Travessia do Drake - Pequeno relato de quem não foi

Tema:Travessia do Drake
Autor: Zé Amorozo
Data: 3/2/2003

Cheguei em Ushuaia algumas horas depois deles.

Enquanto esperava pela liberação dos 250Kg de bagagem avistei de longe os 2m do Betão e, a seu lado, um pouco mais misturado às pessoas, o Duncan.

Eles haviam deixado São Paulo uma semana antes, de carro, rebocando o Satellite. El viento soprava furiosamente como costuma acontecer por lá.

Olhando, ainda do avião, podia ver o Beagle apostando com as estâncias fueguinas para ver qual dos dois possuia o maior número de carneiros.

Fora do aeroporto o frio cortante dava as boas vindas.

No clube Afasyn, com a inestimável ajuda do Dani e do Gustavo, acomodamos a carga toda que lotou a perua do Betão e mais 2 táxis.

As muitas nuvens impediam que víssemos o Monte Olívia, um dos muitos cartões postais da cidade, Las 5 Hermanas, linda cadeia de 5 montanhas um pouco mais ao Norte ou qualquer outro dos muitos picos que cercam Ushuaia.

Mas era só a timidez do reencontro. Algumas horas mais tarde,intimidade já restabelecida, o céu se escancara e Ushuaia se revela sem pudores sob os cumes com seu branco renovado pela neve recém caída.

A cidade está cheia. Andando pelas ruas, em poucos quarteirões escuta-se vários idiomas, alguns difíceis de identificar.

Há 2 anos era muito diferente.

A crise tornou a Argentina barata, principalmente para quem chega com dólares.

O dia já vai terminando e após deixar a mala no hotel vamos comer uma costilla de cordero no La Rueda e dar umas voltas pela cidade para matar as saudades.

Caras e lugares conhecidos aparecem por todo ladoe despertam lembranças da Rota Austral.

O dia seguinte e todos os outros são ocupados com a montagem e preparação do barco. O melhor de tudo são as pausas para o almoço.

Betão, por conta de uma conjuntivite muito forte e uma inflamação na garganta que veio a seguir se encarrega de dar andamento aos trâmites administrativos e burocráticos que uma viagem como essa requer. Alem de se preocupar com os equipamentos e víveres que serão necessários na travessia.

Em meio ao frio e aos efeitos de luz impressionantes causados pela chuva, pelo sol e pelo vento que fazem dessa parte do mundo um lugar único, tive a sorte de passar 2 semanas acompanhando os preparativos finais da viagem.

Quero abrir um parêntese para registrar o conhecimento técnico, as soluções criativas, o perfeccionismo e a dedicação do Duncan no trabalho de montagem do barco.

Como diz o Betão, apesar de sul-africano ele imprimiu um padrão europeu.

Após a 1ª semana a rotina passou a ser quebrada pela presença dos membros da tripulação do veleiro de apoio que começava a chegar.

O 1º foi o próprio Kotic II trazendo Oleg, Sophie e Olga. Um alegre reencontro. Igor que está vivendo na França chegaria alguns dias depois.

Aí chegou Moyses Plucienik que veio acompanhado da esposa Ana e dois de seus filhos.

Jorge Nasseh da Barracuda (construtora do barco) que veio apenas para se despedir e também veio acompanhado da mulher Clara e da filha Georgia.

E a festa começou a rolar forte mesmo no dia 21 quando chegaram meu velho amigo Júlio Fiadi acompanhado de meus novos amigos Roberto Dias, Makoto Ishibe e o Clayton Conservani (que eu já conhecia de outra viagem) que também veio com a mulher Carmem e a filha Gabi.

No mesmo dia chegaram ainda Afonso, presidente da Semp Toshiba, patrocinadora master da viagem, acompanhado de sua mulher Cristina da gerente de marketing da empresa Núria.

A tripulação se completou no dia 23 com a chegada de meu velho amigo e cumpadre Fábio Tozzi, o médico da expedição.

Com os preparativos chegando ao fim começamos a ter mais tempo para desfrutar os amigos e a cidade.

Na véspera da partida Jorge nos ofereceu um jantar de gala em salão privado do Hotel Las Hayas, na subida para o Glaciar El Martial, de onde se tem uma vista magnífica.

Com atraso de 1 dia devido ao vento de 40 nós que açoitava o Beagle, a viagem começa no domingo dia 26 rumo a Puerto Williams, em território chileno.Vejo o barquinho se afastando escoltado pelo Kotic II e fico pensando nas estórias que estão para começar.

São 2 as viagens que se iniciam:

A 1ª em um veleiro com várias pessoas, todas de personalidade forte, confinadas em um espaço restrito, em um meio-ambiente por vezes muito hostil. A administração e acomodamento de tantas idiosincrasias, por si só, já devem render uma boa estória.

A outra, uma jangadinha de 7 metros equipada com o que a tecnologia tem de melhor para uma empreitada como essa, exposta por alguns dias a um dos ambientes mais inclementes do planeta, conduzida por 2 caras que em busca de suas próprias estórias vão acabar por fazer História.

Boa viagem a todos.

Já sem nada para fazer resolvo ficar uns dias a mais para rever velhas caras e isso também é estória. Mas não creio que vá interessar a ninguém.



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