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Revista LONGBOARD (11/1999)
Autor:
Data: 17/11/1999
Nome: Tito Rosemberg
Data de nascimento: 3 de setembro de 1946
Natural de: Sou carioca: nasci na Urca, me mudei para Copacabana em 1949 e em 1964 para o Leblon.
Com quantos anos você começou a surfar?
Com 5 anos eu já pegava onda de peito em frente ao prédio onde morava em Copacabana perto do posto 5. Sempre estive ligado no mar, velejando desde os 15 anos e mergulhando nas pedras do Arpoador antes mesmo do surf começar no Rio. Comecei de peito com uma tábua marca Oceania que minha mãe comprou para mim na loja Balnéa que até hoje existe na Rua Santa Clara, em Copacabana. Depois ela me deu uma outra grandona, de compensado e oca, onde eu sentava em cima e remava com um enorme remo de madeira até o Arpoador, dando a volta por fora do Forte de Copacabana Eu tinha uns quinze anos quando ouvi falar de que uns caras estavam ficando em pé nas pranchas lá no Arpoador. Logo um amigo ganhou uma prancha e comecei a surfar na prancha dele.
Como eram as pranchas nesta época?
O pessoal que tinha mais grana comprava lá na Ilha do Governador, de um marceneiro que o Irencir Beltrão tinha ensinado. Eram feitas com uma placa de compensado, com o bico curvado com um maçarico e esfriado num molde para manter a curvatura. A quilha era aparafusada. Naquela época derretíamos vela na prancha para evitar escorregões. Eu peguei uns dois anos com esse tipo de prancha, conhecida como madeirite. A rapaziada sem grana fazia suas pranchas nas garagens, como hoje. Mesmo fortes, elas quebravam, como uma vez que dei de frente com a pedra do Pontão, no Arpoador, onde não sobrou nada. Era um ondão e me pegou lá fora, na laje, onde eu esperava a série. Passei por cada aperto...
Quem eram seus amigos da época do início do surf no Rio de Janeiro?
Meu melhor amigo era o Edgard Gordilho, que ganhou uma prancha madeirite do pai e juntos começamos a surfar. Éramos um grupo de amigos muito unidos, entre eles o Marcos Garcia, o Marquinhos Maluco e o Roberto Diabo Louro. Acho que eu tinha uns 16 anos de idade. Com o Edgard eu ainda mantenho contato, ele é arquiteto e escultor. Acho que de toda aquela turma do início, eu sou o único que ainda pego onda. Afinal, são 37 anos de surf, com poucos intervalos para outros projetos que acontecem longe do mar, como agora, quando passo dois meses em Roma, na Itália, onde é inverno, estou longe do mar e nem dá para pensar em surfar. Mas assim que esquentar volto para Guethary, no sudoeste da França, onde tenho morado e surfado nos últimos tempos.
Após quanto tempo você lançou a marca Tito Surfboards?
A Tito Surfboards começou na Califórnia em 1971, quando depois de trabalhar um tempão na Gordon & Smith, aluguei uma casa um Pacific Beach, San Diego, e montei uma oficina completa pensando em um dia levar tudo para o Brasil. Lá comecei pela primeira vez a fazer desde o shape até o polimento final para ver se já dava para chegar no Brasil e ganhar um trocado. Depois de umas 30 pranchas feitas e vendidas para amigos americanos, achei que já estava preparado. No final do ano encaixotei tudo, botei num navio e fui para o Brasil. Fiz pranchas no Brasil durante três anos, entre 1971 e 1974. Foram exatamente 300 pranchas e quase todas elas fiz sozinho, aliás como era minha tradição de artesão. Cada vez que tentei botar um empregado a produção não aumentava e os problemas eram grandes. Desisti logo e sempre trabalhei sozinho. Naquela época, a Lorraine, uma americana com quem eu era casado, consertava pranchas comigo. Primeiro montei minha fabriqueta na Estrada do Sorimã, na Barra da Tijuca. Logo o espaço ficou pequeno e me mudei para uma casinha no Recreio, a uma quadra do mar, onde em 1972 montei uma oficina feita sob medida para fazer pranchas, e aí a qualidade delas melhorou muito. Em 1974 cansado da poluição química que me envenenava aos poucos resolvi voltar para a estrada. Vendi minhas ferramentas para o Henrique Von Der Schulemburg, a casa passei para o Mário Gomes, hoje ator, e a oficina para o Rico. Com a grana comprei meu primeiro Land Rover na Inglaterra e fui surfar a Europa e a África, onde com o Craig Peterson, fotógrafo da Surfer americana, descobrimos um monte de ondas perfeitas no litoral do Sahara. Nunca mais fiz pranchas.
