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Viajando no Amazon Clipper - (07/98)
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Viajando no Amazon Clipper Foto: Tito Rosemberg
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Viajando no Amazon Clipper Foto: Tito Rosemberg
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Viajando no Amazon Clipper Foto: Tito Rosemberg
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Viajando no Amazon Clipper Foto: Tito Rosemberg
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Viajando no Amazon Clipper Foto: Tito Rosemberg
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Viajando no Amazon Clipper Foto: Tito Rosemberg
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Voltando de Parintins após a Festa do Boi Bumbá, meus planos eram retornar à pequena Encinitas, onde vivo na Califórnia, mas não viajando de avião, o que para explicar terei que falar sobre o cartel do transporte aéreo no Brasil e suas relações com o governo.
Para quem não sabe, as passagens do Brasil para os USA e de volta ao Brasil são muito mais caras e cheias de restrições do que as passagens dos USA para o Brasil, fazendo com que um americano (que ganha bons salários) que queira conhecer o Brasil, pague muito menos pelo transporte aéreo do que um brasileiro (que ganha mal) que queira conhecer os USA. Por esta razão eu queria iniciar uma passagem aérea na Califórnia e vir ao Rio, como sempre venho para visitar minha família, com uma passagem "de volta" nas mãos, certamente muito mais barata e que me daria muito mais liberdade do que uma passagem emitida no Brasil.
Uma alternativa que pensei fosse resolver meu problema seria comprar só a passagem de ida, mas logo descobri que as passagens só de ida do Brasil aos USA custam mais caro do que as de ida e volta. Logo, a única forma de fugir das regras cartelizadas das empresas aéreas brasileiras seria conseguir chegar na Califórnia sem passagem de volta, e daí surgiu a idéia de voltar para lá por outra via que não fosse aérea. Mas admito desde já que são sempre muito estranhas as razões que invento ou descubro para justificar sair viajando pelo mundo. Esta então parecia piada!
Como em 1981 eu já havia vindo uma vez de Seattle, Washington, ao Rio em ônibus, trem e de carona, junto com a namorada, conhecendo as Américas Central e do Sul, a opção agora era voltar pelo Caribe que conhecia muito pouco.
Daí que pensei em passar por Manaus para visitar meu amigo Carlos Probst e de lá seguir rumo norte de ônibus passando por Boa Vista, capital de Roraima e depois até Caracas, na Venezuela, um roteiro que há anos vinha me tentando, pois atravessa florestas virgens, os campos de Roraima e a Grande Savana da região do Monte Roraima na Venezuela. De Caracas pensei em passar dois meses visitando uma a uma as ilhas caribenhas e assim, chegar na Califórnia em agosto.
Agora, eu já estava de volta em Manaus, e pensava em pegar logo o ônibus no rumo norte, mas Carlos insistia para que eu fizesse a primeira viagem do seu barco Amazon Clipper, que retornava ao roteiro regular depois das férias da tripulação. O Amazon Clipper é hoje em Manaus, o único barco com saídas regulares para passeios pelos rios Negro, Solimões e Amazonas, pois o mercado é difícil e todos os outros concorrentes foram desistindo ao longo do caminho, e se não fosse Carlos um cara perseverante, também o Amazon Clipper já teria parado seus roteiros há muito tempo. Graças aos turistas estrangeiros, que continuam achando a Amazônia, a maior floresta tropical úmida do mundo, o ecossistema mais rico, que contém a maior biodiversidade do mundo e uma das grandes maravilhas do planeta, o turismo ecológico em Manaus ainda não acabou, porque se dependesse dos turistas brasileiros, ainda mais interessados nas contas coloridas e espelhinhos oferecidos pelos europeus desde 1500, não haveria mais turistas na região.
E assim, resolvi aceitar o convite do amigo, atrasar um pouco meu retorno e embarcar para uma viagem de três dias no Amazon Clipper. Minha história com este barco começou há 8 anos atrás, e antes de falar do presente, prefiro contar como o conheci. Em 1990 Carlos havia entrado meio cauteloso no negócio de turismo fluvial na Amazônia, comprando um lindo barco regional chamado Manatí, que quer dizer "peixe-boi" em inglês (manatee). O Manatí era bem construído e estava em bom estado, e assim que o comprou Carlos telefonou de Manaus me convidando para o primeiro passeio que faria nele, uma viagem de teste, com sua esposa Vera, e seus filhos Gustavo, Juliana e Cristina. Eu não podia deixar de participar de um evento tão especial: conhecer o entorno de Manaus, acompanhado de amigos do peito e num barco que, até pelo telefone, parecia interessante. Assim, peguei um avião para Manaus, e do aeroporto fui direto para o Manatí, isso em 1990.
