
Eram mais ou menos duas da tarde quando Betão e Duncan finalmente iniciaram a parte mais arriscada de sua aventura na Antártica: a Travessia do Drake. A decisão de partir fora tomada no dia anterior, depois de intensa deliberação entre os dois velejadores e o comandante do Kotic II, Oleg Bely.
Eu e os demais membros da tripulação do Kotic II estaríamos, a partir de agora, fazendo a nossa travessia da Ilha de Hornos às Ilhas Shetland enquanto acompanharíamos, torceríamos e procuraríamos ajudar a dupla em sua navegação pelo mesmo percurso.
Largamos juntos. Oleg, no comando, mostrava-se bastante preocupado. Meses antes havia dito a Betão que, mesmo sob condições ideais, as chances de sucesso da empreitada não eram superiores a 50%. Havia muita coisa que poderia dar errado: um problema físico dos navegadores, um cabo de sustentação do mastro partido, uma mudança súbita das condições climáticas. Problemas poderiam surgir no próprio Kotic II, como o malfuncionamento do motor, que impediriam o apoio adequado ao catamaran.
Betão, Duncan e Oleg desenvolveram desde então toda uma série de medidas para mitigar cada um dos possíveis riscos aventados. Uma das medidas mais críticas para o bom andamento da travessia estava em garantir a comunicação entre os dois barcos, o Kotic II e o catamaran.
O pequeno barco foi dotado de um sistema, o EC-track, que emite a cada 30 minutos um sinal comunicando sua posição a um satélite. O satélite retransmite então a posição para uma base no Canadá, que por sua vez dissemina este dado para o Kotic II, assim como para uma base em São Paulo que atualiza automaticamente o site da Travessia do Drake.
Além disto, ambos os barcos são dotados de rádios para comunicação na faixa de VHF. Estes rádios, parecidos com walkie-talkies, para funcionarem, precisam que as respectivas antenas estejam em linha de visada, uma para a outra. Nas condições que enfrentaríamos, este tipo de comunicação só funcionaria para distâncias não superiores a 4 milhas, algo como 7 kilômetros. Os dois barcos foram dotados ainda de telefones satelitais, similares aos celulares em que é preciso digitar o número a ser chamado.
O problema com estes dois tipos de comunicação por voz é que ambos precisam permanecer desligados enquanto não são usados, pois seu consumo de bateria é elevado. Precisam ainda estar guardados em lugar seco e seguro para não se estragarem. Isto tudo quer dizer que seu uso é bastante difícil, particularmente em situações críticas. Abrir um compartimento estanque com luvas grossas nas mãos, sob ventos fortes, frio e chuva, e digitar números ou apertar pequenos botões é um desafio para mágicos de circo. Falar, ouvir e manter um diálogo sob o barulho incessante do próprio vento e das ondas é, por vezes, impossível.
Para situações limites, os velejadores tinham ainda os seus EPIRBs. São sinalizadores de posição que uma vez acionados indicam para uma central na Europa que seus portadores estão em situação de extremo perigo e precisam de apoio imediato. Esta central então faz a disseminação do sinal para qualquer embarcação que esteja nas imediações e possa dar apoio aos navegadores afligidos.
Estes quatro meios de comunicação, além de um eventual contato visual, era tudo o que dispunhamos no Kotic II para apoiar a travessia. Certamente não queríamos receber nenhuma comunicação dos EPIRB’s e contávamos com o funcionamento ininterrupto do EC-track e com chamadas regulares, em tempos pré-determinados, seja por rádio ou telefone.
O contato visual, que é o mais gratificante e indispensável para os cinegrafistas a bordo, só acontece raramente. Os dois barcos são obviamente diferentes e navegam de forma muito distinta. Só mesmo o talento e a experiência de Oleg é que poderiam garantir a proximidade entre os barcos durante a travessia e para isto ele dependia do EC-track. Com base nas informações sobre a posição e a evolução do catamaran e projetando as condições à frente ele poderia alterar o curso e a marcha do Kotic de forma a provocar um encontro no Drake. Poderia ainda sugerir à dupla mudanças de curso do catamaran, otimizando a trajetória deste e garantindo um maior número de encontros.