Qual a importância de participar do início do surf no Brasil?
Na época não era importância, era vergonha mesmo, porque surfista era sinônimo de mau elemento, vagabundo, fracassado na vida. Nossos pais tinham vergonha dos filhos surfistas, e muitas vezes fiquei sem mesada para ver se eu parava de curtir a praia. Nenhum pai ou mãe ficava feliz em ver seu filho entrando pelo caminho das ondas. Os pais das meninas ficavam apavorados quando uma delas começava a namorar um dos “marginais” da praia. Levou anos para que o surf fosse respeitado como esporte e estilo de vida. Nós éramos considerados excêntricos porque recusávamos as roupas bonitinhas e o estilo brega que tomava conta da nossa época, e preferíamos andar de calção, camiseta e sandália havaiana, vestimenta mais adequada para operários de obra, mas que em nada nos incomodava pois eram ideais para se passar o dia vagabundando na praia, vendo as meninas passarem, as ondas quebrarem, o sol se por...
Nós nunca imaginamos que daquele grupo de 10, 15, 30 malucos fosse sair essa loucura que é o surf no Brasil de hoje. Por isso eu nunca me considerei importante.
Hoje, não dá para se sentir importante porque os surfistas brasileiros, como o resto do país, não tem memória, e não sabem nem o que aconteceu na semana passada. Se você perguntar para a maioria dos surfistas quem foi o campeão mundial no ano passado a maioria não vai saber a resposta. Talvez por isto tantos surfistas brasileiros são absolutamente selvagens dentro da água, sem respeito aos amigos ou aos mais velhos, sempre “fominhas” de onda, desesperados como se a próxima onda fosse a última da vida. Aliás até hoje nas minhas viagens pelo mundo fico envergonhado quando sou informado de que em todas as praias do mundo os surfistas considerados mais grossos e sem respeito pelos outros são sempre os brasileiros. É uma tristeza essa fama dos brasileiros, e sonho com o dia em que nossa rapaziada vai se tocar de que não adianta ser selvagem dentro da água. Eu morei 15 anos em Búzios e parei de pegar onda nos últimos 5 anos porque não aguentava a falta de respeito dos surfistas dentro da água. Agora na França voltei a surfar porque lá há respeito e ética entre os surfistas.
De que modo o surf influenciou sua vida?
Caramba! O surf influenciou tanto minha vida que nem sei por onde começar. O surf me ensinou a respeitar e apreciar a natureza, e foi no mar que comecei a me tornar um ecologista de carteirinha, até estar entre os primeiros fundadores do Partido Verde no Brasil. Para pegar as ondas de Saquarema, Arraial do Cabo, Cabo Frio e Búzios comprei meu primeiro carro, um jipe. Por causa deste jipe, que mudou minha vida, anos mais tarde me vi no primeiro time brasileiro a participar do Camel Trophy, em 1985 em Bornéu, na Indonésia. O surf me colocou na contracultura carioca, evitando que eu me torna-se um vazio, como aconteceu a muitos da minha geração, que ficaram só nas boates e na Bolsa de Valores. Foi por causa do surf que comecei a viajar e acabei hoje conhecendo 80 países, sendo jornalista, e um nômade planetário.
