Entrevistas

Revista Automóvel Aventura (06/2000)
Autor:
Data: 14/6/2000

Automóvel Aventura: Como começou a sua atração pela aventura?

TR - Acho que ter um pai que viajava muito foi fundamental. E ainda por cima um pai jornalista, que aguçava a curiosidade e estimulava o conhecimento. Minha casa vivia cheia de revistas do mundo inteiro e eu fui aos poucos ficando incapaz de conter meus sonhos e capaz de realizá-los.

Automóvel Aventura: De que forma todas essas experiências mudaram sua visão do mundo e sua maneira de se relacionar com as pessoas?

TR - Não dá para ser o mesmo depois de conhecer 80 países e tantas culturas diferentes. Principalmente porque eu nunca gostei de fazer turismo. O que eu gosto mesmo é de me integrar em outros países, morar neles, arranjar trabalho, namorar, ser o máximo possível como um cidadão nativo: ter conta em banco, pagar aluguel, conta de luz, gás, telefone, etc. Sempre que posso passo meses em cada lugar. E quanto mais você conhece a vida e a língua dos nativos, mais você expande seus horizontes, mais você avança psicologicamente, torna-se mais capaz de entender as coisas sob prismas diferentes. Além do português, aprendi nas ruas a falar inglês, espanhol, francês e agora italiano. É claro que passei a ser um pouco destas culturas.

Automóvel Aventura: O que o levou a deixar o Brasil?

TR - Na verdade é a filosofia da bagunça geral que infiltrou-se no tecido social do país. Hoje começo a achar que os brasileiros, com raras e honrosas exceções, levaram a sério demais a anti-ética do “tem que se dar bem em tudo”. Eu acho que a maioria dos brasileiros gosta disso, porque senão gostassem não teríamos os políticos temos, eternizando a falta de terra para as famílias rurais e a falta de emprego para as famílias urbanas. Eu não consigo conviver com a miséria que está nas ruas. Por isto me envolvi, com muito prazer, na política brasileira. Cheguei a ser candidato a vereador e a deputado, mas depois de anos, de perder muito tempo e dinheiro, achei que estava na hora de dar baixa no “exército da salvação”. Voltei para a estrada com a consciência limpa.

Automóvel Aventura: Por que a escolha da França e agora da Itália?

TR - A França sempre me fascinou por diversas razões, algumas sofisticadas, outras prosaicas. É um dos berços da cultura ocidental, tem uma sociedade muito desenvolvida, com pouco contrastes econômicos, uma política social interessante e oferece uma base confortável para as viagens que faço. Sem falar que Guethary, a aldeia onde moro quando estou lá, tem 3 mil habitantes e fica a poucos minutos da fronteira com a Espanha, no coração do país basco, e à beira mar, com as melhores ondas da Europa para a prática do surf, esporte que pratico há 37 anos. Mas faz frio e chove muito.

Em Roma faz muito mais sol e é mais quente. É uma metrópole fascinante. Eu estava a muitos anos morando em cidades pequenas, e não agüentava mais o ritmo das cidades grandes. Nos Estados Unidos morei em La Conner, Washington e Encinitas, na Califórnia. No Brasil morava em Búzios e na França, em Guethary. Todas elas pequenas comunidades, muito menores do que Guarujá ou Cabo Frio, sem grande vida cultural, e sem como ganhar dinheiro. Eu estava precisando de parar de viajar um tempo, juntar um capital para poder estar mais tranqüilo em relação ao futuro. Aqui trabalho como fotógrafo free-lance para jornais e revistas do Brasil e de Portugal. E aprendo a maneira de viver de mais uma cultura exótica: a italiana do sul, doida, anárquica, rebelde, individualista e calorosa. Vai entender! Acho que se um dia o Brasil der certo, vai ser igual à Itália, com tudo que tem de bom, e o que tem de ruim também.

Automóvel Aventura: Quais são seus planos na Europa?

TR - Penso em estabelecer uma base para poder deslocar-me com facilidade pelo mundo. Aqui encontra-se mais trabalho, ganha-se muito melhor, o custo de vida é similar ao brasileiro e as passagens para qualquer lugar do mundo são baratas e estão sempre em promoção. Não dá para resistir.

Automóvel Aventura: Como é o seu dia-a-dia hoje?

TR - Tento levar uma vida calma, mas isto nem sempre acontece. Estou parado, sem viajar para fora da Itália há 4 meses, e por isto, como era meu objetivo, fiz muitos amigos, passei a ter uma vida social e cultural muito intensa. Eu acho excitante o desafio de parar de viajar tanto e dar um tempo para a cultura sedentária. É um desafio. Tento fazer os dias diferentes uns dos outros. Além disso trabalho muito na manutenção da minha página na Internet, a www.titorosemberg.com, que mantenho há 3 anos no ar com fotos e textos das minhas viagens. É um serviço que presto aos jovens iniciando-se na vida de viajante. Escrevo uma coluna semanal para um site de viagens, o www.ziptravel.com.br. Tiro fotos, escrevo e passeio o mais que der. E ainda ter tempo para namorar! É uma loucura!

