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Aruba: Enfim um lugar para Descansar! - (07/98)
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Aruba Foto: Tito Rosemberg
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Aruba Foto: Tito Rosemberg
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Aruba Foto: Tito Rosemberg
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Aruba Foto: Tito Rosemberg
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Estou à bordo de um pequeno bimotor fazendo os poucos 25km de mar azul que separam a triste Venezuela da alegre Aruba.
No avião, começo a notar algumas peculiaridades da ilha, que tem apenas 193km quadrados, ou duas vezes a área do município de Búzios. Uma delas é a quantidade de idiomas diferentes que praticamente toda a população (80 mil pessoas) conhece e a aeromoça usa!
Para iníciar tem o Papiamentu, uma mistura de português com holandês, espanhol, inglês, e dialetos africanos, mostrando claramente a miscigenação racial e cultural que é aquela pequena ilha. Depois é que vem a língua oficial, o holandês. E assim tambem é nas outras ilhas próximas e também parte das Antilhas Holandesas: Curaçao e Bonaire.
O papiamentu existe desde 1700 e vem do espanhol "papear", que, é óbvio significa bater papo e é ensinado desde 1989 nas escolas, junto com o holandês, espanhol e inglês, daí que todo mundo fala fluentemente 4 idiomas. Um assombro!
Esta língua é muito parecida com o português, e algumas frases são óbvias, tipo: "Tenha um bom dia" que é "Pasa un bom dia", "como você vai?" que é "Kon ta bai?", "você está bonita" que é "bo ta bunita", e assim por diante. Será que você sabe o que quer dizer "bon tardi", "bon nochi" ou "cuanti?"
A população de Aruba, em torno de 65 mil pessoas, é, além dos "importados", maioria descendente dos índios Arawak que vieram da Venezuela e Carib, hoje práticamente extintos, mas em compensação, é enorme o número de holandeses que vieram "passar as férias" e nunca mais foram embora.
A ilha foi "descoberta" pelos espanhóis no século 15 que fizeram pequenas colonias.
Em 1636 os holandeses invadiram a ilha, expulsaram os espanhóis e desde então não largaram a rapadura.
Finalmente em 1986 Aruba deixou de ser "colonia" e passou a ser "independente" mas dentro do reino da Corôa holandesa, tanto que até hoje a moeda é o Florin, mas em estilo local.
Recém desembarcado no aeroporto, para onde brasileiros não precisam de visto, chegando de uma Caracas deprimente, encontro Aruba saudável e arejada.
Oranjestad, com 21 mil habitantes, é a capital de Aruba desde 1787, e como a ilha está fora da zona de furacões que tantas desgraças tem trazido à região caribenha, o turismo cresce a olhos vistos e a renda que ele traz está se tornando fundamental para a economia local, ainda dependente do refino de petróleo, praticado em feias e decréptas áreas industriais.
Algumas estatísticas mostram o desenvolvimento de Aruba: uma em cada quatro pessoas tem televisão, uma em cada três tem telefone, um leito hospitalar para cada grupo de 234 pessoas e 95% da população sabe ler e escrever, muito melhor do que no Brasil.
A pequena ilha recebe uma média de 850 mil turistas por ano, 250 mil vindos em navios de cruzeiro, sendo a maioria norte americanos, se bem que encontrei uma pequena multidão de brasileiros por lá.
Vôos diários ligam Aruba à Amsterdam, Miami, Nova York, Caracas e quem diria, São Paulo, e por eles escapam muitos nativos em busca de melhores salários, principalmente na Holanda, one há uma grande colonia de nativos da ilha.
Alugo um fusquinha logo no aeroporto, saio tentando não desagradar os agressivos motoristas locais e parto em busca de hotel, o que não vai ser difícil pois toda a ilha tem apenas 31km de comprimento por 10km na parte mais larga.
Logo encontro, por acaso, a discreta Pousada Arubiana, confortável, nova e limpa, que me pede 65 dólares mas acaba aceitando 45, e que recomendo a quem tiver carro, pois fica meio distante da praia (mas com uma linda piscina) e por isto muito mais barata do que os hotéis à beira mar.
Com a diferença de preço entre um hotel na praia e esta deliciosa pousada a 5 minutos do mar, pago o aluguel do carro, 35 dólares por dia. Nada mal!