O surf me ensinou os benefícios da simplicidade voluntária, quando abdicamos de bens materiais para poder ter mais tempo para curtir a vida modesta mas muito mais prazeirosa. Tenho muitos amigos de infância que hoje estão ricos, barrigudos e tristes, como tudo aquilo que sempre evitei ser. Tenho 53 anos e adoro a idade que tenho, porque hoje sei que poderei continuar um viajante curioso, me apaixonando e escrevendo poesia até o último dia da minha vida.
Dizem que na época de ouro da Bossa Nova, Tom Jobim compôs a musica Wave inspirado em você?
Não é verdade! Eu conhecia o Tom Jobim de vista, porque eu estudava no Ginásio Nelson, uma escola inglesa na Rua Prudente de Morais, no mesmo quarteirão do Bar Veloso, que ficava na esquina da Rua Montenegro, onde o Tom e o Vinícius freqüentemente ficavam tomando cerveja, paquerando as meninas que passavam em direção à praia de Ipanema. Hoje o bar virou “Garota de Ipanema” e a rua virou Vinícius de Morais, um escândalo que só foi possível porque como eu disse, os brasileiros não tem memória e não respeitam os que vieram antes. Mas, naquela época, o Tom tinha um filho, o Paulinho, que começou a pegar onda, e daí, acho, veio a inspiração da música. Aliás outra música dele foi ainda mais inspirada no surf, que é a “Surfboard”, mas que não é tão conhecida. De qualquer maneira, Ter vivido aquela época de Ipanema e do Rio de Janeiro, foi um privilégio que poucos tiveram. Eu tive mesmo a maior sorte de viver naquela cidade linda e poética que era o Rio no início dos anos 60, porque depois do golpe de 64 a coisa ficou feia e de lá para cá o carioca, e o Rio, só ficou mais pobre, triste e agressivo. É uma tragédia que aquela época tenha se acabado.
Quando e por que, você começou a viajar pelo mundo?
Meu pai era jornalista e vivia a maior parte do ano viajando e me enchendo a cabeça de curiosidade sobre o mundo. Uma época do ano ele estava na Europa, outra nos Estados Unidos, depois na Argentina e logo a seguir em Cuba, e eu ficava em casa só imaginando que barato deveria ser conhecer todos aqueles países misteriosos para um garoto que nunca tinha saído do Rio de Janeiro. Depois comecei a pegar onda e o Arpoador não era o suficiente, daí fomos descobrir ondas na Barra, depois no distante Recreio dos Bandeirantes. De lá para o Leprosário, como chamávamos a Prainha de hoje, até Grumari, foi um pulo. Com a maioridade de alguns amigos, vieram as carteiras de motoristas, e as caronas para Saquarema, uma praia que tenho certeza estou entre os primeiros que surfaram, junto com o Russel Coffin, o Paulete, o Rafael Gonzalez e outros que são figuras históricas do surf brasileiro e que ninguém mais sequer sabe quem foram, o que é uma vergonha. Depois de surfar o Rio de Janeiro todo, veio o desejo de surfar São Paulo, Santa Catarina, o Rio Grande do Sul, e de lá para Punta del Este, no Uruguai. Logo cansei e em 1967 parti para um giro pela América Latina, surfando o Peru e o México. Ao voltar para casa estava contaminado pelo vírus dos viajantes e não parei mais. Fui surfar na Europa, e em 1969 parei em Biarritz na França, onde fiz pranchas e amigos, como o François Scholle e o François Xavier, que por sinal surfam e são grandes amigos até hoje. Acho o maior barato ser familiar com as diversas culturas pelo mundo afora, e nunca fui só atrás de ondas, o que acho burro demais para minhas ambições. Na França aprendi a falar francês, na Califórnia aprendi a falar inglês, e em cada lugar que estive sempre quis me misturar com os nativos e não permanecer arrogante como muitos surfistas que passam o ano rodando o mundo em busca de títulos e glória, mas que acabam com grana no bolso mas nada na cabeça. Hoje sei que a verdadeira riqueza é a cultural, e é atrás desta que passei a minha vida. Não me arrependo nem um pouco, apesar de nunca ter ganho nenhum campeonato na vida.
