Foram 45 dias de viagem a partir de Ushuaia, ao sul da Terra do Fogo, a bordo de um hobie cat 21 pés - um veleiro extremamente rápido. Partimos do sul da Argentina rumo a Puerto Williams, no Canal de Beagle. Já em águas chilenas, velejamos para a Ilha Herschel, próxima ao Cabo Horn. Acampados na Caleta Martial, aguardamos estrategicamente para fazer a travessia do Drake apenas sob condições ideais. Passar por este estreito de 500 milhas de comprimento, a bordo de um catamaran sem cabine, e depois alcançar a Península Antártica, foi um dos maiores desafios da viagem.
A Península Antártica tem aproximadamente 800 milhas até alcançar a parte continental. A partir da ponta da península, navegamos até o círculo polar Antártico por cerca de trinta dias, explorando uma região belíssima e pouco conhecida, de onde captamos imagens inéditas.
A Expedição Drake é continuação de um conceito de aventura já conhecido por Roberto Pandiani. Em 1994, ele idealizou o Projeto Entre Trópicos, navegando de hobie cat de Miami à Ilhabela, percorrendo 7.500 milhas pelo Caribe, Amazônia e costa brasileira. Em 2000, aconteceu a Expedição Rota Austral, que partiu de Puerto Montt, no Chile, contornou o Cabo Horn, no extremo sul do continente, e depois toda a Patagônia Argentina, até chegar ao Rio de Janeiro, totalizando 4.500 milhas.
Nesta terceira edição de expedições em hobie cats, Roberto Pandiani voltou a propor um roteiro inédito que tem uma conexão com os dois anteriores, ligando Puerto Montt a Miami e, agora, a Antártica a ambos. Ao final desta trilogia, Pandiani completou 14.000 milhas náuticas de hobie cat (incluindo a Regata dos 500 anos). É um feito e tanto.
Nas duas expedições anteriores viajamos sem apoio de mar e com uma logística própria, já que os trechos mais longos, sem terra por perto permitiam velejadas oceânicas sem muito risco. Desta vez é diferente, pois do Cabo Horn até a ponta da Península tivemos 60 horas de velejada sem escala em um dos mares mais terríveis do mundo. Ou seja, tivemos necessidade de um apoio no mar.
O aspecto mais importante no planejamento de uma expedição é a segurança de todos os envolvidos. Sendo assim, deve-se sempre ter em mente o principio básico de que a segurança determine todas as ações, fazendo-a a espinha dorsal do comportamento de uma equipe. A segurança desta viagem, como a das anteriores, baseia-se no espírito de equipe e no respeito absoluto aos limites naturais, físicos e psicológicos.
A Travessia do Drake é um projeto que soma uma velejada altamente esportiva, ação, tecnologia, comunicação, informação, administração de risco e intercâmbio cultural. Tudo isso exige ampla pesquisa, planejamento e logística. Por isso tivemos o apoio de um barco de oceano, que estava a algumas milhas à frente monitorando a meteorologia e passando as informações por telefone para a tripulação do hobie cat.
O barco de oceano serviu como base e levou a carga principal, aliviando o hobie cat e tornando-o mais seguro e rápido. A transmissão de dados pela internet durante a travessia também foi feita pelo barco grande, já que esses primeiros dias foram fundamentais para o sucesso da viagem e o principal objetivo, que foi alcançar terra firme na Antártica. Fomos o primeiro veleiro sem cabine a chegar no continente gelado.
A alimentação foi basicamente a mesma utilizada na Expedição Rota Austral, desenvolvida pela Nutrimental, com 5.500 calorias/dia reforçada por rações diárias auto-esquentáveis. Um outro aspecto fundamental são os trajes secos da Musto, testados com muito rigor durante 150 dias, e que mostram como a tecnologia dos tecidos se desenvolveu, tornando as velejadas mais seguras nas regiões frias. Durante os 30 dias de exploração na Península Antártica, dormimos em barracas apropriadas para a região e todo o equipamento de camping utilizado foi o de alta montanha.
O hobie cat 21 pés escolhido para a travessia tem como característica a velocidade e a resistência. Ele sofreu modificações para tornar-se mais versátil e resistente.A Barracuda Tecnologies o construiu todo em kevlar e carbono, fibras exóticas que tornam a construção mais forte e mais leve. O barco veleja melhor nos ventos fortes e teve ampliada sua capacidade de carga. Como parte do equipamento de segurança e salvatagem, usamos sinalizadores, kit de sobrevivência e primeiros socorros próprios para a região. O barco tem um sistema de flutuação positiva, que o impede de afundar mesmo com o casco furado ou trincado. O projeto teve a instalação de um localizador de emergência (EPIRB), que em caso de resgate é acionado para facilitar a localização do barco. (o que não foi necessário)
As condições meteorológicas da região por onde navegamos são das mais rigorosas, tornando vital a correta interpretação dos dados. Fizemos dois tipos de previsões meteorológicas: a primeira usando dados obtidos no local em que estivemos, através da leitura do barômetro e observação visual de céu e mar; a segunda, com informações recebidas por telefonia, via satélite e rádio. Estávamos regularmente em contato com uma estação meteorológica e com o barco de apoio. Com estas informações, foi possível monitorar o avanço das baixas pressões que trazem o mau tempo, facilitando o nosso deslocamento diário.
Nesta expedição a comunicação foi nosso elo de ligação com o resto do mundo. Ajudou a divulgar nossas posições e notícias sobre os acontecimentos e também serviu como principal ferramenta no que diz respeito à segurança.
A Travessia do Drake só foi possível porque conta com o apoio de um barco grande. Mas o hobie cat teve, a partir da Península Antártica, autonomia de alguns dias para navegar sem assistência e parar em lugares onde só um barco com tão pouco calado pode ir, como nas outras expedições. A partida aconteceu no começo de janeiro de 2003, em São Paulo, de onde o carro de apoio partiu carregando o hobie cat rumo ao sul, mais precisamente até Ushuaia.
No final de janeiro, começou a incrível viagem que testou nossos limites físicos, nossa capacidade organizacional, novas tecnologias de transmissão de imagens via satélite, uma logística para manutenção da energia dos equipamentos eletrônicos e, por fim, o maior dos desafios: manter o equilíbrio emocional e mental.
A Antártica é um dos lugares mais bonitos do planeta, porém continua sendo um lugar de difícil acesso, seja por mar ou pelo ar. As viagens, além de caras, sempre estão à mercê da meteorologia. Podemos dizer que esse continente é um lugar de contrastes com ventos que podem alcançar 320 quilômetros por hora e temperaturas abaixo de 89oC. Nessas condições tão extremas, o cenário espetacular e selvagem ainda esta preservado. Este foi o cenário de nossa viagem.
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