

Partida de Deception para Melchior - Departure from Deception to Melchior
Foto: Julio Fiadi

Em Deception - In Deception
Foto: Julio Fiadi

Satellite e Kotic II na Ilha Deception -Satellite and Kotic II in Deception Island
Foto: Júlio Fiadi
Decepção é o nome da ilha que serviu de abrigo aos caçadores de baleias nos primeiros anos do século passado. Até hoje se pode visitar, em Whalers’ Bay (Baía dos Baleeiros), o que foi uma fábrica de processamento de óleo de baleia. Quantidades impressionantes de aço foram transportadas para lá e montadas como uma enorme planta de processamento químico.
Fábricas como esta aumentaram a eficiência do processo de obtenção do óleo de baleia; óleo este de alta demanda sobretudo por suas qualidades então únicas como lubrificante. Navios baleeiros pescavam o mamífero e processavam a bordo apenas a sua gordura. Tanto a carne como as ossadas eram literalmente jogadas fora, embora contivessem mais de 60% do total do óleo de baleia.
A partir de plantas como a de Decepção passou-se a aproveitar o que antes era jogado fora. Haviam verdadeiros cemitérios de carcassas nas praias da região. Passaram a ser fontes de matéria prima para estas fábricas de reciclagem. Ainda hoje é possível ver algumas ossadas ao longo de Whalers’ Bay e dá para imaginar o que deveria ter sido a atividade industrial do lugar e o cheiro insuportável que criavam. Muitas baleias foram processadas nesta ilha, algo que nos faz pensar sobre o que a busca de eficiência para atender o homem pode fazer com o ambiente.
As baleias começaram a desaparecer desta região e com o advento de outros centros de processamento, como o das Ilhas Georgia do Sul, a fábrica daqui foi desativada. Não fosse isto, a natureza teria tido uma oportunidade de vingar-se da matança indiscriminada de um de seus mais belos mamíferos.
No final dos anos 60 dois terremotos abalaram a ilha, calcinando tudo o que estava instalado em Whalers’ Bay. A fábrica, que nunca chegou a ser desmontada, bem como as bases de apoio aos trabalhos científicos que ali se instalaram posteriormente foram soterradas por lava. O cenário que se formou é digno dos melhores filmes de ficção científica.
Torres de resfriamento, fornalhas e tanques de queima com sua cor de ferrugem parcialmente tombados e retorcidos sobre um chão de lava resfriada aparecem quase na mesma ordem e simetria em que foram instalados. Advinha-se uma ordem antiga em meio à desordem causada pelo terremoto. Ao fundo, montanhas cobertas de gelo e neve. A dureza das formas e materiais da velha fábrica contrasta com a suavidade e a luz que emana destas montanhas.
À esquerda de quem chega à enseada vê-se a “Janela de Netuno” – uma enorme descontinuidade no que é a borda do vulcão que forma a Ilha de Decepção. Uma rápida caminhada ao topo da “janela” nos possibilita ver o mar verde que circunda a ilha emoldurado por negras rochas escarpadas. Uma pequena praia de pedras está bem abaixo da janela e nela descansam preguiçosamente focas.
De volta à praia de Whalers’ Bay vimos muitas outras focas e vários pinguins. A presença destes seres movendo-se sobre o que foi a fábrica, os botes, os tratores trazidos e alí largados pelo homem é quase uma sátira sobre nossa inteligência. Nem mesmo o melhor roteirista de cinema poderia ter criado algo mais enfático.
Decepção em inglês tem um significado diferente daquele que damos a esta palavra em português. “To deceive” quer dizer enganar ou esconder algo e esta ilha de fato esconde sua entrada dos navegantes enganando-os quanto ao que poderão encontrar dentro dela.
Sua única entrada fica a sudeste, ou seja, do lado contrário de quem chega. Mesmo quem se aproxima a sudeste fica grande tempo tentando advinhar como nela entrar, pois a passagem é estreita e sinuosa. À porta fica uma imensa pedra de formato vertical – Pete’s Pillar.
Uma vez dentro da coroa deste vulcão transformado em ilha há excelentes lugares para ancorar um barco em segurança. Hoje em dia, até mesmo grandes navios de turismo conseguem chegar ao seu interior abrigado. Não só por isto Decepção é o destino mais visitado da Antártica.
Do alto de suas encostas vulcânicas pode-se admirar lagos esverdeados seguidos de outros cinzentos que se aproximam do mar azul interno. Mais além ainda se vê o mar aberto de um verde acinzentado e repleto de icebergs brancos e azuis.
Fizemos uma longa caminhada de uns 15 kilometros pelo cume do vulcão.Ventos muito fortes nos empurravam na ida e, infelizmente, nos seguravam na volta. Um terreno arenoso, por vezes, coberto de neve, se alternava com trechos de rocha. Ficamos a uma altitude média que variava em torno dos 300 metros. As subidas das encostas eram dificultadas por crevassas e escolher bem a rota de subida economizava esforço. Em alguns momentos ficávamos envoltos por um nevoeiro denso que adicionavam magia e mistério aos cenários áridos das planícies forjadas por erupções.
Como caminho mais lentamente que meus companheiros de viagem, fiquei por bastante tempo sozinho e pude curtir em isolamento paisagens que jamais esquecerei. Quando abrigado dos ventos e estando só, em um ambiente tão estranho, tive sensações singulares. Consigo entender porque algumas pessoas reportam visões místicas em situações como esta.
Tivemos muita sorte aqui. Os dias foram claros, de céu azul e temperaturas amenas. Há poucas decepções tão belas nesta vida.
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