Quais os lugares que você conheceu?
Conheci a América do Norte, Central e do Sul, estive com os esquimós da calota polar, no Polo Norte, com os índios Ianomami de Roraima, com os tuaregs no Sahara, com os berberes no Marrocos. Passei por quase todas as ilhas do Caribe e a maioria dos países do norte e oeste da África. Fiquei doido com os turcos em Istambul, com os negros da Libéria e viajei entre os oásis da Mauritânia, onde as ondas estão ainda vazias desde que estive lá, de tão difícil que é chegar lá. Namorei na Suécia, fiquei bebum na Grécia, e mergulhei nas águas do Báltico. Acampei nas praias selvagens de Kauai. Atravessei as florestas de Bornéu e chupei cana com os índios Kaiapó no Pará. Trabalhei de terno e gravata em Brasília e morei numa canoa em Manaus. Levei um veleiro do Rio à Punta del Este e vim de carona de Seattle, no norte dos Estados Unidos até o Rio de Janeiro, numa viagem de 3 meses com a mochila nas costas. Do Brasil só falta conhecer o Amapá e por isto posso falar que é um dos países mais lindos e fantásticos do planeta.
Como você fazia para se manter nesses lugares?
Eu nunca tive medo de trabalhar nem de fazer trabalhos duros ou medíocres. Já tive mais de 40 profissões, e quem estiver interessado pode ver a lista completa na minha página da Internet (www.titorosemberg.com). Mas já fui garçom na Califórnia, carpinteiro em Washington, fotógrafo no Rio, pintor de paredes, fiz pranchas na França, mesas em Nova Iorque, balcão de pizzaria em Búzios, móveis, artesanato, cantei nas ruas da Europa com um grupo de folclore latino americano, lavei prato em Londres, fui tratorista em fazenda, tradutor, guia de turismo ecológico, jornalista, relações públicas, consultor, palestrante, editor de jornal e daí em diante. Nunca tive medo do trabalho pesado, que só ajudou a manter a mente limpa, o corpo em forma e mais passagens para outros lugares. Muita gente pensa que é preciso ser rico para viajar, mas é só não se humilhar quando a barra ficar pesada, o que é inevitável quando se está longe de casa. Pouca gente sabe que morei 11 anos em cima de rodas. Três anos dentro de duas Kombis, quatro anos dentro de um Land Rover, dois anos dentro de um trailer, seis meses dentro de um Karman-Ghia, um ano dentro de um motorhome, um ano viajando com um Austin Mini e muitos meses dentro de diversos barcos e carros com os quais viajava pelo mundo. Já fiquei em hotéis de luxo como o Hilton de Munich na Alemanha, quando viajava junto com o cacique Paiakã fazendo palestras em defesa das florestas tropicais, e dormi debaixo de ponte em Paris, discutindo filosofia com meu amigo Johnny Hansen. Quem quer viajar tem que perder o orgulho e mergulhar de cabeça no que pintar. Mesmo hoje quando já tenho mais grana, ainda viajo morando dentro do meu Land Rover, como quando em 99 passei um mês no Marrocos. Acho que já dormi mais sob as estrelas do que sob tetos.
De todos os lugares que você conheceu pelo mundo, qual o que mais gostou?
Sem a menor dúvida é a Amazônia! Sempre digo que se há algum lugar no mundo que eu gostaria de me aposentar, este lugar é a Amazônia. Sempre sonhei em um dia estar em boas condições mentais, ao lado de uma mulher corajosa, comprar um barco no Amazonas e morar à bordo, só passeando do mar perto de Belém até os recantos mais profundos da floresta. Contratar um casal, ele de marinheiro e ela de cozinheira, e ficar só recebendo os amigos para viajar durante algum tempo pelos igarapés mágicos da região. Adoro os ribeirinhos, gente simples e cheia de energia positiva, à despeito da vida difícil que levam por lá.
