
A mesa de cabreúva com seu formato trapezoidal tem a elegância e a nobreza que se espera encontrar em salas de reunião das grandes corporações. O olhar grave e compenetrado dos presentes indica que decisões difíceis, cujas conseqüências se farão sentir para todos, estão sendo tomadas.
Sobre a mesa papéis e diagramas são manipulados atentamente. Relatórios são trazidos a cada poucos minutos de diversas fontes especializadas externas e revistos com intensa curiosidade e comparados um com o outro. Opiniões são ouvidas com respeito, mas a atenção maior é devotada a rever os fatos e interpretar suas implicações para o futuro traçado.
O clima é de tensão. Há momentos de profundo silêncio; são espaços para melhor pesar cada alternativa. Uma decisão será tomada nos próximos minutos pelo pequeno grupo de três experimentados profissionais que ainda contam com o apoio de um consultor especializado. Outras oito pessoas praticamente só assistem a reunião, injetando aqui e alí alguma observação.
A um observador externo pareceria mais um dia difícil na vida de executivos procurando decidir a melhor tática de lançar um novo produto ou a melhor estratégia de parcerias para dominar o mercado. Mas há algo estranho nesta cena, como a mesa que parece oscilar de vez em quando e as pessoas que estão trajando roupas informais e exibem barbas mal feitas.
O que de fato está ocorrendo é que Betão Pandiani e Duncan Ross estão reunidos com Oleg Bely, a bordo do Kotic II, procurando decidir se devem ou não partir amanhã para a Travessia do Drake. À mesma mesa está sentado Fábio Tozzi, médico com larga experiência em sobrevivência e resgate. Enquanto isto o resto da equipe e convidados assiste um dos mais belos momentos desta aventura – o momentto da decisão.
Mesmo depois de meses de preparação, estudos, consultas e previsões ainda há que se decidir qual é o melhor período para realizar a travessia com o máximo de segurança e as maiores possibilidades de sucesso. Esta seria uma decisão difícil de tomar em qualquer circunstância, mas um fato recente acrescentou maior dramaticidade ao processo.
Quando ainda estávamos em Puerto Williams, durante nossa incursão para avistar a Ilha de Hornos do topo de um morro próximo, fizemos uma brincadeira pela qual pagamos um preço alto. Decidimos fazer uma aposta para ver quem conseguia escorregar mais longe ao se lançar sobre o gelo e a neve. Saltamos eu, Duncan, Julio e Igor enquanto Makoto servia de juiz. Eu bati minhas costas com força e fiquei em último. Duncan acabou chicotenado o pescoço para trás e ficou em penúltimo. Igor ganhou, mas a contusão de Duncan provou ser mais grave do que imaginamos a princípio.
Duncan passou os próximos seis dias tomando analgésicos e relaxantes musculares receitados por Fábio Tozzi. Sentia tanta dor que não pode sequer levar o catamaran até nosso próximo destino que era a Enseada Martial. Foi substituído pelo mesmo Fábio, que além de excelente médico é bom velejador.
A grande preocupação de todos era quanto tempo levaria Duncan para se recuperar e enfrentar os rigores de uma travessia de três ou quatro dias sob condições extremas. Betão já havia tomado a decisão de que só sairia com um Duncan na plenitude de sua forma física. Sabia que sua vida dependeria da capacidade do companheiro e vice versa.
Naquela mesa de decisão Duncan ainda dava sinais de incômodo no lado direito de seu torso. A própria tensão da reunião fazia-o passar a mão, de tempos em tempos, sobre o local. Mas estava totalmente focado, com a cabeça funcionando a todo vapor. Foi sua a idéia de fazer um quadro resumo sobre o que poderia acontecer. Sua formação rigorosa de engenheiro mostrou-se útil mais uma vez para enquadrar o problema e as opções que teriam.
