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Mil quilômetros pela praia - (03/03)
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Durante 11 dias Sabiá e seu Land Rover seguiam na minha frente desbravando os caminhos alternativos do litoral nordestino. Foto: Tito Rosemberg
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Mangue Seco, na Bahia ainda resiste aos avanços do turismo organizado. Graças à dificuldade de acesso a aldeia permanece preservada. Foto: Tito Rosemberg
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A primeira atolada no primeiro dia dos mil quilômetros de Baía Formosa no Rio Grande do Norte até Lençóis Maranhenses. Deu para escapar sozinho! Foto: Tito Rosemberg
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O surf delicioso do Lajão, na Praia de Pipa, Rio Grande do Norte. Direitas e esquerdas sem nenhuma vibração negativa dos locais, coisa rara no Brasil. Foto: Tito Rosemberg
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O encontro com o guia e sábio Sabiá possibilitou ser conduzido pelos trechos mais perigosos sem problemas, e ainda por cima aprender algumas dicas a mais sobre condução 4x4 na areia. Foto: Tito Rosemberg
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Já se ouviu falar de gente que caminhava sobre as águas, mas um Defender também? Perto de Genipabu, no Rio Grande do Norte. Foto: Tito Rosemberg
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As falésias do trecho entre Natal e Fortaleza são de uma rara beleza, mas não se pode descuidar da maré montante, pois ela cobre toda a areia. Foto: Tito Rosemberg
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Ponta Grossa, no litoral cearense é outro trecho que não é apenas belo, é também traiçoeiro pois nestas areias dezenas de carros já foram devorados pelo mar. Foto: Tito Rosemberg
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A famosa balsa de Mundaú no Ceará: feita para passar buggy, sofre quando leva um pesado Land Rover. Se o vento e a maré estiverem contra pode causar pânico. Foto: Tito Rosemberg
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Eu e o veículo utilizado nesta viagem, equipado com a barraca de teto comprada na Itália para a expedição ao Saara em 1988. 14 anos de bons serviços. Foto: Tito Rosemberg
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Pescadores desembarcam carne de arraia em Jericoacoara, Ceará. Saborosa mas pesada, a carne de arraia é usada em pastéis, caldos e empadões. Foto: Tito Rosemberg
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Lagoa Azul é uma das jóias da região de Jericoacoara, Ceará. Para se chegar até ela percorre-se uns bons 20 km de areia a dunas cheias de armadilhas. Foto: Tito Rosemberg
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Lagoa da Torta, em Tatajuba, Ceará, outro local para o viajante cansado soltar os músculos tensos, degustar um peixe frito e deixar-se levar pela calma. Foto: Tito Rosemberg
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A paisagem que parece neve é na verdade areia grudada na vegetação de Mangue Seco, após a travessia da balsa de Guriú rumo a Camocim no Ceará. Foto: Tito Rosemberg
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Apesar de não fazer parte do Parque Nacional, a região dos Pequenos Lençóis é tão bonita quanto as dunas dentro do Parque. Este é o único caminho para Caburé, no Maranhão. Foto: Tito Rosemberg
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Mesmo no “deserto” a vida resiste: peixe pego com a mão por um guia experiente insiste em voltar ao seu elemento. Lençóis Maranhenses. Foto: Tito Rosemberg
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Cáca, de Paulino Neves, é um dos melhores guias da região dos Lençóis Maranhenses. Conosco para o passeio curte como se estivesse trabalhando. Foto: Tito Rosemberg
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Alguns sonhos são nutridos durante muitos anos. Umas informações aqui, umas dicas ali, sugestões mais acolá e o que era delírio vai se transformando em realidade, na velocidade natural da vida.
A viagem de Baía Formosa no sul do Rio Grande do Norte, até Lençóis Maranhenses pela beira da praia é uma história clássica.
Há dois anos atrás, enquanto eu morava na Itália trabalhando como fotógrafo, soube que havia uma empresa de Natal que levava turistas mais aventurosos para viver esta aventura com “A” maiúsculo, e mais, à bordo de parrudos Land Rover Defender, um mito para quem gosta de expedições.
No frio e no cimento da Europa comecei a buscar pela Internet mais informações sobre aquela terra distante, coberta por areias sem fim, dunas que sumiam no mar e onde fazia sol e calor, duas sensações importantes para brasileiros em auto-exílio no velho continente.
Imaginei um dia chegar em Natal e acompanhar um destes Defenders no meu próprio veículo, aproveitando a experiência da empresa que há anos fazia o arriscado percurso.
