Entrevistas

www.waves.com.br (12/2000)
Autor: Nancy Geringer
Data: 19/12/2000

IMPRESSÃO DIGITAL - entrevistas

Viaje nas aventuras de Tito Rosemberg

Tito Rosemberg, tem 54 anos e muitos deles dedicados ao surf e às aventuras. Nesta entrevista concedida à jornalista Nancy Geringer, o carioca que hoje vive em Roma, fala sobre os primórdios do surf no Rio de Janeiro e narra algumas de suas aventuras pelos 80 países que visitou. Para homenageá-lo, o jornalista e fotógrafo Daniel Neris escreveu uma crônica muito maneira, inspirada nas experiências e relatos deste mito do surf brasileiro.

Tito Rosemberg: as aventuras de um soul surfer brasileiro

Por Nancy Geringer 19/12/2000

Carioca, nascido na Urca, Tito Rosemberg, 54 anos, é uma das pessoas que melhor representam o estilo nômade que caracteriza os surfistas. Fez as mais loucas viagens, a bordo do seu motor-home, de Land Rover, ou até mesmo a pé. Passou por 80 países em busca de onda, cultura, trabalho e muita aventura.

Entre as muitas trips, só para citar algumas, viajou por todo litoral entre San Francisco e San Diego morando em comunidades alternativas. Fez expedições ao interior do deserto e das montanhas do Marrocos, surfando por todo litoral marroquino. Foi à pé do Rio de Janeiro a Santos, em 77, acampando em todas as praias.

É um dos integrantes da segunda geração de surfistas brasileiros, formada por nomes como, Russel Coffin, Betinho Lustosa, Cauli Rodrigues e outros. Começou a surfar com madeirites quando tinha 16 anos, no Arpoador (RJ).

Conheceu picos hoje urbanizados, caso do Recreio dos Bandeirantes, quando a única alternativa para chegar lá eram trilhas de terra. Junto com seus companheiros da época, apelidou a Prainha de "leprosário" para evitar que mais pessoas a conhecessem.

Como shaper trabalhou nos Estados Unidos na 'Surfboards Hawai' de John Price e na 'Gordon & Smith', considerada a maior fábrica de pranchas do mundo na década de 70. De volta ao Brasil, trouxe dos Estados Unidos sua fábrica, a Tito Surfboards. Trabalhava fazendo todas as etapas do shape ao polimento e fabricando cerca de 100 pranchas anualmente.

Antes, havia trabalhado com o Coronel Parreiras, da São Conrado Surfboards, a primeira fábrica de pranchas e blocos do Brasil. Enfim, Tito sim é um homem polivalente, faz um pouco de tudo. Além dessas qualidades, é fotógrafo, jornalista, foi um dos fundadores do Partido Verde no Rio de Janeiro, produtor e apresentador de programas de TV...

Quem quiser conhecer mais da vida desse aventureiro é só visitar a página na Internet: www.titorosemberg.com . Leia agora a entrevista exclusiva concedida ao site Waves. Não deixe também de conferir ao final desta entrevista, a crônica escrita pelo jornalista e fotógrafo Daniel Neris, inspirada nas aventuras deste que é um dos mitos do surf brasileiro.

Entrevista para WWW.WAVE.COM.BR (12/2000)



Gostaria de saber quando e como foi o seu primeiro contato com o surf?

TR - Nasci na Urca em 1946 mas fui morar em Copacabana em 1949. Desde cedo convivi com o mar, e ainda criança já pegava onda de peito em frente a casa de meus pais no Posto 5. Pegar onda de peito já é considerado surf, assim que posso dizer que desde os 6 anos de idade já era "surfista".

Como era a época, o estilo de vida da "segunda geração de surfistas" no Brasil?

TR - Naquela época o Rio de Janeiro era uma cidade agradável, que realmente merecia o título de Cidade Maravilhosa, que hoje as pessoas até riem se você fala disso. A miséria, a criminalidade e as favelas eram muito menores, e talvez por isto pode surgir naquela época o movimento musical da Bossa Nova. Eu cresci ouvindo João Gilberto e os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Vale, que já eram surfistas. Minha ideologia era poesia e vida tranqüila.