Mas em todos os cantos do planeta tem lugares maneiros. Tem gente boa em todos os países do mundo, e tem mau caráter em qualquer lugar também. O importante é você encontrar um lugar onde o ritmo local seja compatível com o seu. Lá então é o “seu canto”.
Qual o lugar que você não voltaria mais?
Não sei se existe esse lugar. Morro de vontade de voltar para todos os lugares onde já estive. Aliás tenho o hábito de prometer voltar sempre para os lugares onde não me dou bem, porque acho que se isso aconteceu era porque eu é que não fui capaz de sintonizar com as energias locais. Portanto acho importante voltar para onde quebramos a cara, porque na outra visita todas aquelas impressões negativas vão desaparecer e outras muito legais vão ser descobertas.
Além do surf, o jipe é sua outra paixão?
Sem dúvida! Este é até uma contradição na minha vida de ecologista, porque o automóvel é um dos maiores inimigos da saúde do planeta, pois gasta muita matéria prima para ser feito e gasta combustível e polui quando anda. Mas acho que é um meio de transporte fenomenal pois garante a liberdade. Numa cidade até entendo você andar de trem, ônibus, bonde, metrô ou qualquer outra forma de transporte público, mas no meio do Sahara nunca você vai conseguir se locomover sem um camelo ou um jipe. Na floresta amazônica ou você tem um jipe ou anda de mula, porque na maioria dos lugares nem existe transporte público. Não há melhor maneira de se conhecer a Patagônia sem ser de jipe. Eu já tive muitos deles. Meu primeiro carro foi uma Rural, que ninguém mais nem se lembra, depois um jipe Willys, depois tive um Land Rover, um Toyota, depois outro Land Rover, depois um Suzuki Samurai e agora outro Land Rover. A tração nas quatro rodas característica dos jipes, é a única forma de você viajar fora das estradas asfaltadas, e eu estou sempre me enfiando nestes buracos onde o diabo perdeu as botas, pois é lá que me sinto bem. Poucas vezes estive em Nova Iorque, Londres ou San Francisco, pois prefiro mais as montanhas do Colorado, os desertos da Califórnia, as dunas do Sahara e o sertão da Bahia, onde as estradas não tem asfalto, nem placas nem postos de gasolina. Lá só sobrevive quem sabe respeitar a natureza, e conviver com ela e não contra ela. É nestes buracos perdidos que eu sinto que o ser humano ainda está conectado com o planeta. Um homem urbano é um robô que não sabe mais viver sem eletricidade.
Quantos e de quais ralis você participou?
Parece mentira mas eu nunca participei de nenhum ralí. Eu não sou uma pessoa competitiva. Não jogo cartas, futebol, basquete nem videogame. Já passei por Las Vegas diversas vezes indo de um Parque Nacional para outro e nunca apostei um centavo nas máquinas e roletas. A competição com outra pessoa não me interessa, pois gosto de desafiar somente meus próprios limites. O único esporte que pratico além do surf, e nunca entrei num campeonato de surf (a não ser os de brincadeira, com amigos), é o frescobol, porque o objetivo é fazer uma parceria com o outro, fazer a bola acertar na raquete do outro, que é o oposto do tênis. Não é um jogo, mas uma dança. Não tentamos enganar a outra pessoa, mas sim ajudá-la a acertar na bola. Detesto derrotar alguém, e ser derrotado também. Assim que prefiro não competir. O Camel Trophy foi diferente porque é uma expedição pelo meio da floresta, e entrei sem a menor intenção de ganhar, porque para mim, só estar participando, pilotando um Land Rover lá em Bornéu, na Indonésia, já era uma vitória. Afinal 21 mil brasileiros tentaram estar lá no meu lugar, e quem estava lá era eu. Ganhar era para quem estava afim. Afinal, por causa da nossa atitude de curtir ao máximo o evento e sempre ajudar nossos colegas em dificuldades que meu companheiro Carlos Probst e eu acabamos sendo eleitos pelos outros pilotos como a equipe com o melhor espírito esportivo. Este foi o melhor troféu: o dos que se divertiram mais!
