Reportagens

 

Da Amazônia ao Caribe - (07/98)


da Amazônia ao Caribe
Foto: Tito Rosemberg



da Amazônia ao Caribe
Foto: Tito Rosemberg



da Amazônia ao Caribe
Foto: Tito Rosemberg



da Amazônia ao Caribe
Foto: Tito Rosemberg



da Amazônia ao Caribe
Foto: Tito Rosemberg



da Amazônia ao Caribe
Foto: Tito Rosemberg



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Foto: Tito Rosemberg



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Foto: Tito Rosemberg



da Amazônia ao Caribe
Foto: Tito Rosemberg



da Amazônia ao Caribe
Foto: Tito Rosemberg



da Amazônia ao Caribe
Foto: Tito Rosemberg


Estou em Boa Vista, uma cidade agradável, cortada pelo belo Rio Branco que lhe oferece lindas paisagens. Com apenas 150 mil habitantes, Boa Vista é um pouco maior do que Cabo Frio. Prédios baixos, muitas casas, arejada e simpática, mesmo que com uma crescente população miserável. No estado de Roraima moram só 230 mil pessoas, a mesma população da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

De Boa Vista saem 4 ônibus por dia para o BV8, como é conhecida a aldeia de Pacaraima, na fronteira da Venezuela. Acordo cedo, pego uma carona na van do hotel Euzébio’s e consigo pegar logo o segundo ônibus que sai da ampla, arejada e limpinha rodoviária, às 10 da manhã. Logo saímos do perímetro urbano, e os magníficos campos de Roraima desfilam diante da minha janela, e enquanto os outros passageiros tentam dormir, eu aprecio as nuances na paisagem e nos horizontes amplos. Tudo parece novo. Mas não é, pois está ainda vivo na minha memória a última vez que estive por aqui, na caçamba de um caminhão rumo ao Primeiro Encontro dos Povos Indígenas de Roraima, em 1990, onde eu faria um vídeo para uma organização de apoio aos índios.

Estou na terra dos Macuxí, índios que há séculos convivem com os fazendeiros, e que por haverem se adaptados a usar as roupas dos brancos, não conseguem mais ser vistos como legítimos representantes das populações nativas. E esta é uma característica da imagem deturpada que o homem branco faz do índio: só é índio de verdade aquele que veste penas e mora em malocas. O índio que botou calça, camisa, sapato e mora em casa de tijolo não é mais índio, segundo o pensamento do branco invasor, que daí parte para assumir que índio de roupa não tem mais direito aos benefícios que a Constituição lhe assegura. Com isto, alguns fazendeiros sentem-se no direito de ocupar estes campos sem fim enquanto os índios acabam confinados a pequenos pedaços de terra, uma grande injustiça histórica, pois nunca houve terra que fosse "descoberta" quando era ocupada por tantas tribos diferentes, algumas com tradições e hábitos sofisticados.

Desde 1500 que as populações nativas vivem sob o estigma de serem "inferiores" à cultura européia invasora, no que se chama de etnocentrismo, que é quando uma raça se crê superiora à outra.

No meu ônibus, há muitos índios voltando para suas aldeias, certamente uma viagem de muitas horas, pois quase todas ficam distantes do da recém asfaltada BR-174, que vai de Manaus até a fronteira da Venezuela. Mas o gado que pasta nos campos não quer saber nada disso.

As florestas já não existem mais por aqui, e bem ao fundo podem-se ver as colinas da região de Raposa e Serra do Sol, onde mais tarde chega-se até a Guiana. Os buritis sobressaem na vegetação, principalmente arbustos, porque conseguem sobreviver aos longos períodos em que os campos ficam inundados. Tenho grande simpatia pelos buritis pois me parecem árvores alegres.

Sinto uma vontade enorme de poder seguir com carro próprio até estes confins do Brasil, mas este é um projeto para outra época, já que no meu rumo estão as ilhas ensolaradas do Caribe.

Numa das paradas do ônibus eu me lembro de ter parado aqui também há oito anos atrás, quando a estrada não era asfaltada como agora, mas de terra batida, cheia de poeira e de costelas de vaca que faziam o caminhão desmantelar-se aos poucos. Parado no mesmo bar encontro um ônibus fretado pelos índios para fazer compras na cidade grande. Seu conteúdo é preocupante: centenas de caixas de cerveja e refrigerante além de um monte de doces e açúcar sobressaem na carga, só coisa que vai fazer mal para eles. Os índios almoçam no chão, mulheres, crianças e velhos dividem um arroz com feijão e outras coisas indistinguíveis. Aproveitando-se da paisagem plana, seus parentes vieram de bicicleta para poder transportar as compras, da parada do ônibus até as aldeias. Quando partem com o bagageiro das bicicletas cheios de caixas, penso no pneu de trás, se explodirão sob todo aquele peso e de como as pessoas simples vivem forçadas a esticar os limites da sorte.