Naquela época Ipanema ainda era tema de música, e eu me sentia realmente privilegiado por viver aquela fase de formação da minha vida naquela fase deliciosa da cidade.

Você estava no Brasil quando foi construído o Píer em Ipanema? O que isso representou para você e para os surfistas da sua geração?

TR - Eu estava na Califórnia fazendo pranchas quando o Píer foi construído, mas em 1971, quando voltei ao Rio para montar meu artesanato de pranchas, o Píer já estava na moda. Desde os tempos de surf no Arpoador que os artistas, cineastas, intelectuais e malucos em geral freqüentavam os lugares onde os surfistas andavam. Aliás, era uma mistura muito eclética a dos intelectuais com a moçada do surf. Hoje há uma clara divisão: surfista virou a mesma coisa que jogador de futebol - esportista quase sempre com baixo nível cultural - mas naquela época do Arpoador e do Píer tinha muito mais diversidade e os grupos se mesclavam sem discriminação, basta ver a relação do Petit com o Caetano Veloso, e a presença em massa dos baianos nas Dunas do Barato, em frente ao Píer.

Você passou uma parte da sua infância e adolescência em Copacabana. Como eram as ondas nessa época?

A Copacabana que eu conheci ainda tinha só duas pequenas pistas para carros, e a praia era muito estreita. O Baixio, o Leme, Posto 5 e 6 quebravam com mais freqüência, até que foi feito o Aterro do Flamengo e muita areia foi tirada do meio do mar, exatamente onde o Baixio quebrava. Depois a Avenida Atlântica e a faixa de areia da praia foram alargadas, e depois disso o fundo mudou e as ondas quebraram menos.

Pode-se dizer que você foi um dos primeiros freqüentadores do Recreio dos Bandeirantes... como eram as ondas e a praia nessa época? Nesse mesmo tempo você também freqüentava a Macumba e a Prainha?

TR - Só quando alguns de nós foram chegando aos 18 anos é que os carros começaram a aparecer nos "surfaris", como chamávamos nossas investidas para lá de São Conrado, que era, para nós, uma verdadeira aventura. Eu me lembro de quando era criança ir à praia no Recreio dos Bandeirantes com meus pais, no velho Austin, e a estrada litorânea era ainda de terra até o Pontal, e depois disso nem dava mais para seguir adiante. O mar já era o mesmo de hoje, já que não houve modificações no fundo: muito quebra coco, perigoso e imprevisível, mas pelo menos nem a palavra poluição nós conhecíamos. O mar era sempre cristalino. O canto do Recreio foi descoberto quando bateu um super sudoeste e todo o litoral estava muito mexido. No Canto do Recreio o sudoeste dá um excelente terral, e lá peguei algumas das melhores ondas da minha vida, rápidas e tubulares. A Macumba foi descoberta quando criamos coragem para sair no mar aberto, o que era arriscado porque naquele tempo não havia cordinha nas pranchas e se caíssemos delas, as ondas as levavam até a areia, o que na Macumba pode significar uma nadada perigosa por até uma meia hora. Mas aos poucos criamos coragem e nos dias de mar pequeno começamos a surfar por lá.

A Prainha veio depois, quando a Macumba começou a ficar cheia de surfistas e nós, que nos acreditávamos pioneiros, começamos a pesquisar a pé as trilhas usadas pelos pescadores ao longo do costão para além da Macumba.

Resolvemos chamá-la de Leprosário que era para ver se os surfistas iniciantes ficavam com medo de ir lá, e realmente durante um tempo chegou a dar certo a nossa estratégia, mas para se chegar lá era dificílimo, pois as pranchas eram pesadas e a trilha nos dias de sol um terror.

Você tinha alguns ídolos no surf?

TR - Tinha gente que já tinha virado gurú no Brasil, como o Badué, um excelente mergulhador submarino, e o Arduíno Colassanti, que estava em todas as paradas. No mundo eu admirava o Bob Cooper, um surfista de Santa Bárbara, na Califórnia, e o Phil Edwards, o primeiro grande surfista com classe de que tinha ouvido falar.