Arriscado sim, e bastante, porque a maior parte desta expedição de mil quilômetros é feita pela areia das praias desertas do Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão, sempre com um olho na areia fofa e outro na maré, que se subir pode engolir (talvez até para sempre) o Land Rover como se fosse brinquedo de criancinhas.
Um ano se passou e neste meio tempo voltei ao Brasil, comprei um Land Rover Defender 110, ano 1998 mas em bom estado e equipei como se fosse mesmo fazer a tal grande viagem.
Depois de um mês subindo a costa colado ao mar o máximo possível, fotografando algumas praias semi-desconhecidas da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Paraíba, cheguei a Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, onde havia estado há mais de 20 anos atrás.
Agora sim começa a viagem pela beira da praia, primeiro rumo a Pipa, 20 km adiante onde chego depois de uma primeira e temerosa atolada (bobeira?), felizmente na maré vazante, me dando tempo para escapar desta primeira de muitas frias que encontraria pela frente.
Em Pipa se pode passar um ano mas parti em duas semanas, e ainda pela areia, rumo a Natal, mais 20 km pela praia.
Para mostrar como a vida é generosa com aqueles que se esforçam para perseguir seus sonhos, amigos comuns de Natal organizam um almoço à beira mar com Lindberg Tinôco, proprietário da Aventuras e Expedições (http://www.aventuraturismo.com.br) e seu guia/piloto Sabiá, uma figura mítica do litoral nordestino, as duas pessoas mais importantes neste projeto.
Entre um delicioso peixe frito e alguns copos de vinho brindamos à viagem, que se iniciaria apenas dois dias depois: Sabíá levando num Defender 110 um casal de alemães com seus dois filhos que queriam chegar até Lençóis e eu seguindo atrás no meu Defender 110 preparado para a vida, dia e noite, na beira do mar.
Numa bela manhã ensolarada partimos para 11 dias juntos dia e noite, Sabiá, os quatro alemães e eu, juntos desafiando as probabilidades de conflito neste grupo heterogêneo. No início parecia que os dias se passavam sem notar.
Sabiá, vai relaxado baseando-se em seu enciclopédico conhecimento das artes de dirigir um Land Rover através das centenas de rios que deságuam no mar e das dunas que parecem impossíveis de serem ultrapassadas, e das areias movediças, algumas vezes cobertas de traiçoeiras algas que podem cobrir quilômetros de areia iludindo o piloto incauto.
As pequenas cidades de praia vão deslizando suavemente entre o verde do mar e o azul do céu. Genipabu, Touros, São Miguel do Gostoso e os dias vão se passando sem problemas apesar de cansativos pelo esforço de dirigir sob tensão quase constante, e já dobramos a ponta do Brasil extremo e o rumo deixa de ser norte e passa a ser oeste.
Rodamos na maré baixa, umas breves 5 horas por dia, dependendo da lua. Cheia e nova, marés grandes, minguante ou crescente, marés mortas, sem grandes variações.
Caiçara do Norte, Macau, Ponta do Mel e o vento não pára, vindo do leste, parecendo nos empurrar rumo ao nosso destino. Vento em popa é sempre o sonho do marinheiro.
Areia Branca, Tibau e entramos no Ceará. Falésias de cores psicodélicas, vales que parecem a superfície lunar, fontes que jorram água mineral na areia da praia e até cachoeiras dentro de grutas passam a tornar-se tão comuns que até tornam-se monótonas passando pela esquerda enquanto à direita está sempre a imensidão oceânica.
Canoa Quebrada é uma surpresa, e não é das boas. O antigo paraíso dos hippies transformou-se hoje num feio parque de diversões à beira mar, cheio de pousadas de gosto duvidoso, restaurantes piranhas pescando turistas passando desprevenidos, meninas de vida não tão fácil e seus protetores, gringos branquelos tentando transformar o roxo das queimaduras num belo bronzeado. Um verdadeiro zoológico.
Fortaleza um dia e tome mais areia. Mundaú é onde o coração balança na hora de subir na menor balsa para atravessar o rio mais caudaloso, na maré mais mexida, com o vento mais forte e o coração no mesmo ritmo.
Como sempre, já estamos de novo no outro lado seguindo célere rumo a Jericoacoara, outro paraíso com quem venho sonhando há anos. A aldeia é magnífica, sem iluminação pública, ruas de areia onde se pode até atolar, alguns turistas nesta baixa estação, principalmente europeus em busca de um dos melhores points para a prática do windsurf no mundo, segundo me dizem.
Já são 6 dias de viagem, o corpo cansa, a mente confusa, a câmera já com mais de mil fotos. Overdose de beleza na veia. Mas não há tempo a perder. Os turistas alemães tem pressa!
