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Jornal Motocycle (07/2000)
Autor:
Data: 14/7/2000
Como começou a sua vida de aventureiro?
Acho que tudo sempre começa enquanto somos crianças. Aos meninos os pais sempre dão jipinhos e motocicletinhas para brincar, depois a gente cresce mas continua com os mesmos brinquedos e não quer mais parar de brincar. Os americanos dizem que “the difference between men and boys is the price of their toys” ( a diferença entre os homens e os meninos é o preço dos brinquedos deles). Eu sempre achei que a vida deveria ser vivida como uma grande brincadeira. Primeiro porque tive esta oportunidade ao nascer involuntariamente numa família de classe média, que me deu uma ótima escolaridade. Só isso já me fazia uma pessoa de muita sorte quando considero uma visão global do país onde nasci e vivi, pois a maioria nasce na dificuldade e vive na miséria. Talvez por isto eu sempre tivesse tido a responsabilidade de saber aproveitar esta sorte que o destino me deu. Desde pequeno vivia sonhando com terras distantes, o convívio com culturas exóticas, a natureza completamente diferente daquela no entorno da minha casa no Rio de Janeiro. Assim que meus pais me deram a chave de casa, comecei a viajar. Primeiro atrás das ondas do surf nas praias distantes do Rio, depois atrás de reportagens para revistas e jornais, a grande desculpa que arrumei para estar sempre na estrada. Acho que o nômade já nasce com a filosofia no sangue. Hoje, olhando minha vida numa retrospectiva, tenho certeza de que sempre fui um nômade.
Qual foi sua primeira grande viagem, que idade tinha e por quais dificuldades passou?
Acho que meu batismo de fogo, foi quando em 1969, com 23 anos, jornalista e já desgostoso com a cena nacional, gente fina desaparecendo, gente feia dando ordens, resolvi partir em busca da terra sonhada, essa coisa etérea que parece viver sempre na alma do viajante. Vendi todos os meus bens e parti para a Europa atrás de um amigo que estava morando em Londres e sobrevivendo lavando pratos em restaurantes. Acabei ficando quase um ano lavando pratos e convivendo com a época mais sensacional da capital inglesa. O começo foi muito difícil porque pela primeira vez eu estava longe mesmo da família e sem a possibilidade de pedir qualquer socorro pois eles estavam super tristes por eu ter abandonado tudo no Brasil e não iam me ajudar a ficar longe. Mas foi nesta época que consegui pela primeira vez viajar a Europa toda à bordo de um Austin Mini, com mais três amigos argentinos. Sobrevivíamos cantando folclore latino americano nas esquinas das grandes cidades européias, e na época fazíamos até 50 dólares por noite, uma baita grana. Mas a verdade é que meus amigos cantavam muito bem e conseguimos viajar à bordo do Mini através da Inglaterra, França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Noruega, Suíça, Áustria,
No começo desta viagem européia, aprendi a viver só, estar só, comer só, dormir só e viajar sozinho, o que para mim foi um grande desafio. Aprender a conviver com a solidão foi o meu batismo de fogo. E eu nem falava inglês naquela época. Foi uma barra emocional muito pesada. E a maior força de um verdadeiro viajante tem que ser o lado emocional.
Nas suas andanças, qual foi o lugar que mais te impressionou e por quê?
Muitos lugares me impressionaram e me encheram de adjetivos. As San Juan Islands, na Baía de Puget, na costa noroeste dos Estados Unidos são um arraso. Lá encontrei a paz que nunca imaginei existisse no mundo. Vive-se em meio a uma natureza exuberante. O único problema é a chuva meio freqüente e o inverno gelado. Grenada é uma ilha do Caribe que nunca vou esquecer. As pessoas são simpáticas, as florestas deslumbrantes e as praias espetaculares. O Saara está no alto da lista, pois é onde o ser humano fica totalmente despido de interferências externas. Jesus, Moisés, Buda, Saint Exupery, Albert Camus e outros grandes pensadores foram para o deserto em busca das suas verdades. Adorei o silêncio que só existe em meio ao nada total onde vivem os tuaregs, gente com uma dignidade rara no mundo de hoje. Mas depois de conhecer 80 países e viver em mais de 20 deles, ainda acho que o lugar que mais me toca é a Amazônia. Lá a força da natureza é eletrizante, apesar do calor quase desconfortável durante parte do ano. A extensão do verde, vista do avião ou do alto das montanhas, é hipnotizante e traz uma sensação de espaço, que só encontrei no Saara. Aliás, acho que a Amazônia é o Saara cheio de árvores, é um deserto verde, e em ambos a sobrevivência é um desafio cotidiano. Viajando de canoa nos rios, convivendo com a população ribeirinha e sua sabedoria singela, perdendo-se pelos igarapés jamais idênticos, vivi um verdadeiro sonho. É num barco viajando pelos rios da Amazônia que sempre me vejo quando penso se um dia fosse me aposentar, o que acho meio difícil.
Você já conhece 80 países, é o suficiente ou tem planos de aumentar esse número? Se tem, qual será o próximo destino?
