
Enquanto a inspeção do barco de Betão e Duncan em Puerto Williams seguia o seu lento processo, nós, do Kotic II, batíamos uma bolinha no pier do Yacht Club. A bola foi comprada no setor comercial da cidade que é constituído por uma praça de uns 500m2 cercada por “tiendas” em toda a sua volta. É curioso notar que no total não há mais do que 10 lojinhas e duas delas, as maiores, são de empresas competidoras de serviços de telecomunicações. Ligar para o Brasil custa 1 dólar o minuto e usar a Internet custa 1 dólar cada 15 minutos. A nossa bola, fabricada na Ásia, custou 8 dólares. Um alto investimento para podermos desfrutar o prazer de jogar futebol na Antártica.
O nosso joguinho de toques chamou a atenção de um dos oficiais de inspeção que ficou parado olhando-nos com aquela cara de quem quer entrar na roda. Bastou dar um passe na direção dele que imediatamente vimos o oficial transformar-se em peladeiro. Perguntou-nos se temos um time para jogar e já marcamos um jogo para a nossa volta a Puerto Williams, já que em brve partiríamos.
Em nossa equipe dispomos de dois verdadeiros “atletas da bola”. Clayton Conservani, o repórter da TV Globo, foi uma espécie de garoto promissor no infantil de Resende, estado do Rio. Conta até uma história de um jogo contra o infantil do Fluminense em que ele fez dois gols e seu irmão outros três, resultado: 5 x 0 para o time da casa. Roberto Dias, homônimo do Betão velejador e, como eu, é um convidado da expedição, diz ter deixado o grande Casagrande no banco de reservas da Caldense. Parece ter sido um centroavante rompedor, impetuoso e finalizador. Os dois somados a meros admiradores da arte como Fabio Tozzi (médico), Júlio Fiadi (empresário e fotógrafo), Igor Bely (universitário e navegador) e este escriba compõem a seleção do Kotic II. Makoto Ishibe (geólogo, escalador de paredes e cinegrafista), apesar de ser um atleta de ponta em sua especialidade, não tem intimidade com a bola e deve ficar no banco, para emergências.
Saímos de Puerto Wiiliams em direção a Puerto Toro, uma vila de meia dúzia de casas em torno de um píer lindíssimo de madeira. Somos recebidos por um sorridente pescador local que faz um escambo com Sophie: ela troca um cordeiro por uma quantidade enorme de “centollas”. É um negócio de velhos amigos que se conhecem há anos nesta região tão pouco habitada.
Igor pega a bola recém comprada e leva-a até um galpão da marinha onde há uma quadra de esportes. A notícia de que há uma bola e um time de brasileiros na vila espalha-se como um raio. Em poucos minutos surge um convite oficial para um jogo amistoso contra o time local formado por dois oficiais da marinha, o pescador e mais dois adolescentes.
Nossos craques garantem que será uma barbada. O time todo concentrado no barco devora mais uma refeição à base de cordeiro feito por Sophie e Olga. Partimos confiantes para a quadra e um esquentamento inicial. Começamos um três contra três, à espera dos nossos adversários, ou melhor, nossas presas.
Em dois minutos ocorre o primeiro desastre. Clayton, ao tenter um drible junto à lateral, torce o pé esquerdo e literalmente vai para o chuveiro de água gelada. Fábio lhe dá assistência médica necessária e garante que um bom repouso será o bastante para a cura. Retornamos à quadra e aos poucos começam a surgir os “fregueses” chilenos. Notamos que um deles tem um bom toque de bola e dribla e chuta bem de direita. Um outro parece ter um canhonaço de esquerda. Um pensamento perpassa minha cabeça: “acho que não vai ser um passeio, não.”
O jogo começa confuso. Há uma indefinição sobre regras e finalmente concordamos que se a bola sair pela lateral será considerada bola fora e que gols só valem se feitos “de dentro da área”. É dada a partida e em menos de 30 segundos Roberto chuta e marca, mas de fora da área. Mais algumas conversações e concordamos que o gol não valeu.
Mais dois minutos se passam e Roberto, como Romário, sofre um estiramento da musculatura da coxa e vai para o gol, numa troca com Júlio. A esta altura já temos o estádio lotado com cerca de seis crianças de Puerto Toro torcendo pelo time local. O jogo recomeça e Roberto não consegue abaixar-se para pegar um chute de direita do oficial da Marinha: 1 x 0. Roberto tenta a posição de beque central e no primeiro pique desiste em meio ao movimento: 2 x 0.
E assim, sem seus craques, com a torcida contra, no estádio do adversário, a equipe brasileira que vestia a camiseta da “Travessia do Drake” foi sucumbindo até o vergonhoso placar de 7 x 1.
Ao final do embate uma das crianças nos pede a bola de presente. Foi somente aí que descobrimos que eles estavam sem bola desde o inverno passado quando a última estourou. A vida tem suas dificuldades por aqui.
Nosso consolo veio no dia seguinte quando comemos os grandes caranguejos preparados pelo pescador amigo de Oleg e Sophie. Uma verdadeira montanha de caranguejos alaranjados foi colocada em nossa mesa ao lado de garrafas de vinho branco. Comemos e bebemos o suficiente para esquecer o vexame da noite passada e nos prepararmos para seguir viagem até a Ilha Hershel, na pequena enseada Martial, a apenas 10 milhas do Cabo Horn.
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