No bar uma índia está toda feliz brincando com seu bebê. A imagem é linda, não resisto, venço minha própria timidez e peço para tirar uma foto. Ela sem graça diz que sim e não perco tempo, caso ela mude de idéia, essas coisas acontecem. Atrás dela, percebo no visor da câmera, um outro índio sorrindo com cara de orgulhoso, que suponho ser o pai da criança.

Tirar fotos de pessoas é sempre muito difícil para mim, não sei exatamente porque. Talvez porque tanta gente não goste de ser fotografado. A maioria dos índios da América Central faziam cara de ofendidos quando eu apontava uma câmera para eles, teoricamente por razões espirituais, achando que suas almas ficariam presas dentro daquela foto. Curiosamente entretanto, quando eu concordava em dar a eles o que me pedissem, normalmente uma soma razoável, sorriam felizes, despreocupados com "sua almas aprisionadas" nas fotos que então não os ofendia mais. Mais de noventa por cento das minhas fotos são de paisagens. Quando viajei pelo Saara com meu amigo fotógrafo Marcos Prado, nós dois tiramos milhares de fotos. Mas como ele preferia fotografar pessoas e eu paisagens, no final da viagem a impressão das pessoas que viram nossas fotos era de que tínhamos ido a lugares bem diferentes.

A estrada agora é uma grande reta preta, aparentemente sem fim, que corta o verde desabitado. Aos poucos nos aproximamos das serras que levam à região do Monte Roraima e voltam as florestas fechadas, como no entorno de Manaus.

Começamos a subir as montanhas e a estrada torna-se sinuosa, acompanhando o relevo abrupto que leva à Venezuela, mas o calor continua como em boa Vista. O ônibus tem que fazer força para subir a serra, e seu ronco fica mais alto. Já não há um só buriti à vista, a mata é fechada, com árvores enormes e muita umidade outra vez. Os índios já desceram todos nas diversas vilas que passamos, agora há meia dúzia de passageiros rumo à Venezuela. Logo chegamos à fronteira, onde está o Posto Fiscal de Pacaraima, no famoso BV8 que sempre quis conhecer mas que agora me parece totalmente insignificante. Por azar esqueço de trocar meus reais por bolívares, a moeda venezuelana, pois antes de se entrar num país, a moeda dele sempre vale menos no país anterior. Há militares por toda parte. Um modernoso prédio reúne as autoridades dos dois países. O serviço é tipicamente sul-americano, lento e mal humorado, nos dois lados. Uma moça vestindo uma jaqueta da Vigilância Sanitária brasileira entra no ônibus, inspeciona o banheiro casualmente e desce autorizando seguir adiante.

Após as formalidades burocráticas, que sempre envolvem preencher papéis e fichas que certamente apodrecerão sem serem tocados, todos voltam ao ônibus que segue mais uns poucos quilômetros adentrando o território venezuelano até Santa Elena de Uairén, seu ponto final.

Contemplo os primeiros carimbos no meu passaporte novo, acho que meu oitavo, o primeiro a saída do Brasil, o segundo a entrada na Venezuela. Por razões que não consigo explicar sempre achei um bom começo de passaporte quando ele é carimbado logo no primeiro mês de emissão.

Depois de cinco horas de viagem desde Boa Vista, desço do ônibus numa calçada simples que percebo ser a "estação rodoviária" de Santa Elena de Uairén e sou literalmente atacado por diversos vendedores de passagens para outras cidades, que me infernizam e me levam a crer que poucas pessoas passam e menos ainda ficam por estes fins de mundo. Alguns viajantes europeus seguem em direção ao Brasil, de carona numa Kombi. São bem jovens e me fazem lembrar bem da emoção intensa que era para mim, quando tinha esta idade, viajar por lugares desconhecidos, hoje um hábito inevitável que ainda me preenche de outras sensações que naquela época eu não conhecia.

Consulto o South American Handbook, meu guia oficial de viagens na região, que diz que os melhores pousos econômicos ficavam no centro da pequena cidade, e por isto resolvo não comprar passagem para lugar nenhum, nem subir num dos decrépitos táxis com seus insistentes motoristas, preferindo seguir à pé para exercitar as pernas e respirar o ar fresco da montanha, mais uma das vantagens de se viajar com uma bagagem pequena, e nas costas. Encontro um lugar para trocar dinheiro e descubro que 1 real está valendo 450 bolívares. Troco 125 reais por 56 mil bolívares, e me sinto um milionário com aquela grana toda no bolso, imagine só, 56 mil alguma coisa!!!

Nesta reportagem:
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