Por tudo isto, quando partíamos para o Drake, Oleg trazia em seu rosto o peso da responsabilidade. Ele havia estabelecido como meta não afastar-se mais do que vinte milhas do catamaran e preferencialmente não mais de dez. Dez milhas é a distância que o Kotic II pode cobrir em uma a duas horas, dependendo das condições de mar e ventos. E três horas é o tempo que os velejadores teriam de sobrevivência, com suas roupas especiais aquecidas a bateria, caso caíssem n’água!
Oleg iria dedicar-se quase sem descanso à tarefa de manter os barcos próximos um ao outro durante as mais de 80 horas a seguir. Para auxiliá-lo montou um grupo de turnos de vigilância: Igor, Júlio e Fábio. Durante a madrugada, a cada 90 minutos, um deles seria responsável por acompanhar as informações que chegavam do EC-track, registrá-las num livro de anotações e na carta de navegação ao lado da posição do próprio Kotic II. Cada um, a seu turno, também estaria a cargo da navegação do Kotic II. Durante o dia e boa parte da noite Oleg seguiria no comando.
Todos os demais ocupantes do Kotic II, como eu, ficariam aguardando os acontecimentos da travessia. Estávamos menos apreensivos graças à nossa santa ignorância. Mas estávamos ansiosos, afinal o tão temido Drake cheio de surpresas estava à nossa frente. A travessia se anunciava pacífica, ao menos era isto que entendíamos a partir dos relatórios metereológicos.
Realmente, segundo Oleg, tivemos uma travessia incomum. Um Drake ameno com ondas inferiores a 3 ou 4 metros e ventos nunca superiores a 25 nós durante quase todo o percurso. Mas isto não quer dizer que o Kotic II não balançasse e sacolejasse. Alguns companheiros de viagem, a despeito de usarem medicamentos dispensados pelo Fábio Tozzi, tiveram fortes enjôos, vomitaram e passaram mal.
A preocupação constante de todos era saber como estariam Betão e Duncan. O sinal do EC-Track continuava vindo com regularidade e podíamos acompanhar a evolução deles na carta do comandante. Mas, como estaríam? Se a coisa é ruim até para quem está dentro do Kotic II, quentinho e sendo alimentado regularmente e magistralmente pela Soohie, como é que deve estar lá, naquele catamaran, em meio ao frio e comendo pouco?
Nossa vida a bordo era uma vida de espera. De certa forma toda travessia é uma espera: é o passar do tempo entre uma situação inicial e outra, final. Estar numa travessia é ter partido sem ter ainda chegado. É estar num limbo, buscando ser algo novo e tendo já deixado de ser algo velho.
A travessia é uma vida à parte e pode ser uma experiência extremamente rica. Para nós, no Kotic II, que estávamos “sendo levados” na travessia quase tudo se resumia a uma espera, uma longa espera. Estávamos numa cápsula do tempo.
O primeiro encontro depois da partida aconteceu no alvorecer do dia seguinte. O catamaran mandava sinais cada vez mais próximos até que apareceu pela popa com a luz alaranjada da manhã por trás. Um espetáculo belo plasticamente e gostoso pelo reencontro. Betão e Duncan estavam bem apesar de terem ambos passado mal e vomitado nas primeiras horas da noite anterior. O humor deles era contagiante. Betão chegou a gritar para nós, com uma cara marota: “Precisam de alguma coisa?”.
Tivemos ainda vários encontros durante o dia e no dia seguinte que, conforme previsto, foi de calmaria. Mais tarde porém, quando o vento apertou bastante e o mar começou a se tornar agitado, tivemos atraso, por alguns minutos, da recepção dos sinais do EC-Track.
Foram momentos de muita tensão, com tentativas de contato por rádio e telefone, todas sem sucesso. Felizmente os sinais tornaram a voltar pouco depois, quase ao mesmo tempo em que Duncan iniava um contato por telefone. Tudo normal apesar do enorme cansaço.
Poucas horas depois a travessia estava completada com sucesso. O pequeno barco cruzara a linha imaginária que vai da Ilha Smith a Ilha Snow no Estreito de Boyd. Betão e Duncan sobem a bordo do Kotic II, depois de uma prolongada e difícil operação para amarrar o catamaran ao nosso barco em meio a um mar revolto e sob ventos de até 35 nós.
Estavam exaustos e foram dormir. Nós podíamos finalmente sair de nossa cápsula de tempo e voltar a uma “vida normal”.
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