
Partiremos amanhã. Betão e Duncan devem abrir as velas do catamaran por volta das nove horas da manhã e nós um pouco mais tarde, às onze. Tudo parece estar bem e o entusiasmo é contagiante. Betão está curado da infecção ocular que o perseguia e irradia seu bom humor. Duncan continuou focado até o último minuto em preparar cada detalhe do barco, com um cuidado especial para as questões de segurança. A chegada do dia da partida teve um efeito muito positivo sobre ambos.
Oleg e Sophie, com a ajuda dos filhos estão dando os últimos retoques no Kotic II para receber a equipe de apoio a partir de hoje à noite. E já estão todos em Ushuaia desde ontem. Não tive tempo de estar com eles ainda pois decidi investir estes poucos dias antes da partida para conhecer esta encantadora cidade e suas vizinhanças.
Ushuaia fica de frente para o Canal de Beagle, que corre de leste a oeste, marcando a divisa sul entre Chile e Argentina até a altura do Lago Roca, onde a separação oeste entre os dois paises passa a ser sul a norte. Bem nesta “esquina” de fronteiras existe um Parque Nacional que permite visitas, camping e trekking.
Fazer a trilha da “Ensenada” que nos leva a La Pataiya é um prazer indescritível. São cerca de 6 a 7 kilometros de caminhos que se esgueiram pela “Costera” e invadem a floresta de “lengas” e “ñires”. Estes dois tipos de árvores, bastante parecidas e da mesma espécie, são características da região. Tem pequenas folhas que mudam acentuadamente de cor no outono passando do verde para o amarelo e vermelho vivo, pouco antes de cairem. Mesmo agora já é possivel ver algumas folhas bem vermelhas anunciando o que deve ser um espetáculo de cores em abril.
O solo aqui é muito frágil e ralo com uma espessura media que não passa de 15 a 20 centimetros. As árvores, no esforço de buscar a vida, espalham suas raízes horizontalmente criando desenhos nos caminhos que trilhamos. O vento inclemente destas latitudes se abate sobre elas fazendo-as ranger e, frequentemente, quebrarem-se. São muitos os troncos caídos e que vão naturalmente apodrecendo e criando cenários tristes e belos que nos envolvem.
O contraste da pouca claridade das tristes florestas costeiras com a luminosidade do Canal de Beagle faz deste passeio uma das atrações do Parque e da cidade. Surpreendentemente não encontramos muitas pessoas caminhando pelas trilhas e mesmo o número de pessoas acampadas é pequeno. Isso talvez se deva ao fato de o parque não ter nada de grandioso a mostrar, tem de ser descoberto com vagar como um bom vinho. Nada parecido com o próprio Canal de Beagle ou o Glacial Martial.
O Glacial Martial domina a baía da cidade de Ushuaia. Com seus mais de mil metros de altura destaca-se como um lençol branco estendido sobre as montanhas escuras. Para chegar lá é necessário subir de carro a encosta da montanha até a base do teleférico, a cerca de 385 metros de altitude. Dali somos conduzidos por 200 metros até o início da trilha para o topo.
Faz bastante frio e o vento ajuda a aumentar a sensação de desconforto apesar do dia claro, sem chuvas e poucas nuvens – uma raridade por aqui. Uma boa bota de frio e um casaco e um calça à prova de água com proteção térmica é tudo o que se precisa para subir. Eu, que já tenho os joelhos e as juntas com o prazo de garantia expirado, levei tambem um bastão de caminhada. A subida chega a ser bastante íngreme em alguns trechos, mas nada que exija talento ou experiência prévia em montanhas.
Do alto a vista é simplesmente maravilhosa. No primeiro plano a neve, depois as pedras da montanha, a montanha com sua vegetação e, quase mil metros abaixo, a cidade com seu porto, os barcos, as ilhas, a costa chilena e o canal se estendendo ate o Atlântico! Vale todo o esforço da subida.
Descer é uma experiência interessante. Pode-se surfar montanha abaixo combinando pequenos pulos com deslizamento das botas sobre a neve e sobre o gelo. Ou de forma mais divertida e segura, escorregando na neve com os fundilhos da calça sobre um saco plástico.
Muitos fazem este passeio e vão até a altitude que seu fôlego ou coragem lhes permite. Havia na montanha gente de todas as idades, de 5 a 70 anos, e de todos os países.
Na chegada à base de topo do teleférico parei no pequeno restaurante para comer uma torta de maçã que Betão me havia recomendado. Não encontrei a torta (era item do verao passado) mas fui recebido ao som de um inconfundível pagode brasileiro que fluia do toca-fitas. Mais uma indicação de que a fusão cultural talvez anteceda e acelere a fusão econômica do Mercosul.
Para terminar bem o dia, por recomendação do Oleg, fomos jantar no Chez Manu, um pequeno restaurante situado na mesma estrada que dá acesso ao Glacial Martial, com janelas de vidro para a baía, seu porto e seus barcos a vela. Lá, com a cidade em lusco fusco abaixo de nós, comemos uma obra prima conhecida como Merluza Negra ao vapor. Manu, um chef francês que durante alguns anos trabalhou no “La Borgogne” em Buenos Aires antes de mudar-se para cá e trabalhar na cozinha do “Hotel Las Hoyas”, nos explica que a merluza negra é um peixe de grande profundidade (500 metros) e muito gorduroso. Para que se possa apreciá-lo é preciso extrair a gordura no vapor.
Manu, como todo mundo na cidade, sabe que Betão e Duncan partirão para uma aventura incrível em um “barquinho”. Nos deseja boa sorte na vela e eu desejo que ele continue a usar o vapor com a maestria que ele demonstra. Salut!
O “barquinho” foi finalmente testado nestas águas. Com suas cores vivas cruzou o canal a mais de vinte nós com as velas rizadas (mais de 35 kilometros por hora com as velas não inteiramente levantadas). Muito rápido e muito ágil. Um barco valente para dois grandes velejadores. Salut!
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