Não foi fácil achá-la pois fica numa rua lateral, as ruas não tem placas indicativas de seus nomes, e portanto ninguém sabe o nome delas, inclusive muitos moradores, o que muito me estranhou. Aliás, toda a sinalização, vertical ou horizontal, nas ruas e no tráfego é meio confusa. Sem falar que ninguém sabe ler um mapa, e pedir informações com um deles na mão pode levar à cenas cômicas, como o cara que quis me ajudar lendo o mapa de cabeça para baixo e acabou me mandando, com toda delicadeza e simpatia, na direção errada.
São tantas as praias em Aruba, que logo de início me pareceu que tinha dez vezes mais área de areia do que Búzios, e melhor, diferentemente de Curaçao, onde as praias são quase todas particulares, aqui elas são todas públicas e grátis, uma delícia para o "budget traveler" ou viajante modesto.
Logo saio no encalço de um telefone público, pois nos hotéis as taxas são imorais e há que se fugir delas, e um lugar para baixar meus email.
Dirigindo cautelosamente, como sempre faço quando acabo de chegar num lugar desconhecido, noto que a maioria dos sinais luminosos de trânsito estão desligados, e assim ficariam durante toda a minha estadia por lá.
Descubro logo o cybercafe local mas não consigo retirar meus email pois o responsável não me deixa reconfigurar a identidade no computador deles. Simpático, o cara me pergunta se não tenho um cartão de rede, pois poderia conectar meu laptop no sistema deles, que não usam modem Internet mas sim Ethernet, ou Intranet. Eu não tenho um e juro compra-lo assim que possível. No cybercafe a hora de Internet custa menos de 4 dólares, uma das menores tarifas do mundo.
Aproveito para mandar alguns emails para familiares e amigos e ler os jornais online do Rio, sempre uma tarefa deprimente, já que nosso querido país parece não ter jeito mesmo e só leio escandalos, corrupção, pobreza e o governo enganando a população visando a reeleição que viria a seguir. Tenho certeza de que uma vez reeleito, FFHH deixará a máscara cair e o país verá a seriedade do buraco em que estamos nos metendo.
Ao meu lado viajantes que tinham email nos HotMail e Yahoo da vida e que retiram suas mensagens de qualquer computador. Visito o site da HotMail e faço um email para mim também, para ser usado pela minha família em caso de urgência.
O calor é forte for a do vento, e logo me acostumo a passar o dia com a camisa molhada grudada na pele.
Logo me entrego ao que chamo de "Síndrome do Explorador", que é tentar conhecer todos os pontos da ilha, por mais distantes e obscuros que sejam, passear em todas as estradas e tirar vantagem (Êpa! Eu também???) da quilometragem ilimitada do fusquinha alugado.
Para Aruba o ideal seria um jipinho tipo Suzuki Samurai, mas como custa caro, vou no bravo fusquinha, conhecido como "jipe de pobre" no Brasil, pois também chega em qualquer lugar. Logo descubro que muitas estradas ainda não foram asfaltadas, e não se pode chegar, pelo menos de fusquinha, nas praias mais distantes do norte.
Na areia das praias encontro com grande alegria um velho conhecido de infancia, o tatuí, um bichinho de praia que era muito comum em Copacabana e no Leblon mas que desapareceu com a urbanização.
Nas praias de Búzios também havia muitos tatuís, mas agora eles são raros, e eu acabo me perguntando se eles não vieram todos para cá, enxotados pela crescente poluição das praias brasileiras e pelas promoções das companhias aéreas brasileiras, que fazem de Aruba um destino ideal para os duros que queiram passar uns dias longe de casa.
Numa linda praia na frente de um hotel chiquérrimo me surpreendo vendo uma civilizadérrima família holadesa deixar seu cachorro, que também veio de férias, fazer cocô na areia branquíssima, no meio dos banhistas, provando que nem sempre europeu é sinônimo de cultura. E mais incrível ainda, nem se preocuparam em recolher o "souvenir" que seu animal de estimação e membro da família deixou por lá. Penso que os "porcos" existem no mundo inteiro e que se eles estivessem em casa na Holanda levariam uma baita multa.
Perto, uma mulher gordona e branquela, ridícula com seus excessos pulando para fora do minúsculo biquini, me chama atenção. Aproximo-me como quem não quer nada e percebo que é brasileira. Para ela Aruba oferece o que há de melhor em "junk-food": McDonalds, Taco Bell, Wendy’s, Subway e outras redes de comida rápida lá se instalaram e vivem cheias.