Quais eram os points para o surf na década de 60/70?

TR - Além dos que já falei, começamos a surfar em "points" recém descobertos, como Saquarema, Praia do Foguete em Cabo Frio, em Arraial do Cabo e na boca do canal de Guaratiba, uma das ondas mais sensacionais que já peguei na minha vida.

Como foi aquele encontro, no começo dos anos 70, com Kevin Naughton e o Craig Peterson no meio do deserto do Saara? O que vc estava fazendo lá?

TR - De saco cheio, depois de 3 anos fazendo pranchas no recreio, resolvi voltar à estrada, que tem sido minha mais sábia professora. Estava cansado de fazer pranchas para filhos de papai rico, e vendo a miséria crescer por toda parte, em 1974 vendi minha oficina, ferramentas e Kombi, e fui para a Inglaterra comprar um Land Rover, que já naquela época, há 26 anos atrás, era o veículo ideal para pesquisar as ondas onde os urbanóides não chegam.

Daí que resolvi conhecer o Sahara e as ondas do Marrocos, que já em 1969, quando surfava na França, tinha ouvido falar. Fui com minha namorada americana, que não agüentou a dificuldade da viagem e resolveu voltar para a Califórnia. Eu comecei a viajar sozinho e quando cheguei em Agadir, uma das melhores ondas do Marrocos, dei de cara com o Kevin e o Craig na beira da praia, perdidaços, sem meio de transporte e sem mesmo com o que acampar. Eles estavam chegando de uma viagem sensacional descobrindo as ondas de Gana e do Senegal, no oeste da África. Logo fizemos amizade, juntamos nossos equipamentos e viajamos por todo o sul do Marrocos, estabelecendo uma amizade tão forte que até hoje, 26 anos depois, ainda nos falamos e vemos com muita freqüência. Agora neste Natal de 2000 vamos nos reunir em Guethary, um "point" mítico para os surfistas estradeiros. Acho que Craig e Kevin não são mais meus amigos: já viraram família.

E as ondas atualmente? Vc está morando em Roma, não é? Vc não está mais surfando?

TR - Dizem que tem ondas no Mediterrâneo, e aqui na Itália até tem revista de surf, e em Roma existe um surf-shop, mesmo estando a 30km do mar. Mas depois de surfar em tantos paraísos durante estes últimos 38 anos, acho que perdi o saco para pegar onda merreca. Ou está bom ou eu vou fazer outra coisa. Mas como retorno com freqüência para o sudoeste da França, onde as ondas são espetaculares, e para a Califórnia, onde as ondas são deliciosamente divertidas, deixo para surfar nestes períodos, ou seja, não mais do que algumas poucas vezes por ano.

Como está a sua vida hoje? E como ela era há duas décadas atrás?

TR - Minha vida hoje é como sempre foi: uma intensa busca por respostas existenciais. Estou sempre mudando de profissão para adaptar-me ao que o país onde estiver pode me oferecer. Agora sou fotógrafo free-lance, e trabalho para alguns jornais e revistas do Brasil, Portugal, França e Suíça, mas mesmo assim não trabalho muito. Aliás evito ao máximo ter que trabalhar que é para poder viver intensamente os países onde estou. Acho que a palavra "trabalho" tem sua raiz na expressão "sofrimento". Faço o que faço porque gosto, e prefiro ser guia de turismo e viver tranqüilo a ter um enfarte aos 50 trabalhando na Bolsa de Valores. É uma questão de opção, e para isso tive que abandonar meus sonhos de luxo. Vivo modestamente, mas vivo como um rei, o que sei não é fácil de se explicar.

Há duas décadas atrás não era muito diferente, só que com 34 anos eu vivia cheio de dúvidas e sofria muito. Acho que hoje está ótimo. Se eu pudesse voltar aos 25 anos com a cabeça de hoje, eu voltava, mas se fosse para ter a cabeça que eu tinha naquela época, prefiro meus 54 de hoje porque sou muito menos ansioso. Trabalho muito para manter atualizada minha página na Internet (http://titorosemberg.com), onde exponho mais de 1.700 fotos dos 80 países por onde vivi, e onde coloco as melhores fotos que venho fazendo aqui na Itália, como do Ronaldinho e do Chico Buarque de Holanda.

