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De Ônibus Através da Floresta - (07/98)
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De ônibus através da floresta Foto: Tito Rosemberg
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De ônibus através da floresta Foto: Tito Rosemberg
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De ônibus através da floresta Foto: Tito Rosemberg
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De ônibus através da floresta Foto: Tito Rosemberg
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De ônibus através da floresta Foto: Tito Rosemberg
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De ônibus através da floresta Foto: Tito Rosemberg
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A estação rodoviária de Manaus é tão discreta que se o motorista não prestar atenção já deixou para trás. Numa cidade cercada de rios, bem servida de transporte fluvial e no meio da maior floresta tropical úmida do planeta, o tráfego em estradas se torna uma epopéia de pontes, lama e muita manutenção para evitar que a natureza tome seu espaço de volta. Em pé na lenta fila para comprar passagem, derretendo de calor, a camisa colada no corpo, o suor escorrendo pela face e braços, paradoxalmente penso no prazer que sinto por estar conseguindo realizar um antigo sonho: ir de ônibus de Manaus a Caracas, passando por Boa Vista, capital de Roraima.
Em 1991/92, quando trabalhava com meu amigo Sydnei Possuelo na Funai, tive a oportunidade de viajar para Boa Vista diversas vezes. Naquela época viajava de avião e sempre ficava assombrado com a vastidão da floresta desfilando sob a janela do avião. Primeiro o Amazonas, com seus 1.6 milhões de km2, o maior estado do Brasil, com apenas 2,3 milhões de habitantes, 4 vezes menos do que os habitantes da cidade do Rio de Janeiro, depois Roraima, um estado tão misterioso quanto interessante, nos cafundós do país.
Agora eu pretendia comprar passagem para o ônibus que percorre toda a BR 174, que sai de Manaus rumo norte através da selva teria seu ponto final em Boa Vista, depois de 760 km de estrada, sendo 160 ainda não asfaltados e sujeitos a lamaçais. Em Boa Vista eu pensava em passar dois dias descansando, passeando e escrevendo estas linhas e depois pegar o ônibus que vai para Santa Elena de Uairén, na fronteira da Venezuela, de onde pegaria outros ônibus até Caracas, e de lá para o Caribe.
O primeiro ônibus para Boa Vista sai às 8 da manhã e chega às 9:30 da noite, os outros horários são 10:30h, 16h, 18h e 20h, mas só o primeiro viaja a maior parte do tempo de dia. Como estou interessado em ver a paisagem, o único horário que me serve é o das 8 da manhã, que "teoricamente" deveria durar de 13 a 14 horas. Assim, nem quero saber das outras partidas,
que depois vim a saber eram em ônibus com ar condicionado, me identifico diante da simpática vendedora, pago os R$ 41,21 da passagem, e fico de voltar na manhã do dia seguinte para embarcar.
A estação rodoviária de Manaus não é nada diferente das outras de todo o país: cheia de pessoas humildes, dramas ambulantes de uma sociedade injusta. Divido a plataforma de embarque com uma pequena multidão, a maioria viajando com dezenas de enormes caixas de papelão, engradados, malas baratas, grandes trouxas de bens diversos, mudanças ou talvez coisas para vender lá pelo interiorzão. Eu sou o único com bagagem tão pequena que até o motorista me deixa entrar com ela
dentro do ônibus, visivelmente desconfortável para as muitas horas que se seguiriam. Hoje, pela BR174 não circulam mais os famosos ônibus mini-saias que fizeram parte da colonização recente daquela região.
No apogeu da invasão dos sulistas, os mini-saias eram ônibus que tinham sua carroceria cortada horizontalmente no nível do chassis e tudo que estivesse abaixo do chassis era retirado para que, com menos coisas que pudessem arrastar no chão, passassem mais facilmente pelos antológicos atoleiros amazônicos. A suspensão era levantada como de caminhão, e tornavam-se verdadeiros ônibus fora de estrada, ainda que nenhum fosse 4X4.
Hoje a BR 174 já está mais civilizada e ônibus menos rústicos circulam pela região. Mesmo assim o ônibus que tomo é bem alto e os passageiros mais idosos tem dificuldade para subir, o que não parece preocupar o motorista interessado em ver se todas as passagens estão em ordem. Partimos com 3 motoristas à bordo, que se revezariam ao volante. Logo percebi que tinham diferentes personalidades: um pensa que é o Ayrton Sena, o outro quer ser o Fitipaldi e o outro delirava que era o Nelson Piquet. Em comum tinham o desprezo pelos passageiros, isto é, todos nós lá atrás, que pensavam ser uma carga de bois e vacas. Raramente respondiam o que lhes era perguntado, e só conversavam entre si.
Nesta reportagem: » De Ônibus Através da Floresta - (07/98) » Começa o Roraima Trophy » Da floresta aos campos » A comédia » A linha do Equador
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