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Burning Man - Na ONU dos malucos-beleza - (10/98)


Na ONU dos malucos-beleza
Foto: Tito Rosemberg



Na Onu dos malucos beleza
Foto: Tito Rosemberg



Na ONU dos malucos-beleza
Foto: Tito Rosemberg



Na ONU dos malucos-beleza
Foto: Tito Rosemberg


Faz 40 graus e o ar é muito seco. Para quem chega, depois de uma curva entre as colinas, surge a grande planície branca entre os morros de pedras. No meio do lago seco, aos poucos vai aparecendo uma aglomeração de construções baixas que mais parece uma miragem, um acampamento de Tuaregs no Sahara, um grande encontro de ciganos, uma festa medieval. Uma trilha leva à entrada da "cidade" no meio da planície de areia tão branca que torna óculos escuros fundamentais. Um louro baixo e forte, vestido de Tarzan me recebe, pega os 100 dólares, me dá a entrada e me indica para ir falar com um gordão barbudo vestido de sultão. Simpático, ele retira da bolsa a tiracolo um enorme saco para lixo, um mapa do acampamento, onde cada um escolhe seu bairro, divididos entre "calmo" e "barulhento".



Ele me passa o horário "provável" dos eventos, lições de como armazenar meu lixo durante os dias que virão, e me aconselha com cara de muito sério a beber pelo menos 4 litros de água a cada 24 horas, e termina dizendo que "Só idiotas desafiam o deserto." No bilhete de entrada está escrito:" Você assumiu voluntariamente o risco de lesão grave ou morte ao participar. Você é obrigado a trazer suficiente comida, água, proteção contra os elementos e primeiros socorros para sobreviver uma semana no árido ambiente do deserto. É proibido vender qualquer coisa. Este não é um evento de consumidores. Não deixe nada para trás quando partir. Somente participantes. Proibido espectadores."

Após dirigir por algumas "ruas" bem identificadas da zona "calma" em busca de um espaço vazio, estaciono na Baltic Avenue, entre as ruas 18 e 19, perto de um dos centenas de banheiros portáteis que foram instalados. Logo sou saudado pelos novos vizinhos dos dois lados como se fossemos velhos amigos. Uma rádio oficial pirata e 5 outras piratas não oficiais mantém todos informados do que está acontecendo (e aonde).

Uma coisa que se percebe logo de início ao sair caminhando e levantando poeira em Burning Man é o altíssimo astral de todos: nas ruas todo mundo se cumprimenta com um sorriso, mesmo se nem todos estão vestidos. A multidão, de uma incrível diversidade de estilos, atitudes, viagens e artes, lembra Djeema-el-Fna, a praça mais movimentada de Marrakech -- e provavelmente do mundo. Mágicos fazendo seus truques, equilibristas exibindo seus talentos, bailarinas piruetando pelas ruas, poetas declamando versos para uma platéia de menestréis. Um grande circo. Num campo de futebol improvisado todos os jogadores estão montados em bicicletas, alguns inteiramente pelados e cobertos por pinturas.

Um grande buraco cheio de lama fina e escorregadia é transformado numa divertida piscina, onde as pessoas parecem ter voltado à infância, rolando na lama como se ninguém nada importasse. Sem espectadores! Há esculturas e instalações por toda parte, de madeira, vidro, plástico, fibra de vidro, seda, papelão, nylon, ferro, cimento e de qualquer outro material ou cor que se possa imaginar. O nudismo é tão comum, que o uso de um bambolê já faz a pessoa parecer vestida.

Muitos corpos pintados. Ao escurecer o calor diminui, a brisa fica agradável e todo mundo veste sua fantasia para aquela noite. E é à noite que Black Rock City fica um esplendor. Quase todos os acampamentos tem gerador elétrico (silencioso) para acender a iluminação feérica que é uma das principais características do evento. No escuro, as milhões de fileiras de luzinhas de árvore de Natal ressaltam o deboche do consumismo e da caretice americana Centenas de festas "rave" acontecem ao mesmo tempo em diversos quarteirões. A música é tocada altíssima, mas com ótima qualidade para não atrapalhar a festa do vizinho. A música "techno" é a mais popular, e há mais de 10 "discotecas" sob o céu estrelado. É uma festa para os sentidos! Passam sofás e camas motorizadas cheias de corpos pintados curtindo o passeio, bicicletas experimentais, carros alegóricos, procissões de falsas seitas e carros esculpidos, instalações transportáveis e todo tipo de arte, tudo diante da poderosa e onipresente figura do Burning Man e seus 17 metros de néon. Tudo se passa de forma ordeira, pacífica, sem violência alguma, sem uma só briga ou discussão.

O Woodstock do ano 2000, dizem alguns. No chão não há nenhum lixo, uma ponta de cigarro sequer, nem uma lata de cerveja esquecida, pois todos guardam seu lixo e o levam de volta para suas cidades. Não há coleta de lixo na aldeia improvisada, nem seria necessário tal o nível de participação dos festeiros. Depois de 6 dias e noites de brincadeiras e artes, chega a noite de domingo, quando o boneco é queimado numa grande cerimonia feita para coincidir com o surgimento da lua cheia no horizonte, quando a maioria dança em volta da gigantesca fogueira e o nível de excitação atinge seu ápice: é um frenesi coletivo. Ao mesmo tempo são queimadas a maioria das esculturas e instalações, num ato simbólico do caráter transitório da vida, e um protesto contra o comercialismo na arte.

Em Burning Man a liberdade é contagiosa: passa-se uma semana vivendo como criança... Fazer e dizer bobagens sem nexo, pintar sem medo, dançar nu sem ser ridículo e à despeito da barriguinha ou dos seios caídos, e brincar do que nos der na telha. Na manhã de segunda feira começa o êxodo das 12 mil pessoas sorridentes de volta ao mundo sério, a troca de endereços, as promessas dos encontros no ano seguinte.

Todos com a certeza de que graças a uma turma de utopistas de São Francisco há um lugar no mundo onde quem vier na paz e no amor vai poder fazer tudo que tem vontade, pois Burning Man é hoje uma coisa única no planeta: a expressão mais pura da liberdade e da arte radical.

PS: Os fiscais das agências do governo federal que cuidam do meio ambiente estiveram seis meses depois no local onde o Burning Man 97 foi realizado e não conseguiram detectar nenhum sinal de sua passagem por lá. A utopia é viável!

Nesta reportagem:
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