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Gracie Magazine (12/2002)
Autor: Luca Atalla
Data: 1/12/2002
Fora da estrada
Um fotograma da vida alternativa e atraente de Tito Rosemberg, o maior viajante do planeta
Com uma cafeteira de metal fosco na mão, Tito Rosemberg se encaminha para a cozinha da aconchegante pousada Mirante de Pipa. Ele vai preparar um café preto e forte que mandou vir lá de Mato Grosso para os que estão nas mesas da varanda de almoço: o artista plástico Buca, o webmaster Roberto e os donos do lugar, o casal Heitor e Gisela. Com naturalidade Tito assume, num lugar que é hóspede há menos de dez dias, o papel de anfitrião.
Minutos depois, levando a xícara à boca, com um sorriso no rosto curtido pelas marcas do sol, os olhos verdes eternamente apaixonados e os cabelos grandes encaracolados balançando com o suave vento do início de tarde, ele verbaliza um dilema: “Não sei se fico por aqui mais uns dias ou se parto para Jeri”.
No trajeto planejado por Tito – de Land Rover pelas areias da praia –, Jericoacoara, no Ceará, fica a cerca de mil quilômetros do “aqui”, a Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte. Uma ninharia para quem já cruzou o Saara, a América Central, a Floresta Amazônica, os desertos da Califórnia, morou quinze anos a bordo de kombis, jipes, trailers e barcos e passou mais da metade dos seus 56 anos fora do país, como conta a sua biografia no sítio www.titorosemberg.com.br.
Desde março no Brasil, depois de cinco anos fora do país, esse technômade (“virei totalmente digital há seis anos”, diz) que já aportou em 80 países está em meio ao projeto que apelidou de “Expedições Domésticas”, uma exploração do nordeste brasileiro, passando por Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão. Percorrer o quintal de sua casa – um apartamento na Avenida Niemeyer, no Rio de Janeiro –, segundo ele, é um verdadeiro curso de reciclagem “do Brasilzão simples e resistente da gente comum”.
Enquanto se decide, Tito percorre a cidade, aproveitando ao máximo o tempo que dispõe, talvez porque não saiba quanto vai ficar. Afinal, ele diz ter aprendido com John Lennon que “a vida é o que acontece com a gente enquanto estamos ocupados fazendo outros planos”. Depois de um pôr do sol num dos pontos mais altos do mirante, a cinqüenta e poucos metros de altitude, uma ida até o Bistrô das Saladas, do compadre Cláudio Freitas, é capaz de matar aquela meia fome “na melhor salateria do nordeste”, na opinião de um cara que morou na França e na Itália, as duas cozinhas mais famosas do mundo.
Em construção rústica e varanda com vista para o Lajão – o pico de surfe em frente à igrejinha que faz a alegria dos surfistas de plantão –, o restaurante divide uma passarela com outras lojas: a choperia batizada de “Rota 66 Pipa” – em homenagem à folclórica rodovia que cruza os Estados Unidos, uma mercearia de memorabílias da cidade, mais um bar e a loja virtual do artista plástico Flávio Freitas., irmão de Cláudio. Nesta, existe um balcão, uma janela que abre para a casinha do outro lado da rua, e as obras de arte expostas. Acontece que tudo isso só existe potencialmente: é pintado e esculpido na parede ao lado do Bistrô. Um bonito exemplo de que em Pipa, o progresso trazido pela locomotiva da globalização não se chocou com o popular de forma predatória, mas os dois se combinaram, cada um contribuindo e cedendo.
Pronto para devorar a salada Saquarema (todos os pratos aqui emprestam o nome de praias com ondas), o rock dos anos 70 que toca ao fundo lembra Tito de uma de suas despedidas dos EUA, em 1980, quando voltava para o Brasil depois de morar em Washington. “Antes de eu vir, fui ver um dos meus melhores amigos, um senhor de 82 anos que havia passado a vida cuidando da irmã doente e passava o dia cuidando do jardim. Pedi um conselho qualquer e ele me falou uma coisa que nunca mais esqueci: ‘Se eu soubesse como a vida era, não teria me preocupado tanto’”.
A chamada chuva “caju” vem então de supetão, e o rápido lanche vai se esticando o suficiente para esperar a chegada de mais uma figura local. “Ééé, eu sou o Old Jack”, ele se apresenta, apertando a mão de maneira firme. De chapéu e trajes de vaqueiro em contraponto r cabeça achatada do nordestino, nosso cowboy é o fornecedor de verdes e legumes do restaurante, e apresenta a sua leva de berinjelas com aparência mutante de tão grandes. Pede o seu “Jack Daniel brasileiro”, eufemismo para a velha e boa cachaça, e senta r mesa. Ao mesmo tempo em que maneja de forma intimidadora uma faca – identificada por Tito como uma Buck Knife –, conta o seu projeto: “Tudo que eu produzo é orgânico, sem fertilizante, sem agrotóxico”. O machão acaba enveredando o discurso para o lado filosófico, fala de mulher e de estilo de vida e bate o martelo: “Todo mundo que acorda depois que o sol já nasceu tá perdendo tempo de vida. O dia foi feito para se viver e a noite para se refletir o que foi feito durante o dia”. Puxado pela filha, Jack vira mais uma dose de pinga e vai embora. O jornalista Tito lamenta: “Faltou a máquina [fotográfica]”. Era para registrar as berinjelas.