Você é um dos caras que mais representa o estilo nômade do surfista... O que isso representa para vc?

TR - Uma baita responsabilidade e uma honra indescritível. Digo responsabilidade porque ninguém vive sem exemplos mais adiante. Eu estava sempre de olho naqueles que estavam na minha frente. Hoje há uma cretinice generalizada nos jovens, tomados por uma futilidade boba, que não se preocupam com a desigualdade social de nosso país, que ao invés de combaterem a corrupção que destrói nosso país, procuram como conseguir um empreguinho que garanta o Faustão dos domingos, jovens que não se preocupam com a devastação ambiental que está acontecendo no Brasil. É importante para a rapaziada ter exemplos que sejam do Bem, e é por aí que sempre tentei construir minha vida. Me sinto satisfeito por poder ser algum tipo de imagem positiva para a garotada, pois muitos, depois de ler os textos que publico em minha página da Internet, vão se tocar que o importante é inventarem suas próprias vidas e não ficar aí correndo atrás de símbolos patetas inventados por publicitários. A imagem que fazem de mim hoje representa uma honra porque num mundo cada vez mais cheio de espertinhos, malandros, corruptos e picaretas, consigo minha modesta notoriedade por coisas bem diferentes destas.

Na época em que você começou a surfar já sofria algum tipo de preconceito da sociedade ou da imprensa? Li que as matérias publicadas nos jornais da época, eram sempre nas páginas de comportamento, dificilmente eram estampadas nas de esportes? Como era isso?

TR - Quando comecei a surfar, pegar onda era sinônimo de vagabundagem, o que não estava muito longe da verdade, pois nosso ideal era viver como índios: só trabalhar o mínimo possível e passar o resto do tempo aproveitando a vida antes da morte chegar. Havia muita discriminação contra os surfistas, mas qualquer movimento filosófico novo sempre encontra reações, depois é assimilado pela sociedade e em seguida incorporado aos mecanismos da sociedade de consumo: tudo vira produto de publicidade. Por esta razão acho que ainda pertenço à uma tribo quase extinta: a dos hippies, que buscavam viver eternamente como crianças, mesmo assumindo a responsabilidade da sobrevivência num mundo difícil. Procurando não agredir o planeta e não ser ganancioso. Não é fácil não!

E as drogas, quais era as mais usadas pelos jovens dos anos 60. Como era sua relação com elas nessa época? Você também era da turma que freqüentava as "dunas do barato", no Rio?

TR - As drogas estão aí desde que surgiu a vida no nosso planeta. Acabo de ler uma belíssima reportagem numa revista italiana mostrando as drogas usadas pelos macacos, formigas, elefantes e outros animais que buscam o estado alterado de consciência. Quando uma criança gira até ficar tonta e cair no chão, está buscando alterar sua consciência, e isso é muito normal. Todo mundo usa droga! Uns fumam cigarro, outros tomam cerveja, enquanto outros, mais curiosos, buscam a transgressão ao sistema careta que diz que você pode fumar só isso, ou beber só aquilo. Ninguém nunca vai conseguir legislar a moralidade. Será impossível impedir que as pessoas se beijem, porque elas vão se esconder no mato e continuar curtindo aquilo que é gostoso e as faz sentir-se bem. Mas os caretas não desistem da idéia de tapar o sol com a peneira e ficam aí fazendo leis que causam mais danos aos cidadãos do que a substância que eles usam.

Naquela época começávamos a descobrir a maconha, mais tarde o LSD e a mescalina, e muito mais tarde, para alguns, a cocaína, que de tão perigosa já arrasou alguns dos meus melhores amigos. Mas eu nunca fui da turma das "Dunas do Barato", aliás, nunca fui de turma nenhuma, e preferia mesmo é ficar na minha a andar em patota, me meter em briga e usar a roupa da moda. Sempre estive na periferia do que era "in". Talvez até por falta de talento.