Ele criou um cronograma que cobria quatro dias a partir da manhã seguinte. Nele colocou as informações que haviam chegado de dois conceituados centros de climatologia: um americano e outro francês. Para cada dia então tentou estimar em conjunto com Betão e o experiente Oleg quantas milhas poderiam navegar no melhor e no pior caso.
O problema parecia centrar-se no terceiro e quarto dias, justamente aqueles mais longínquos e para os quais as previsões são, por conseqüência menos confiáveis. Os dois primeiros dias, ou quem sabe as primeiras 36 horas, seriam de ventos moderados vindos de uma direção favorável. Depois disso a previsão era de calmaria ou ventos muito fracos. No quarto dia o centro de baixa pressão que estava estacionário a leste da Península Antártica deveria se mover para noroeste causando grandes fortes ventos e grandes ondas por onde passasse.
Será que o catamaran conseguiria descer o suficiente em direção à Península Antártica nos dois primeiros dias e quem sabe mais um pouco no terceiro para poder escapar da tormenta que viria no quarto dia? Esta era a grande questão a ser considerada. Outras questões se colocavam. O que aconteceria se os doois velejadores não conseguissem descer o suficiente ou se o centro de baixa pressão não subisse muito? Duncan estava em condições para enfrentar o que poderia vir depois de tres dias de muito esforço? Betão sentia-se confiante para lidar com estas incertezas?
Fábio Tozzi externou sua avaliação médica de que Duncan estava muito próximo de condições ideais. O incômodo deveria passar com o tempo e a própria adrenalina da travessia o faria esquecer as dores remanescentes. Não havia limitações de movimento. Estava liberado pelo departamento médico.
Um outro fato chamou a atenção de todos. Caso os dois não iniciassem a aventura amanhã ficaríamos “presos” na região do Horn, sob condições de tormenta, por provavelmente mais uma semana. Ninguém gostava deste cenário e a dupla muito menos. Queriam partir de uma vez e enfrentar o que tivesse que ser enfrentado, mas com prudência e evitando riscos tolos. Muita coisa estava em jogo.
Por fim, olhando o quadro elaborado por Duncan mais uma vez, ficou claro que no mínimo, ao final do terceiro dia, já teriam percorrido pelo menos 300 das pouco mais de 450 milhas da travessia. Isto os colocaria abaixo do paralelo de 60o quando a tempestade causada pelo centro de baixa pressão atingisse o Drake.
O serviço do Commander’s Weather nos EUA, contatado ao telefone de bordo durante a reunião, estimou que o centro da tempestade estaria ao norte dos 59o causando pouca perturbação mais abaixo. Oleg mostrava-se ainda pouco confiante com esta previsão e sugeriu que Pierre do MeteoMer fosse consultado mais uma vez, especificamente sobre a questão do deslocamento da frente.
Tivemos de aguardar esta avaliação por mais cerca de uma hora. Enquanto Pierre trabalhava na França, a expectativa crescia no Kotic II. Alguns de nós palpitavam, certamente com menor conhecimento de causa, que agora era a hora ou até que “já passou da hora”. A tal “hora” teria sido o dia anterior, dia 2 de fevereiro e dia de Iemanjá, a rainha da águas e protetora dos marinheiros.
Eu, que prefiro os cientistas e os técnicos aos orixás, fiquei feliz ao receber a avaliação, absolutamente firme de Pierre comunicada ao Oleg, de que ao sul do 59o não teríamos surpresas desagradáveis nos próximos cinco dias.
A decisão foi tomada imediatamente e de maneira consensual entre os tres principais indivíduos responsáveis pelo empreendimento. Todos sabiam das condições e dos riscos prováveis. Todos estavam comprometidos e dariam o melhor de sí para alcançar o sucesso.
Poucas vezes em minha vida como executivo de empresas vi um processo de decisão com tanta qualidade e coragem. Aprendi muito sobre frentes e centros de pressão. Aprendi mais ainda sobre o melhor da natureza humana.
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