Lá pelas dez da noite, já que a chuva não estia, Tito se levanta para continuar o rumo. Dá uma alongada e acusa o dolorido do exercício do dia anterior, um passeio de caiaque pelos mangues sob a liderança do Farmácia, um surfista de fora radicado na Pipa e que ganhou o apelido quando era a única pessoa do vilarejo capaz de aplicar injeções. Ao andar pela rua principal e desnivelada da cidade, Tito compara: “Isso aqui é a Rua das Pedras, em Búzios, há 20 anos”. Uma época em que sua faceta de político se fez presente, atuou como ativista ecológico no balneário carioca e quase ingressou na câmara. “Eu já estava tão envolvido que me sentia preso, então decidi: vou me candidatar a vereador, e se eu for eleito mergulho de vez na causa, se não parto para mais uma viagem”. Por pouco mais de 20 votos, seu destino foi decidido, e Tito se mandou para a África.
Continuando a caminhada pela Rua das Pedras local, onde se encontraria o Au Cheval Blanc está o BookShop da Cíntia, uma hippie que aportou em Pipa e iniciou o seu negócio com dez livros. Hoje, as estantes tem perto de dois mil, em espanhol, inglês, francês, sueco, russo, japonês e sabe lá mais em que língua. Nietzche, Dostoievski, Tolstoi, Foucault, Homero entre outros dividiriam a estante com Sidney Sheldon, Frederick Forsyth e Paulo Coelho, não fosse a iniciativa da dona de enforcar os livros que não gosta. Os últimos autores, junto com outros que perfazem uns 50 livros, então decoram os tetos do estabelecimento feito uma praça pública da época da queda da Bastilha.
Nem esportista nem aventureiro
Tudo na livraria é irreverente, a começar pelos paralelepípedos da rua em frente, pintados cada um de uma cor, como os chicletes daquela caixinha Adams que é vendida nos sinais ou nos botecos da vida. O portão amarelo, na altura da cintura, agora está aberto, mas no ir embora do último cliente vai ter um cadeado, e só voltará a se abrir no dia seguinte, lá pelas duas da tarde. É claro que quem quiser pode pular e entrar, porque a porta adiante fica sempre aberta, os livros à mostra. No canto esquerdo da parede de fronte para quem chega, pequenos retratos pintados dos escritores reverenciados por Cíntia. Acima da porta que separa o segundo ambiente, um Hitchcock em tamanho quase real pede silencio, na certa para interromper os murmúrios de quem se exalta ao escolher os livros e incomoda quem fica nos fundos, na Internet (já que é lá o cyber café local), ou lendo em um sofá abaixo de um magnífico quadro recém-pendurado, uma mulher nua de pernas abertas, com a boceta em primeiro plano. “Tomei um susto da última vez que estive aqui. A modelo estava lá sentada, me confundia o que era a pintura e o que era o real”, diz Tito, cumprimentando a dona que parece sua amiga íntima. Como bom guia, o nosso viajante apresenta o lugar: “Ela começou com dez livros. Os outros foram doados por amigos”. Cíntia corrige: “Até os primeiros dez eu ganhei. Nunca comprei um!”.
Detalhe: ela só aluga os livros, nunca os vende!
Nas agradáveis horas seguintes os exemplares prediletos são passados um a um. “Esse aqui acabei de receber”, conta a dona orgulhosa de um volume em espanhol de “O dia em que Nietzche chorou”. Mais adiante, pára-se diante de um original em francês do Estrangeiro, de Albert Camus. O cardápio é vasto, e Tito puxa um item que lhe é bastante familiar: Sexus, de Henry Miller. “Esse aqui me rendeu o primeiro jipe”, ele revela. É que Tito representou o autor americano no Brasil e vendeu para uma editora brasileira os direitos para a publicação da trilogia Sexus, Plexus e Nexus, em 1968. “Eu ainda não lia muito bem em inglês e era louco para ler esses livros. Por isso dei um jeito de publicá-los por aqui”, justificou. Agente literário. Era mais uma da miríade de profissões dessa pós-moderna figura.
Folheando um livro com as fotos mais marcantes do jornalismo na década de 1980, Tito é capaz de retirar alguns momentos bastante próximos. Como quando estava em Washington e o vulcão St. Hellens entrou em erupção. “Eu caí de um banco a mais de 200 quilômetros de distância”. Ou do avião que se acidentou em San Diego em 1978. “Eu estava aprendendo a pilotar e do ar vi essa explosão. Nunca mais voltei às aulas”, diz apontando para a imagem do veículo na descendente, que ocupa um canto de página ímpar da publicação.