Onde você vive atualmente?
Esta é uma pergunta difícil de responder, porque nunca fico mais de 3 meses em lugar nenhum. Para meus amigos espalhados pelo mundo eu vivo mesmo é na Internet, mas meu pouso real acho que é em Ahetze, uma pequena cidade de 400 habitantes perto de Biarritz na França. Lá guardo meu Land Rover e minhas tralhas quando estou em outro continente. Mas também fico parte do ano em Encinitas, na Califórnia, na casa de amigos queridos. Passo alguns meses por ano com minha mãe no Rio de Janeiro e em Búzios, onde curto a grande família que são seus habitantes nativos e transplantados. Agora estou passando uns meses em Roma investigando uns projetos jornalísticos que poderão dar certo para a televisão brasileira. Mas, depois de anos viajando e fazendo amigos, na maioria dos lugares fico na casa deles, e vivo modestamente. Minhas maiores despesas são as passagens, mas mesmo estas, se compradas fora do Brasil não são caras. Meu maior prazer ultimamente tem sido fotografar as coisas interessantes que encontro pelo mundo e colocar na minha página da Internet (www.titorosemberg.com). Faço um “jornal de viagem” e ponho lá na Internet para os amigos curtirem. Já tenho mais de 1.500 fotos publicadas e mais um montão de histórias que vou escrevendo ao longo das viagens. Todos os dias tem alguém maneiro de alguma parte do mundo que vai lá visitar meu site e depois me escreve. Tenho feito amigos em muitas partes do mundo através desta homepage. E assim posso viver em qualquer parte do mundo e manter o contato com os amigos. A Internet fez muito mais fácil a vida dos viajantes.
Qual o recado que você gostaria de deixar para as novas gerações do surf?
Que a moçada deixasse de ser agressiva nas ondas e na praia. Que eles aprendam a viver em paz com os surfistas de outras praias, que tentem oferecer ondas para o surfista ao lado, ao invés de querer sempre roubar a onda dele. Que se toquem que serem considerados “selvagens” em outros países é uma vergonha que mancha a imagem do nosso país. Que sejam elegantes dentro da água e curtam mais o por do sol e menos o palanque dos campeões, porque tudo isso vai passar e quem não se tocar dessa grande verdade vai ser um velho azedo e triste, e isto será um desperdício de sua vida. Tenham muitas memória e amigos, porque no fundo isso é o que vai contar no fim da vida.
Um ídolo?
Barbosa Lima Sobrinho, que com 102 anos de idade é presidente da ABI, Associação Brasileira de Imprensa, e jornalista combativo até hoje. Um exemplo de ser humano como poucos no mundo. Gostaria de chegar na idade dele com a mesma cabeça.
Uma mulher?
Marta Suplicy, deputada, sexóloga e intelectual paulista. Uma mulher sem medo dos dogmas do machismo reacionário dos brasileiros.
Praia?
Waipio Beach, na Big Island do Hawaii
Prancha?
Qualquer uma com mais de 7 e menos de 8 pés que um amigo me emprestar quando as ondas estão perfeitas e eu por coincidência estiver por lá.
No Cd?
Atualmente Zeca Baleiro, Buena Vista Social Club e Patricia Kaas. Sempre Tom Waits, Chet Baker, Paolo Conte e Chico Buarque de Holanda.
Na cabeça?
O sonho de ver o mundo sem guerras, sem fronteiras, sem miséria e sem corruptos.
Para viajar?
Mochila, máquina fotográfica digital, pilhas recarregáveis e laptop.
Para viver?
Só coisa de velho hippie, como paz e amor, receita certa para um filme com final feliz, o filme de nossas vidas!
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