Sempre pela areia da praia chegamos a Camocim, onde começa o asfalto até Macapá, já no Piauí. Sábia, sempre de bom humor, mesmo diante da apatia germânica, a esta altura já virou meu amigo desde criancinha, depois de superarmos todos os atoleiros e areias traiçoeiras que ainda não conseguiram nos impedir de seguir adiante.
O litoral do Piauí não é espetacular como o do Rio Grande do Norte nem alucinante como o do Ceará, mas a praia de Coqueiro vale a pena conhecer, mesmo se as areias em torno de um farol tivessem tentado e insistido em nos engolir até a maré alta, o que não conseguiram. Mas fica o aviso aos viajantes: cuidado com as areias movediças da ponta do farol perto de Coqueiro!
Parnaíba é uma cidade agradável de onde partem as excursões para a Ilha do Cajú e o Delta do Parnaíba.
Muitas horas de péssimo asfalto entre Parnaíba e Tutóia, já no Maranhão, quase leva turistas, guias e eu mesmo à beira da loucura. Os buracos nas estradas querem também engolir nossos veículos e nos faz a todos sentir saudade do delicioso deslizar dos pneus sobre a areia lisinha da maré baixa.
Rio Novo, também conhecida como Paulino Neves, ou vice versa, é o ponto de retorno ao areião belo e maldito que leva até Caburé, em plenos Pequenos Lençóis, um lugar tão desolado que só mesmo parisienses para achar aquela ponta na barra do Rio Preguiças “fantastique”. Um lugar onde o vento parece querer carregar as poucas pousadas construídas entre as dunas e jogá-las no mar revolto. Dormir em Caburé é garantia de acordar com a boca “crocante” de areia que entra pelas gretas das janelas.
Último dia: seguir pela infame trilha que leva de Paulino Neves a Barreirinhas, onde, na época das chuvas, de janeiro a maio, quando há água, só uns poucos heróicos pilotos das Toyotas de linha conseguem atravessar interligando diariamente as pequenas aldeias do caminho. São só 38km, mas a possibilidade de percorrer trechos de até 4 e 5km sempre dentro de um metro de água escura assusta até os guias mais experientes.
Mas Sabiá deixa os turistas numa lancha que os levará em conforto até Barreirinhas e vem comigo e um outro amigo dele, Cáca, que vive em Paulino Neves e é um dos mais experimentados trilheiros da região. Com eles eu iria até o fim do mundo na certeza de não me perder nem uma só vez, e a trilha do medo vira um passeio, principalmente porque estando fora da temporada de chuvas, o caminho é só areia. Mas em compensação é a pior areia dos mil quilômetros. Seca e fofa pelo sol fervente, não permite a viagem a não ser em segunda marcha e reduzida!
De repente já estamos na piçarra, que é como os nativos chamam as estradas de terra e cascalho, e Barreirinhas é onde há um quarto com chuveiro quente nos esperando. Sonho com o dia seguinte quando entrarei no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, chegando até Atins, uma quase Jericoacoara, que é uma quase Canoa Quebrada.
À noite Sabiá e eu saímos passeando e terminamos nossa caminhada diante das águas escuras do Rio Preguiças. Estamos ao mesmo tempo aliviados mas tristes por nos separarmos depois de tantos dias de aventura. Eu mais ainda porque nunca havia encontrado nas minhas viagens uma pessoa tão conhecedora do seu território com ele, e ao mesmo tempo dono de uma modéstia sem fim. Uma lição de condução de 4x4 na areia, e de conduta na vida.
Amanhã Sabiá volta de lancha até Caburé e retorna com os turistas para Natal, mas desta vez pelo asfalto.
Me sinto estranhamente feliz. Alcancei meus objetivos de anos atrás. Cheguei ao fim destes mil quilômetros de areia sem atolar mais de 5 vezes, e em todas elas consegui sair sozinho, o que já me dá algum crédito, mesmo em se considerando que Sabiá e seu Land Rover não atolaram nenhuma vez. Mas em compensação eu viajava com mais de 500kg de equipamento e ele só com 4 pessoas magras e suas bagagens.
Mas não adianta tapar o sol com a peneira: Sabiá é o grande astro da travessia, que mesmo sem querer acabou me ensinando mil e um truques na direção de um jipe em situações limites. Bem, nunca é tarde para aprender um pouco mais, sobre o que quer que seja.
As águas do Rio Preguiças correm na noite escura rumo ao mar, e eu, no porto de Barreirinhas, sentado com os pés na água agradeço ao destino pelo privilégio de me apresentar uma face tão bela do nordeste brasileiro, e ao mesmo tempo meu novo amigo Sabiá, onde quer que ele esteja em sua vida cigana.
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