Após se despedir de Cíntia, a noite segue em uma das creperias da cidade, acompanhada de um crepe de frango e mais uma água com gás. Enquanto um americano tenta convencer a bargirl loirinha a levá-lo em casa, Tito faz uma análise nostálgica: “Quando eu era moleque, não gostava do meu nome. Queria ser normal, um Guilherme ou João da vida. Depois comecei a perceber a vantagem desse nome diferente e pequeno. Nunca tive um apelido. E nunca se esqueciam do meu nome. Era legal ser diferente”. Isso deve te-lo ajudado a querer ser alternativo em tudo, andar sempre em uma estrada própria, ou fora de qualquer estrada, forjando uma vida de aventuras, em que não fincou pé em nenhum lugar e ainda assim criou laços no mundo inteiro. Muito antes da globalização, Tito quebrou as fronteiras, encurtou as barreiras do espaço e procurou os membros de sua aldeia ao redor do mundo.
Na verdade, aventureiro não é bem a maneira que Tito se define. “As pessoas as vezes confundem esporte, aventura e viagem. Se o esporte está em outro lugar, o esportista viaja. O aventureiro também, se a aventura é longe, ele pega o avião. Eu não sou esportista, não sou aventureiro, sou um viajante. Se na minha viagem tem algum esporte, eu faço. Se tem aventura, eu faço. Mas o meu negócio é viajar”. Assim ele acabou parando em meio ao Camel Trophy de 1985, em Bornéu, onde ao fim do rally conquistou o prêmio de “Melhor Espírito de Equipe”. Isso apesar de Tito não curtir competição. “Não gosto de perder nem ganhar”, ele diz, já bocejando, e pronto para pegar o caminho da pousada.
Outra lição importante dessa vida não ortodoxa do nosso viajante foi ouvir a voz da sabedoria popular. E a lição de hoje já foi absorvida. Está tarde e, como mandou Old Jack, é hora de dormir, afinal o dia seguinte será curto para as decisões a tomar, as coisas a fazer, os lugares a visitar. O escritor Luis Fernando Veríssimo diz que vai precisar de mais 200 e poucos anos para cumprir o seu projeto de vida: saber tudo sobre tudo. E Tito Rosemberg, quantos anos precisará para cumprir o que parece ser o seu: conhecer tudo e a todos? Muitos. Pelo menos, ele tem um poderoso GPS para ajudá-lo a não se perder pelo caminho.
BOX:
“Nós somos todos culpados do crime,
o grande crime de não viver a vida ao máximo.
Mas nós somos todos potencialmente livres.
Podemos parar de pensar naquilo que falhamos
e fazer tudo que estiver ao nosso alcance.
Aonde esse poder que está em nós pode chegar
ninguém jamais ousou verdadeiramente imaginar.
Que isso é infinito nós iremos perceber
no dia que admitirmos que imaginação é tudo.
Imaginação é a voz da audácia”.
--Henry Miller
BOX:
Versátil
À primeira vista, a vida de viajante levada por Tito Rosemberg sugere que ele seja um milionário que sai andando por aí gastando, sem se preocupar em ganhar dinheiro. Na verdade, Tito não vive de brisa e sempre se virou para bancar o seu estilo de vida. Veja abaixo algumas das profissões/ocupações assumidas por essa versátil criatura, que já brigou com Collor pelos direitos dos índios e figurou como garçom na peça “O Dido”, de Pina Bausch, no estupendo Teatro Argentina, em Roma.
Jornalista
Radialista
Carpinteiro
Editor de jornal
Empresário
Tratorista
Cantor
Marinheiro
Assistente de cozinha
Construtor
Consultor de meio ambiente
Fabricante de pranchas de surf
Agente literário
Diretor de agencia de notícias
Guia turístico
Motorista de caminhão
Assessor de Comunicação Social e Relações Internacionais da Funai
Garçom
Artesão
Escultor
Político
Pintor de paredes
Palestrante
Pizzaiolo
Lavador de pratos
Barman
Ativista ecológico
Figurante
Documentarista (Cineasta)
OLHOS:
“Ele me falou uma coisa que nunca mais esqueci: ‘Se eu soubesse como a vida era (que a vida era tão simples), não teria me preocupado tanto’”, na despedida de um amigo de 82 anos de idade em Washington
“Todo mundo que acorda depois que o sol já nasceu tá perdendo tempo de vida”, Old Jack
“Se eu for eleito, mergulho de vez na causa; se não, parto para mais uma viagem” (antes de se candidatar a vereador pelo Partido Verde de Búzios)
“O livro Sexus me rendeu o primeiro jipe”
“Eu não sou esportista, não sou aventureiro. Se na minha viagem tem algum esporte, eu faço. Se tem aventura, eu faço. Mas o meu negócio é viajar”.
“Não gosto de perder nem de ganhar”.
“Queria ser normal, um Guilherme ou João da vida. Depois comecei a perceber a vantagem desse nome diferente e pequeno”.
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