Você estava no Brasil quando o programa Realce foi lançado na TV? Como repercutiu e o que representou para vc?

TR - O Realce foi um marco na história do surf brasileiro porque mostrou a viabilidade do espaço televisivo para um esporte ainda "alternativo". Mas antes dele já havia a revista Brasil no Surf, que foi também histórica. Para mim o programa não representou nada de novo, porque nesta época eu já morava na Califórnia onde haviam muitos "Realces", mas isto em nada tira o mérito dos criadores e apresentadores do programa brasileiro.

Qual foi a sua primeira viagem para o exterior? E como foi?

Muito prosaica! Fui com meu pai para uma longa viagem pela América Latina e Central, onde pude surfar no Peru e no México, numa época (1967) onde só em Lima haviam surfistas.

E o Jornalismo, como ele entrou na sua vida? Como era o seu trabalho com as revistas de surf internacionais? E as brasileiras da época, você também participava?

TR - Comecei a fazer jornalismo em 1963, e durante o golpe de 64 eu já estava trabalhando na Manchete e na Fatos&Fotos, escrevendo e fugindo das balas dos militares. Escrevi para tantos órgãos de imprensa que até já perdi a conta. E ao mesmo tempo pegava onda no Arpoador, uma atividade que me valia muita gozação por parte dos meus colegas jornalistas de então.

Logo comecei a escrever para a Surfer Magazine, e minha primeira reportagem, sobre o Rio de Janeiro, foi publicada em 1969. Daí em diante não parei mais. Não cheguei a participar das revistas brasileiras do período pioneiro porque já estava fora do país, mas cheguei a escrever mais tarde para a Fluir, nos tempos em que ainda era de surfistas para surfistas. Mas minha coluna era sobre ecologia, que já me preocupava há mais de 30 anos.

Você tem 80 países visitados no currículo... falando dos que tem boas ondas... dá para escolher um especial, um que você foi mais feliz, no encontro com as ondas perfeitas?

TR - Acho que apesar de não ter as melhores ondas do mundo, a Califórnia foi para mim um lugar onde pude pegar onda à vontade, trabalhando em empregos burros e sem responsabilidade, como por exemplo garçom e carpinteiro. Desta forma podia pegar onda todos os dias, o que na Califórnia não é impossível pois a regularidade do "swell" é impressionante. Foi uma época de muita paz e excelente estado físico, o que já não dá para reclamar.

Como foi o seu trabalho na Gordon & Smith, o que ele representou na sua carreira de shaper ?

TR - Na Gordon & Smith eu passei de aprendiz a profissional. Eu já estava há muito tempo trabalhando na Surfboards Hawaii, com o Donald Takayama, mas fazia só as beiradas da profissão, tipo "hot coat" e fazendo quilhas. Na G&S eu aprendi a shapear, encapar, dar gloss, fazer listinha e acabei me tornando muito competente. Devo muito à um cara sensacional chamado Skip Frye, que me ensinou muitas coisas sobre a profissão e sobre a vida.

Como você se tornou um fabricante de pranchas conhecido e renomado nos anos 70? Suas pranchas eram feitas com matéria prima importada e eram as mais caras... como tudo isso aconteceu?

TR - Primeiro de tudo tem essa falsa idéia de que eu usava matéria prima importada. Não é verdade! Eu usava o mesmo material que os outros fabricantes, que eram vendidos nas mesmas lojas onde todos compravam, só que eu, como bom virginiano, era cuidadoso, e os outros...

Eu não era "fabricante" de pranchas, era um artesão. Cada prancha era estudada, pensada e feita com carinho, como se fosse a última da minha vida. O resultado é que elas acabaram sendo muito disputadas pois eram, sem a menor sombra de dúvida, as mais bem acabadas do mercado nacional, e concorriam não com as brasileiras, mas com as da Califórnia, que eram o meu padrão mínimo.

Por isto eu cobrava mais que os outros, que tinham empregados que moravam na favela, enquanto eu fazia de cabo a rabo tudo sozinho. Era óbvio que quem fazia duas pranchas por semana não podia cobrar o mesmo do que aqueles que faziam até 15 por semana nas linhas de montagem.