Escrevendo estas linhas noto que o dia está lindo. O pesadêlo venezuelano já é uma velha história e me sinto como um otimista histérico: quando as coisas estão ruins, reclamo o tempo todo, mas uma vez que as coisas ficam boas, logo esqueço dos dias difíceis que ficaram para trás.
As nuvens galopam no céu azul do Caribe, o vento sudeste refresca o corpo quente.
A piscina da pequena Pousada Arubiana, de um só andar, com apenas 18 quartos, brilha diante do meu quarto, e uma única alma diverte-se nela: um menino incansável. Eu também sou um "menino" incansável, principalmente perto da água, que tanto faz ser desta piscina caribenha como nas águas escuras do Rio Negro, ou nas praias da Búzios que faço questão de manter vivas na memória, como um dia as conheci, antes de embregarem-se com quiosques imundos onde barrigudos clientes "dançam" uma lambada chula bebendo cerveja com suas pelancudas louras oxigenadas.
Há várias semanas que voltei à estrada, e como sempre, ela tem sido cheia de surpresas.
Depois de alguns dias descansando nas praias de Aruba, viajando pelo seu interior, boiando no mar verde e transparente como só vi nas Bahamas há muitos anos atrás, minha alma volta ao seu estado normal, confortável, como só viajando consegue ser.
A impressão é de que parti de Búzios há muitos anos, tal a distancia que sinto de lá. Em Aruba só penso em descansar.
Depois de alguns dias percebo que já percorrí quase todas as estradas da ilha, visitando o Parque Nacional de Arikok, as Indian Caves, as praias dos grandes hotéis em Manchebo Beach, a calma de Arashi Beach, onde fica o Farol da Califórnia e as grandes dunas onde quase atolo tentando passar com o fusquinha (aí também já é demais pro pequenino…).
Conhecí o interior da ilha, pobre, poeirento, sêco e desértico, sem vegetação digna neste nome, a não ser pelas árvores "divi-divi" e pelas "fioritas", pequenas flores vermelhas. O resto são arbustos retorcidos pelo vento constante.
Tudo diferente do litoral noroeste, a zona hoteleira, onde a turistada faz a festa com a água que é destilada do mar, o asfalto é novo e não se vê pobreza.
Em Palm Beach quem manda são os windsurfistas, pois o vento é de lascar e faz daquela praia uma das melhores do mundo para a pratica do esporte. Nas redondezas existem dezenas de pequenas casas particulares bem na frente da praia onde europeus alugam quartos para os esportistas. Há muitos lugares para se alugar equipamento de mergulho, uma atividade que torna-se lógica diante do mar transparente que circunda a ilha.
A cada passo uma praia mais linda do que a outra, onde religiosamente paro o carro e desço para um divino mergulho na imensidão azul turquesa, e tiro umas fotos.
A água quente favorece o sono, e como uma gaivota distraída durmo à beira mar, entregue ao caos que é viajar sem roteiro certo, como o vagabundo que sempre quis ser.
Nas areias incrivelmente brancas e finas como açucar estico meu corpo cansado do trajeto Manaus – Boa Vista – Caracas e quase esqueço que ainda tem muita estrada (mar?) pela frente antes de chegar à minha casa na California, daqui há quase dois meses.
O povo de Aruba é simpático, hospitaleiro e sempre tem um sorriso disponível. O custo de vida não é absurdo e a multidão de turistas que visita a ilha o ano inteiro pode ser facilmente evitada indo às praias mais afastadas da região hoteleira.
Mas a viagem ainda é longa é há muitas outras ilhas para serem visitadas. Logo começo a desejar voltar para a estrada, e não mais que de repente me vejo sentado no pequeno bimotor que me leva para Curaçao, admirando a paisagem caribenha pela pequena janela. Mal o avião atingiu a altitude de cruzeiro e Curaçao aparece no horizonte.
Depois de tantos anos na estrada, a emoção de chegar num lugar novo é a mesma de quando tinha 20 anos de idade. Nada mudou…
Me sinto jovem quando estou na estrada, talvez porque nela sempre há algo para ser aprendido.
Curaçao, mar azul e transparente, vida urbana e noite agitada… estou chegando!
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