Acho que 80 é pouco. Quando criança queria conhecer todos os países, e naquela época eram só 135, me lembro bem. Hoje leio que são mais de 220! Já me contento em conhecer todos os ecossistemas do mundo, se der, antes de morrer. E destes, faltam poucos. Mas há muitas culturas que me fascinam e que ainda não conheci. Todos os dias planos de viagem borbulham na cabeça. Pensei em passar este ano entre a Austrália e o Oriente, que não conheço quase nada. Mas a Itália me seduziu. Eu estava numa época de muito isolamento, e pensei que seria bom passar um tempo convivendo com as pessoas informadas, que encontra-se com facilidade nos grandes centros urbanos. Roma era uma opção nova, meu domínio da língua italiana estava enferrujado, algumas amizades especiais falaram alto e vim para cá. Não me arrependo pois estou diariamente aprendendo alguma coisa nova e viajar é meu vício, não a aventura, e aqui em Roma aprendo tanto quanto em Alice Springs, no meio do deserto da Austrália. Só em ir entre minhas residências temporárias já é uma viagem. Sou sócio de uma casa em Guethary, na França, hospede eterno de amigos de 25 anos em Encinitas, na Califórnia e cheio de tralhas ainda em Búzios, onde vivi muitos anos, e no Rio, onde mora minha mãe. Ah! Essa vida nômade!
O que fascina nas suas viagens que te faz querer viajar sempre mais e mais?
Adoro viver sem compromissos, o relógio só como adereço, referência de tempo entre a partida e a chegada. Gosto muito de acordar e saber que o dia será cheio de coisas novas, curiosas, inesperadas. Tendo a surpresa como parceira de cotidiano. Fazendo a vida a medida em que ela vai se desenvolvendo. É muito instigante conviver com pessoas que pensam, agem e são diferentes de nós. Quando estou no meio do Saara, ou de qualquer outro lugar muito longe do mundo “civilizado” (aspas do autor) me sinto mais humano, mais real, mais consciente da minha personalidade única, me sinto mais eu mesmo.
Há quanto tempo está longe do Brasil? Pretende voltar a morar aqui algum dia?
Dos 23 anos de idade até hoje já morei mais fora do que no Brasil. Nos Estados Unidos tenho “green card”, verdadeiros amigos que considero família, acesso à trabalho e um inserimento social tão fácil quanto no Brasil. Vivi muitos anos na Califórnia que considero como uma das minhas “origens”. Lá é sempre fácil trabalhar, nem que seja de padeiro ou carpinteiro, e levar uma vida digna.
Em Guethary, pequena cidade no sudoeste da França, de frente para o Oceano Atlântico, lugar que freqüento há mais de 30 anos, tenho amigos, agora a sociedade numa casa, e uma história longa. É com certeza um dos lugares mágicos ao qual sempre retornarei, se não para viver, pelo menos para recarregar as baterias nas altas montanhas dos Pirineus.
Roma me oferece hoje emoção, paixão, informação e realização pessoal, como fotógrafo. Estou feliz aqui, ainda que não possa dizer quanto tempo permanecerei aqui.
Considero-me um “auto-exilado” porque sou na verdade um apaixonado pelo Brasil, o lugar mais mágico que conheço no mundo. Se não fossem algumas peculiaridades brasileiras, voltaria hoje mesmo, no primeiro avião. Mas a nossa cultura de “levar vantagem em tudo” me assusta, porque não sou um cara competitivo, e o Brasil é o país da competição o tempo todo, no trabalho, no trânsito, nas ondas do surf, nas relações... ufa!!! Cansa depois de um tempo e eu parto. Vivo muito mal com a corrupção, a violência e quem produz tudo isso, que é nossa elite que não se envergonha de explorar o trabalho semi-escravo para poder jantar no Maxim’s de Paris o equivalente a 5 salários mínimos. A desigualdade social e a injustiça brasileira são a vergonha que carrego estes anos todos pelo mundo afora, pois sempre me perguntam sobre estes temas, onde quer que eu vá. É um saco! Além do mais, se só trabalhasse no Brasil, mal conseguiria pagar as contas, muito menos juntar uns trocados para poder sair viajando por aí, meio sem lenço nem documento, como dizia Caetano. Mas as paixões não são coisas fáceis de se explicar, com o Brasil é assim.
Você já teve algumas motos, de qual delas tem as melhores lembranças e por quê?