Como foi aquela história de você se sentir mal porque as pessoas não valorizavam o seu shape?

TR - Para mim, com o distanciamento que 26 anos me dão, não há muita dúvida: é a antiga fábula da raposa e das uvas. Como alguns picaretas não conseguiam fazer pranchas melhores que as minhas, resolveram inventar essa de que "o shape não era bom". Acho tudo isso uma bobagem, pois os bons surfistas dão espetáculo até em cima de portas com maçanetas, enquanto os que não tem talento não pegam onda bem nem usando a prancha que ganhou o campeonato mundial. Havia naquela época uma supervalorização do shaper, para separar os "importantes" dos "comuns", uma coisa fascista e idiota. Onde estão hoje aqueles "gênios" shapeadores de então?

Como era a sua relação com o Coronel Parreiras da São Conrado Surfboards?

TR - O Coronel era um homem duro, cobrava até uma gota de catalisador. Se por um lado ele tinha horizontes curtos, por outro foi uma das pessoas mais importantes daquela época. Pena que perdeu o bonde da história e não soube continuar liderando o mercado, o que chegou a fazer durante um tempo. Mas sua contribuição para a indústria do surf foi fundamental. Nós não nos dávamos muito bem porque ele sabia que eu queria saber mais e isso o fazia sentir-se ameaçado. Mas quem era eu, um simples pivete, na frente de um coronel aposentado, que morava numa belíssima casa numa das áreas mais chiques do Rio, São Conrado? Hoje sinto um grande carinho por ele, mesmo sabendo dos seus defeitos.

Tratando de shapers, quem te influenciava nessa época, quem você admirava?

TR - Sem a menor sombra de dúvida, o grande, o único, o inigualável Donald Takayama, que até hoje é um shaper referencial. Se eu morasse perto de alguma praia que justificasse ter minha própria prancha, seria sem dúvida feita por ele. Quando vou à Califórnia sempre passo nos surf-shops para dar uma olhada no que ele anda fazendo, e é sempre coisa finíssima.

E a sua carreira como fotógrafo, como tudo começou? Por que vc abandonou as fotos de surf?

TR - Eu nunca fui fotógrafo de surf porque preferia fazer fotos das minhas viagens. Desde pequeno adorei a fotografia, mesmo sabendo que meu talento era, e hoje ainda é, limitado. Quando converso com fotógrafos geniais, como o Pedro Martinelli, sempre esclareço que o que faço são "cartões postais". Meu arquivo tem mais de 50 mil slides, 40 mil fotos em papel e 30 mil fotos digitais. Sou fascinado em retratar o cotidiano que se passa ao meu redor. No laptop com que viajo tem mais de 30 mil fotos digitais arquivadas e que vão comigo para onde eu for. Mas, comparando-se com um Pedro Martinelli, ou um Cartier Bresson, verdade seja dita, como fotógrafo faço excelente pipoca.

Você é um grande colecionador da Surfer... quando vc começou e o que essas revistas lhe trouxeram de bom?

TR - Eu adorava a Surfer pois era elegante, sutil e orgânica na sua forma de abordar o surf. Por esta razão comecei a colecioná-la em 1964, mas depois comprei os números de 1962 e 1963 do meu amigão Johnny Hansen, que a conhecia antes de mim. Muitos anos depois veio uma onda babaca de misticismo surfístico, onde os caras só falavam de Deus, e eu aí achei que eles estavam indo por um caminho que não tinha nada a ver, e cancelei minha assinatura. Hoje tenho dificuldade em ler qualquer revista de surf, mesmo as melhores, como o Surfer's Journal, pois acho todas muito limitadas. Ou os surfistas abrem seus horizontes para outros temas relevantes da vida, ou vão virar puros atletas: muito músculo, pouco cérebro e nenhuma alma. Meu pai dizia que já se inventou cura para pé de atleta, mas para cabeça de atleta...

O que você acha do surf atualmente?