O barco estilo regional amazonense tinha 4 cabines apertadas e muito espaço para carga, pois esta era sua função principal até então. Para encurtar a história, passamos dez dias viajando pelo Rio Negro e pelo Solimões, pelos igarapés, pequenos rios que deságuam em rios maiores, igapós, que são as regiões de várzea submersa pela cheia dos rios e que permitem a navegação de barcos até de grande calado e lagos lindos de deixar-nos a todos de boca aberta. Conhecemos também a região das Anavilhanas, o maior arquipélago fluvial do mundo, em pleno Rio Negro, a poucas horas de Manaus e a mais de 1800 km do oceano. Estivemos na pequena cidade de Novo Airão, quase uma aldeia, onde ainda existem, nos arredores, muita madeira boa dentro da floresta, e portanto muitas serrarias e estaleiros. Encostamos o barco em praias de areia branquíssima cercada de floresta fechada, visitamos as populações ribeirinhas, que vivem da pesca, da plantação da mandioca e de uma pequena agricultura de subsistência.
Quando voltamos para Manaus eu estava apaixonado pela região amazônica, e até mesmo antes do desembarque no porto flutuante de Manaus, eu já tinha planos para retornar. Mas Carlos também tinha planos para o Manatí. Segundo ele, o barco precisava de mais cabines e mais conforto para poder receber os clientes, principalmente alemães, que ele acreditava poder trazer para fazer as viagens pela região. E para isso planejava levar o barco para Novo Airão e lá, onde haviam serrarias, estaleiros e bastante mão de obra especializada, fazer a completa reforma do barco, que envolveria até a demolição completa do primeiro andar. Quando Carlos me perguntou se eu não queria ajudá-lo neste projeto, eu concordei sem pensar duas vezes, e em poucos dias levamos o barco para Novo Airão, uma pequena aldeia que seria meu pouso pelos próximos dois meses.
Um dia espero poder escrever sobre estes dias de muito trabalho e prazer, pois até hoje estão bem vivas na memória as lembranças de, após um dia de trabalho, pegar uma pequena canoa de madeira e um só remo tradicional local e atravessar o Rio Negro, desaparecer entre as centenas de ilhas das Anavilhanas, que ficam bem na frente de Novo Airão. Ficar bem quieto ouvindo os peixe-boi se aproximarem para ver quem era aquele intruso em seu território, respirando suavemente bem perto da borda da canoa. Quando o pôr do sol chegava com seus matizes de rosa, roxo, laranja e vermelho, os pássaros se calavam e o vento diminuía, eu adormecia levemente no fundo da pequena canoa sentindo os botos, cinza e cor de rosa, brincando e caçando ao lado, despreocupados, e, quando já escuro, remava de volta ao Manatí, amarrado numa pequena doca de madeira nas margens do Rio Negro, e em meio à poeira e confusão de ferramentas, pregos e tábuas, jantava junto com os carpinteiros e seus ajudantes a bóia tradicional de feijão e arroz, por eles chamado de "baião de dois", acompanhados de macarrão e algum peixe do rio.
Um dia o sonho acabou, o barco ficou pronto e o Manatí havia passado a se chamar "Amazon Clipper", um luxuoso barco, ainda no estilo regional, mas agora muito mais confortável do que antes: no primeiro andar seis cabines com banheiros privativos e janelas bem grande dando direto no rio, e no segundo andar mais três cabines, sendo uma exclusiva do comandante. A idéia de fazer as cabines com vista para fora e um corredor de acesso no meio do barco é boa pois evita que, como na maioria dos barcos, onde as cabines ficam no meio do barco e há um deck entre a cabine e o rio, por onde passam pessoas que tiram a privacidade das cabines. Mas isso é papo para outra história, noutro dia...
Nesta reportagem: » Viajando no Amazon Clipper - (07/98) » O Brasil que o Brasil se recusa a conhecer » Os Habitantes da Floresta » Um encontro Emocionante » Em busca dos jacarés » Enquanto o dia nasce » Caçando uma Televisão » Caindo na Realidade
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