Pelas últimas contas, já tive 25 veículos de duas rodas. Tenho que explicar direito porque como apaixonado por duas rodas motorizadas, quando tenho grana ou sorte tenho motos poderosas, mas quando a grana anda curta e o mercado alto, ando de Mobylette, Puch, Garelli e qualquer outro ciclomotor que passar pela frente. Minha maior moto foi uma Kawasaki 900 Z1, que me levou para passeios fantásticos montado nos 4 cilindros que nunca nos 12 meses que esteve na minha mão, entrou numa oficina sequer, e olha que fiz mais de 25 mil km com ela. Gosto de motos grandes, e curti muito a Honda 750 Four que usei muitos anos atrás. Agora tenho no Brasil uma Yamaha XTe 600, que quando estou por aí, uso para ir e voltar todas as semanas de Búzios. Faço com ela uns 3 mil km por mês e depois guardo até o próximo retorno. Por esta razão, no Brasil não tenho carro e só ando de moto. Aqui na Itália comecei com um pequeno ciclomotor da Garelli, 25hp, que uma amiga me emprestava por longos períodos. Conheci Roma inteira com ela, e no inverno! Depois um amigo fotógrafo que viaja muito pelo mundo deixou comigo uma BMW F650 ST, uma trail super macia que uso para fazer uns passeios pela Toscana e aqui pelas montanhas no entorno de Roma, onde há estradas sensacionais para se passear de moto. Meus pneus gastam mais dos lados do que no meio...
Adoro viajar de moto. No Brasil fiz uma viagem de 6 mil km pela margem do Rio São Francisco e sertão da Bahia e Piauí, voltando pela BR101 curtindo todas as praias desde Recife até o Rio. Acho que não deve haver estrada da Califórnia que eu, um ou outro dia, não tenha passado de moto. É delicioso passear de moto pelo deserto de Mojave, descer até o Vale da Morte, acampar em Joshua Tree, subir as trilhas da Sierra Nevada. Não há nada no mundo que seja melhor do que passear de moto num lugar sem tráfego, no meio de um bosque, nadar num rio. Infelizmente sempre fiz essas coisas sozinho, porque a maioria dos meus amigos estavam presos aos compromissos de sempre. Coisas da vida!
Qual foi o maior percurso que você já fez de moto e quando foi?
Acho que foram os 6 mil km da viagem do Rio, subindo até Belo Horizonte por trilhas, depois até a represa de Três Marias e de lá pela margem do Rio São Francisco até o mar, e vir de volta ao Rio parando nas praias do caminho. Foi numa Honda XL 250 que ainda não tinha feito a revisão dos 5 mil km quando parti. Essa viagem foi em 1986, depois que voltei do Camel Trophy.
Nos conte alguma aventura sua sobre duas rodas.
Parece incrível, mas meu maior desafio de moto foi quando eu trabalhava como diretor de uma agencia de notícias no Rio, e tinha que duas vezes por mês ir à São Paulo ver clientes. Na época eu ia sempre com uma Honda CB400, mandava as roupas elegantes de ônibus e batia a Dutra ida e volta semana sim, semana não. Teve vez em que eu saía de noite de Sampa, chovendo a cântaros, e chegava no Rio com a mesma chuva. Viajar de noite, com chuva, na Dutra, cheia de caminhões, isso sim é que é aventura para macho nenhum botar defeito. Ultrapassar um caminhão a 120 por hora numa situação destas é brincar com a morte, mas de muito perto. Mas, acreditem se quiserem, ainda estou aqui para contar a história. Não é à toa que perdi muitos amigos na vida motociclística.
O que acha do Jornal Motocycle? Como o conheceu?
Acho legal toda a imprensa segmentada. É muito bom a gente ir num site ou numa revista e só ler aquilo que nos interessa, em detalhe, as novidades, as viagens dos outros, mais malucos do que nós, o mercado, as novas tecnologias. Sempre compro revistas de moto quando viajo para conhecer os mercados locais. Conheci o Jornal Motocycle viajando pela Internet, buscando novidades, e sempre querendo ver as viagens dos outros, suas experiências, dificuldades, prazeres. Agora em Roma só tenho celular e por isto anda difícil navegar na Internet como fazia antes, e por isto confesso que não tenho visitado muito seu site. Mas assim que tiver um telefone fixo...
Depois de tantas aventuras você se considera uma pessoa realizada ou ainda existe algo que gostaria muito de fazer?
Acho que me sinto realizado, porque fiz muita coisa para os 53 anos que tenho. Sinto um certo prazer quando as pessoas me perguntam como consegui fazer tanta coisa numa vida só. Mas me esforcei muito. Abri mão do conforto para poder correr atrás dos meus sonhos, das minhas fantasias e até mesmo alucinações. Todas me enriqueceram, até aquelas onde quebrei a cara, porque me ensinaram alguma coisa. Para viver tudo que já vivi, fui obrigado a morar 13 anos em cima de rodas, sejam de trailers, campers, motorhomes, Kombis, Land Rovers ou simples carros pequenos, como o Austin Mini que foi minha residência durante muitos meses quando eu tinha 24 anos. Mas daí a dizer que estou satisfeito vai um espação. Ainda tenho muito gás e muita coisa está por ser vista e vivida. Agora tomei como decisão não fazer mais planos e ver para onde a vida vai me levar. Apesar da decisão ser recente e eu ter muita dificuldade em aceitá-la, já começo a ver os resultados aparecendo numa maior apreciação do presente, menos dependente de um projeto a ser realizado, para ser feliz. Às vezes o grande desafio é viajar para dentro de nós mesmos, e esse eu não posso perder.
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