme conseguir chegar aos lugares mais primitivos. Mas creio que aos 53 anos de idade ainda tenho bastante espaço para expandir minha consciência e conhecimentos e tempo para viajar.
In Shalah!
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