Automóvel Aventura: Existe algum lugar ou alguma aventura que você não conseguiu realizar?

TR - A Austrália! E fico triste quando alguém que visita meu site escreve uma mensagem perguntando porque não achou fotos da Austrália. É uma cratera no meu currículo, mas tem suas razões. Lá só se chega de avião ou navio. E só se sai da mesma maneira. As duas opções são caras. É um continente, mais do que um país distante, e precisa-se de pelo menos 6 meses para se conhecer o país todo. Um dia ainda vou fazer amigos num consulado australiano e consigo o quase impossível visto prolongado e aí sim vou lá, visitar tantos lugares desejados que já os conheço de imaginação. Este ano era para ser o “Ano da Austrália”, ia levando meu Land Rover de navio. Mas preferi me dedicar um pouco ao trabalho e a novas amizades. Por isto mudei de planos e estou aqui em Roma.

Automóvel Aventura: Com todas essas viagens, como era possível se relacionar com família, amigos, namoradas?

TR - Nunca foi fácil. Com a família, nos primeiros anos era só conflito, eles achando que eu não gostava deles. Depois entenderam e aceitaram meus hábitos nomádicos. Com os amigos e amigas é uma tristeza ter que deixá-los para seguir viagem. No amor as namoradas as coisas são ainda mais difíceis. O coração racha algumas vezes por ano. Não é fácil deixar um grande amor. Por isto tento voltar antes de ser esquecido. A namorada porém está sempre com um pé atrás.

Automóvel Aventura: Quais as principais dificuldades encontradas nas grandes expedições? Afinal, na época que você atravessou o Sahara e as Américas, as expedições ainda eram muito raras.

TR - Acho que a maior dificuldade era superar a suspeita dos nativos, que não estavam acostumados aos viajantes que passavam só olhando, aprendendo, vivendo. Várias vezes fui confundido com espião, desde da CIA, do Mossad e da KGB. Perdi as contas de quantas vezes fui preso por estar fazendo alguma coisa de “diferente”, como surfando na Libéria e acabar em cana por não poder explicar o que fazia dentro da água.

Automóvel Aventura: Como você conseguia levantar dinheiro para suas expedições?

TR - Sou maníaco. Quando trabalho viro 16, 18 horas por dia, gasto o menos possível, economizo grana como camelo economiza água para os dias ruins pela frente. Por esta razão já tive mais de 30 profissões diferentes, como tratorista, chofer de táxi, padeiro, pintor de paredes, cantor de rua, fabricante de prancha de surf, carpinteiro, construtor, editor de jornal, barman e tantas outras. Conseguir patrocínio na minha época de viajante iniciante era mais difícil do que fazer a travessia do Sahara. As empresas brasileiras só agora despertam para este modalidade de evento que traz muito retorno publicitário. Na minha época ou você tinha “pai-trocínio”, que nunca foi meu caso, ou você metia a cara no trabalho e vivia modestamente, para depois poder passar um ou dois anos sem trabalhar, só viajando. Mas sempre fiz isso modestamente, e até hoje já morei 13 anos em cima de rodas, de jipe, Kombi, trailer e até motorhome. Há poucos anos, com a morte de meu pai, depois de décadas dormindo em veículos e barracas, recebi um pequeno mas bem vindo “capital de giro”.

Automóvel Aventura: De todos os lugares pelos quais você passou quais mais marcaram pelos aspectos positivos e negativos?

TR - No lado negativo acho que foi a Colômbia, pela violência generalizada. Todo o tempo que passei lá estava tenso. No lado positivo tem tantos que fica difícil acentuar um só. Todos os lugares são lindos e horríveis. Alguns mais uma coisa, outros menos, mas a beleza de um lugar está mais no nosso olhar e na nossa capacidade de entender o que se passa, sem preconceitos. Isso sim é que é difícil e define a maneira com que cada um de nós vê a mesma cena. Nunca encontrei um lugar que fosse só ruim, como nunca encontrei um lugar onde só houvessem coisas boas.

Automóvel Aventura: O que você diria para aqueles que estão entrando no mundo da aventura?

TR - Aprenda a ser humilde e orgulhoso na dose certa. Tem hora para avançar, tem hora para voltar atrás. Esteja seguro de si mesmo, mas nunca tenha certeza de nada. Saiba que por mais radical que seja o que você está fazendo, sempre alguém já fez melhor do que você. Ou vai fazer em breve. Desafie-se a si mesmo e não a natureza ou os acidentes geográficos. Entre em sintonia com os elementos. Quando você souber apreciar as coisas simples, como um pôr do sol, o canto de um pássaro, o ruído do vento nas árvores, as ondas no mar de ressaca, aí você encontrará a paz que faz parte da vida dos verdadeiros nômades.