TR - Entrou por um caminho vulgar, em busca do afago do patrocinador, do primeiro lugar, da foto na revista. Eu ainda quando menino percebi que ninguém se lembrava do nome do melhor surfista do mundo de dois anos atrás. Esta mania dos brasileiros de quererem ser "os melhores do mundo" está destruindo a nossa reputação pelo mundo afora. Não conheço nenhum outro país onde os surfistas sejam tão agressivos como no Brasil. Há alguns anos atrás, na redação da Surfer e do Surfer's Journal, na Califórnia, e em todos os países onde eu pegava onda, eu fazia a mesma pergunta: quem eram os surfistas mais odiados do mundo, e as respostas sempre eram as mesmas: os brasileiros. Porque são agressivos, deselegantes, fominhas, arrogantes e sem a menor classe, com raras e honrosas exceções. Não consigo mais pegar onda no Brasil porque me sinto mal dentro d'água, cercado das micro-bestas do Apocalipse. Felizmente o Brasil ainda tem surfistas com cérebro como o Frederico D'Orey que levantam o nome do nosso país no exterior e escrevem textos belíssimos para as revistas de surf. E o pior é que à espera de todos estes aspirantes a campeão mundial está uma bela pança um uma velhice amarga e cheia de ressentimentos. Espero que com a recente e bem vinda chegada das meninas nas ondas, nossos gorilas aprendam com elas a ser mais doces e menos "machos". Eu sempre fui um sonhador e não é aos 54 anos que iria mudar, não é mesmo?



A utopia do surf

Por Daniel Neris 19/12/2000

Por mais que eu esteja acostumado a andar de avião, o aviso de apertar os cintos para o pouso sempre me deixa com aquele friozinho na barriga. Ainda mais agora. Pela primeira vez na vida pisaria no velho continente, e o melhor de tudo, para encontrar e cair na estrada com um dos meus grandes ídolos.

Tudo começou quando pesquisava a próxima barca pela internet. Já estava com os olhos ardendo e com o saco cheio de ver sempre os mesmos pacotes turísticos oferecidos pelo mesmo preço entre o monte de agências de turismo quando fui parar num site maneiro: pessoal e cheio de fotos dos quatro cantos do mundo, tiradas por esse mesmo cara que oferecia uma alternativa diferente e tentadora para minha surf trip.

Viajar até o Marrocos de Land Rover para surfar ondas solitárias e perfeitas, com direito a atravessar o deserto e tudo. Dificilmente confiaria a minha sorte nas mãos de outra pessoa para cruzar o deserto a bordo de um carro. Mas nem eu nem ninguém de quem eu já tenha ouvido falar possui melhores credenciais do que meu cicerone.

Ele já viajou por mais de 80 países, já cruzou duas vezes (que eu saiba) o deserto do Sahara em carro próprio, já participou de um Camel Trophy em Bornéu, na Indonésia, onde atravessou uma selva praticamente intransponível com uma linda e competitiva expedição... mas, por mais que eu tentasse, nunca conseguiria lembrar de todas as suas aventuras.

Todas essas imagens e tudo o que eu já havia lido sobre as suas viagens rondavam a minha cabeça enquanto eu desembarcava em meio a multidão.

Alguns minutos se passaram até que eu o avistei me fitando num canto um pouco mais afastado. Não foi difícil entender seu sorriso quando me viu chegando com uma pequena mochila nas costas e uma leve e compacta embalagem com duas pranchas.

"Metade da roupa e o dobro do dinheiro", deixei escapar enquanto apertava sua mão. Ele sorriu mais uma vez e pareceu entender que eu havia devorado todo o conteúdo do seu site, todas as suas colunas e o seu livro. "Tito, é um enorme prazer conhecê-lo pessoalmente e, sobretudo, poder viajar e aprender um pouco com você", falei com toda a sinceridade do mundo.

"Deixa de frescura, moleque, o prazer é todo meu em poder te levar pra pegar umas boas. Amarra logo essa prancha aí em cima e vamos nessa". O barulho daquele potente motor a diesel ligando soou como a mais bela música em meus ouvidos. À medida que andávamos o papo ficava mais e mais agradável. Reggae no toca-fitas, um swell a caminho, pranchas boas no rack, uma barraca confortável no porta-malas... enfim, não havia nada no mundo que precisássemos que não estivesse naquele carro.

