Os chifres do touro bravo e o brinco na orelha


Data: 10/2/2003

Saímos de Puerto Toro com destino à Enseada Martial preocupados com o que poderíamos encontrar pela frente. A enseada fica na Ilha Hershel, em meio ao arquipélago Wallaston e trata-se do único bom abrigo desta região normalmente açoitada por ventos fortes e imprevisíveis.

Para chegar lá é preciso passar pelo “Paso Bravo”, uma estreita passagem que afunila os ventos criando um enorme efeito de aceleração. O formato das montanhas ajuda a criar diferenciais verticais de pressão fazendo com que os ventos desçam com grande violência de qualquer lado, são os chamados ventos catabáticos. O pandemônio que eles criam é conhecido como “wiliwaw” pelos falantes de lingua inglesa e é bastante comum na África do Sul, terra de Duncan Ross. Aqui recebe o apelido de “racha”.

Passar pelo Bravo é, na maioria das vezes, como montar um touro. Os barcos são sacudidos de um lado para o outro em movimentos imprevisíveis e tudo o que se pode fazer é tentar manter o barco em pé. Oleg, o comandante do Kotic II, que já passou por algumas experiências interessantes por aqui está cauteloso. O problema potencial maior é para o catamaran de Betão e Duncan. Temos cerca de 15 nós de vento que podem chegar a mais de 25 nós no Bravo!

Para nossa agradável surpresa, a tal Bravo que encontramos parece uma piscina de crianças. Chego a lamentar, por um breve momento, que não possa ver e sentir um verdadeiro “racha”, tentar domar um “wiliwaw”.

A Enseada Martial se abre para nós logo após a passagem do Bravo. Uma pequena praia de areias claras com vegetação de pouca altura e um pequeno rio que deságua em seu canto direito. Não há moradias na praia, mas pudemos ver dois abrigos encrustrados nas baixas montanhas que a envolvem.

No dia seguinte decidimos tentar chegar e desembarcar na Ilha de Hornos, que abriga o famoso cabo de mesmo nome. Horn em inglês, hornos em espanhol e cornos em português é uma referência ao formato dos picos das montanhas da ilha e que podem ser vistos a grande distância. Os nomes de acidentes geográficos por aqui são ligados a símbolos de força e violência: touro, bravo e chifre. As pessoas que os escolheram receberam a inspiração da própria natureza. Rebocamos o catamaran junto nesta incursão pois Betão e Duncan julgaram que o vento era pouco adequado para este passeio e não queriam deixar o seu barco sozinho na enseada. Logo após a saída, Betão, que ia ao leme do Satellite, sinalizava com o polegar para baixo a sua opinião sobre as condições do mar à frente. Muita agitação e espuma é o que se via à frente. À bombordo, um grupo de ilhotas com a forma de um rinocerente davam um toque ainda mais grave ao quadro que se formava.

Ao entrarmos o mar mais aberto próximo da Ilha de Hornos, o catamaran começou a corcovear e saltar da água de forma impressionante. Duncan imediatamente saiu para o convés e sua cara de preocupação passava claramente a mensagem de que os esforços a que o pequeno barco estava sendo submetido não eram nada bons. De acordo com Betão, resolveram que deveríamos dar meia volta e retornar à segurança da Enseada, onde finalmente subiram o barco na praia.

No dia seguinte subimos um pequeno pico de cerca de 380 metros de altura de onde podíamos avistar a majestade da Ilha de Hornos. A caminhada foi bastante desgastante pois o terreno é coberto por uma turfa mole que cede a cada passo. Mesmo ofegante não pude deixar de me emocionar com a visão da ilha a menos de 4 kilometros em linha reta. O mar em torno da ilha agora estava tão calmo que dois grandes navios de cruzeiro chegaram a desembarcar passageiros para conhecê-la. Imaginamos os passageiros celebrando a bordo com garrafas de champagne esta ocasião tão especial e rara. Certamente davam vivas ao comandante e talvez não tivessem idéia de como a sorte os beneficiara.

A mesma sorte nos atingiu no dia seguinte. Saímos cedo e desta vez sem rebocar o Satellite. Chegamos rapidamente à Ilha de Hornos e desembarcamos na sua face norte, em uma pequeníssima enseada com morros escarpados de rocha em que havia uma escadaria de madeira esgueirando-se para cima.

Do alto da escada vê-se à direita uma casinha onde residem o marinheiro de plantão e sua mulher e também é a sede administrativa da ilha. Ao lado da casinha há uma minúscula capela e o farol. À frente há uma série de monumentos doados por marinheiros de várias partes do mundo e um outro enorme e muito bonito feito por um artista chileno. Nele, o formato de um albatróz aparece vasado contra o céu azul voando apontado para leste, para o cabo sul da ilha: o Cabo de Hornos. E à frente disto tudo o imenso Estreito de Drake.

Na casinha tive o meu passaporte carimbado com a mensagem de que oficialmente estive em Cabo de Hornos. Pude ainda mandar para casa, por 4 dólares, um cartão devidamente postado na Ilha de Hornos. Para completar comprei por 7 dólares um diploma comemorativo de minha passagem.

Deixei escrito no livro de visitantes da ilha que, a partir de hoje, posso usar um brinco na orelha esquerda, conforme manda a tradição náutica. Dizem que nos áureos tempos da navegação aqueles que passassem pelo Horn tinham o direito ao tal brinco e a por um pé em cima da mesa da rainha da Inglaterra.

Sei que não porei o pé na mesa de Lady Elizabeth, mas o meu brinquinho pretendo instalar assim que voltar da Antártica.

Poema de Sara Vial de dezembro de 1992, inscrito em uma pedra próxima ao monumento chileno do Cabo Hornos:


Sou o albatrós que te espera
No final do mundo
Sou a alma perdida dos marinheiros mortos
Que cruzaram o cabo de Hornos
Desde todos os mares da terra
Mas eles não morreram
Nas ondas do mar
Hoje voam em minhas asas
Para a eternidade
Na última greta
Dos ventos antárticos


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