Automóvel Aventura: Conte com detalhes um ou dois momentos muito marcantes em todas essas viagens.

TR - Tem um momento que tornou-se um ícone na minha vida. Foi em 1974 e eu viajava pela primeira vez pelo Marrocos num Land Rover com minha namorada americana, que trouxera com ela uma fita cassete de um grupo que, muitos anos antes havia feito parte da minha formação, o Crosby, Stills, Nash and Young. Num final de tarde, início de noite, uma lua cheia incrível subindo do horizonte sem vegetação nenhuma, nos aproximávamos de um dos mais belos oásis da região, que é o de Marrakech, quando começou a tocar a música “Marrakech Express”, que muitos anos antes eu ouvia sonhando com a cena que agora tornava-se realidade. Comecei a chorar de emoção. Sempre que volto a Marrakech me lembro da música.

Automóvel Aventura: Houve alguma situação na qual você pensou que não iria escapar?

TR - Já houve algumas, como quando em 1975, na Libéria, fui preso pelo Serviço Secreto local enquanto surfava com amigos. Eles ficaram grilados em nos ver indo de um lado para o outro do mar sem pescar nada. O que poderíamos estar fazendo? Eles nunca tinham ouvido falar de surf. Acharam que estávamos pesquisando por petróleo sem autorização do governo. Viram nas pranchas potentes sonares sondando o fundo do mar. Só escapei porque meus amigos eram americanos e o embaixador americano ligou para o governador da província, e na nossa frente deu a maior bronca nele. As embaixadas e consulados do Brasil nunca me ajudaram, pelo contrário, sempre que puderam me trataram com desprezo. Na Mauritânia roubaram meu passaporte e o consulado em Dakar, no Senegal, queria que eu voltasse imediatamente para o Brasil. Não queriam nem entender que eu estava com mulher, carro e equipamento todo me esperando na Mauritânia. Nunca vou me esquecer da minha cara desesperada e o Cônsul brasileiro em Dakar, em 1975, discutindo o cardápio do jantar com um amigo do consulado argentino. Gostaria de encontrá-lo um dia.

Automóvel Aventura: Você é casado? Tem filhos?

TR - Sou um homem de sorte, pois sou um péssimo paquerador. E adoro estar casado. Já tive dois casamentos no papel, com uma americana em San Diego, na Califórnia e com uma irlandesa em Londonderry, na Irlanda do Norte. Também tive ótimas relações duradouras, mas sempre que batia o desejo de viajar, na estrada ou na cabeça, a reação começava. Permaneci amigo de todas elas, pois até hoje são pessoas fantásticas.

Mesmo assim, nunca tive filhos. Acho que não deu tempo. Do futuro não posso falar, deixo nas mãos do destino, sempre sábio.

Automóvel Aventura: De alguns anos para cá, o “mercado de aventuras” cresceu muito, surgiu uma mídia especializada e muitas pessoas, mesmo algumas que nunca fizeram isso antes, estão montando projetos de expedições buscando patrocínio, querendo fazer pesquisas ambientais, escrever livros etc. Como você vê essa explosão aventureira?

TR - Acho sensacional. Mesmo que seja só uma moda, o que pode ser, sempre vão ficar ótimas experiências, gente com muito conhecimento, narrativas emocionantes e mais incentivo para outros jovens caírem na estrada. Noto que ultimamente há um certo ênfase em “radicalizar”, em ser “no limits”, que creio ser só um primitivo rito de passagem para jovens com excesso de testosterona. O grande barato é conhecer o mundo e outras culturas, fazer amigos do outro lado do planeta. As dificuldades são contingências da busca, e não o objetivo. Buscar dificuldades pelo prazer de superá-las é algo que não entendo. Nunca fui masoquista. As dificuldades aparecem quando queremos conhecer algo primitivo e portanto é complicado de chegar lá. Mas atravessar o Sahara só para dizer para os amigos que o fez, deve ser uma das inutilidades que se pode fazer, ainda que eu conheça alguns que o fizeram.

Fico um pouco triste de, como um dos pioneiros do jornalismo de viagens no Brasil, ter sofrido com todas as dificuldades que atrapalham a vida de quem quer que comece qualquer coisa nova. Hoje deve ser muito mais fácil conseguir patrocínio. Quem sabe sobra até um para mim?

Automóvel Aventura: Qual e quando será a sua próxima expedição?

TR - Acho que nos próximos 20 anos, pois tenho 53, ainda vai dar para conhecer bem a Austrália, a África do Sul, o Tibet, Nepal, Índia, Terra do Fogo, as ilhas do Pacífico Sul. Nossa! Tem tanto lugar incrível que não conheço que dá coceira só de pensar! Os projetos são ambiciosos, mas com sorte o tempo vai dar!