Cruzamos o estreito de Gibraltar com o carro a bordo de um navio. A viagem entre Algeciras (Espanha) e Ceuta (África) passou num piscar de olhos e, antes que me desse conta, já estávamos no litoral marroquino. A nossa primeira parada foi em Mehdiva-Plage, onde surfamos geladas direitas por horas quilométricas, sempre ladeando um pomposo quebra-mar. Foram alguns dos mais longos tubos da minha vida, até então.

Descemos mais algumas centenas de quilômetros e paramos em Agadir para fugir do crowd. Foi difícil acreditar na perfeição das ondas de Killer´s e Ancre. Direitas e esquerdas do mais alto quilate me faziam pensar a todo instante que estar ali, surfando sem crowd e tão bem "guiado" era digno dos mais belos e inspirados sonhos.

Surfamos mais um punhado de ondas perfeitas e vazias nessa viagem. Foram incontáveis tubos. Cada um incentivando o outro ao máximo. Dividíamos aquelas ondas sem um pingo sequer de egoísmo. Em nenhum momento peguei duas séries seguidas sem que antes ele pegasse a dele, e vice-versa. Não deixamos sequer um papel de bala naquele lindo e infinito deserto.

À noite, ficávamos em volta da fogueira para nos esquentar ao som de seu violão, ou conversando sobre os problemas do mundo e qual é a nossa parte nessa história. Sobre a situação do nosso país e o comodismo do nosso povo, incapaz de sequer levantar a voz contra nossos representantes corruptos.

Falávamos sobre a falta de união e de engajamento dos surfistas quanto à preservação das nossas praias. Sobre o violento crowd em nossas praias, onde todos querem pegar todas as ondas para esconder a frustração alimentada pela mídia por não sermos o Kelly Slater, por não sermos campeões mundiais.

Felizmente, aprendi a tempo a não me calar diante de tanta coisa errada e de fazer a minha parte nessa história. A trabalhar no que estiver ao meu alcance para deixar um mundo melhor para os meus filhos. E tudo isso aprendi entre braçadas e tubos. Descobri que por mais alienante que o surf possa ser, há espaço na cabeça do surfista para trabalhos sociais e para engajamentos políticos.

É por isso que continuo a me perguntar sobre quem deveria servir de exemplo para as novas gerações de surfistas. Seria aquele moleque folgado com um quarto cheio de troféus, mas que rabeia todo mundo, que se orgulha em quebrar pranchas (muitas vezes a socos por ter perdido uma bateria), mas não sabe nem como elas foram feitas, que sente orgulho por pegar algumas boas ondas num pico que só este ano já apareceu 20 vezes nas revistas?

Ou o exemplo deveria ser aquele cara que conheceu o mundo inteiro com as próprias pernas, que já perdeu as contas de quantas ondas perfeitas já surfou antes que elas fossem publicadas sequer uma vez numa revista, que batalha para ajudar os índios e os povos nativos de cada lugar por onde passou e que, ainda por cima, é capaz de falar e de escrever bem para dar continuidade ao seu legado?

Independente de quem deveria ser o exemplo das futuras gerações, o meu ídolo no surf é o único surfista capaz de me ensinar essas lições. Valeu, Tito Rosemberg, continue na luta que ela dará resultados. E obrigado por me ciceronear nessa viagem, em que plano for.

Minha mãe não entendeu nada quando apareci na cozinha falando do Marrocos, com a cara amassada e um copo d'água na mão. "Liga não, mãe. É que o meu sonho foi bom demais", falei sorrindo, enquanto saía da cozinha.

Caminhos das Américas O santista Daniel Neris, fotógrafo e jornalista, fará uma trip com o objetivo de surfar os lugares mais remotos da América e documentar a estrutura dos albergues de juventude na região. A aventura tem saída prevista para a segunda semana de Janeiro e só deve acabar em meados de 2002.