Canais e canoas


Data: 28/2/2003

À saída da Ilha Decepção uma brisa suave nos esperava. Havia uma previsão de calmaria para o percurso que faríamos até as Ilhas Melchior. Betão e Duncan batiam as velas de seu pequeno catamaran quando começamos a nos afastar no Kotic II. Tudo levava a crer que teríamos uma travessia aborrecida pela frente.

De repente os ventos começaram a mudar e em pouco tempo já enfrentávamos mais de 25 nós, com picos de 35 nós. O mar tornou-se bastante agitado, com ondas vindo de todas as direções. É como diz o nosso experiente comandante Oleg: “Aqui, quando o vento começa a soprar, as condições já estão postas para uma tempestade.” Ele se refere aos desníveis entre a plataforma continental da Antártica e o Drake, assim como aos canais formados pelos vãos entre as ilhas e a península. Os desníveis favorecem a criação de grandes ondas e os canais afunilam e aceleram os ventos. Por fim, o rápido deslocamento de massas de ar pelos canais criam os diferenciais de pressão responsáveis pelos “wiliwaws”, os terríveis ventos descendentes.

Betão e Duncan tiveram o que eles próprios denominaram como “a velejada mais radical de suas vidas”. Nós pudemos assistir, de tempos em tempos, ao xadrez que eles jogavam com o mar. O catamaran acelerava incrivelmente no topo das ondas e vinha surfando suas paredes de até quatro metros de altura. Ao chegar em baixo era, então, freado bruscamente, empinando-se e enterrando parte da proa na água. Somente a destreza e a coragem dos dois é que mantinha o barco corretamente assestado para tirar o máximo proveito dos “jacarés” sem atravessar a onda e ser derrubado por ela. Na frenagem tinham de evitar que o barco embicasse de vez e capotasse para frente. E feito isto, começassavam imediatamente tudo de novo!

Foram quase doze horas desta interminável montanha russa. À entrada das ilhas Melchior o catamaranoi amarrado ao Kotic II e os dois exaustos subiram à bordo. Com os rostos marcados pelo frio e pelo vento, as mãos doloridas e dedos insensíveis, os dois ainda guardavam aquele olhar de quem viu o dragão de perto, duelaram com ele e, finalmente, descobriram como conviver com ele. Havia em seus semblantes um misto de espanto, encantamento e orgulho. Sabiam que eram agora melhores do que antes. Tinham ido aonde poucos se atreveriam ir e haviam voltado para contar a história.

Oleg nos guiou pela entrada dos canais que ficam entre as dezesseis ilhas do Arquipélago de Melchior já em meio à noite fechada. Somente quem já passou várias vezes por estas estreitas passagens de profundidades muito variáveis é que poderia tê-lo feito. Com o barco ancorado e amarrado à pedras das encostas fomos todos dormir nestas águas protegidas, isolados dos fortes ventos que ainda sopravam lá fora.

Ao acordar me vi circundado por montanhas baixas cobertas de gelo que espremiam um espelho de águas transparentes. Subi em uma das encostas e fiquei admirando as aves que cruzavam de uma ilha para outra fazendo um grande barulho como se dissessem que aquele era o espaço delas e que não estavam gostando deste intruso. Pela quantidade de matéria orgânica em cima das rochas deprendi que estava em um ninhal. Depois de alguns sobrevôos rasantes, aos poucos as aves foram se acostumando com minha presença e se esqueceram de mim.

De cima comecei a ver focas, das espécies peleteira e leopardo, nadando na água ou simplesmente dormindo preguiçosamente sobre pedras e pedaços de gelo. A luz magnífica da manhã acentuava o azul intenso que emanava das fendas de gelo das encostas. Subi um pouco mais e pude então ver grandes icebergs encalhados do lado de fora dos canais. Já não havia mais ventos fortes e o céu estava claro, com poucas nuvens. Sentei e fiquei apenas observando o cenário sozinho por mais de uma hora; queria registrar tudo aquilo em minha memória e não deixar que os detalhes me escapassem.

Voltando vejo à distância que Fábio estava inflando um caiaque de borracha que trouxera do Brasil. Que grande idéia! Estes canais são o lugar ideal para canoagem: as águas são protegidas, o cenário desbundante e pode-se entrar em pequenas praias e cavernas.

Emprestei o caiaque e saí para passear depos de ser instruído sobre dois perigos a contornar. Focas leopardo são muito curiosas e costumam querer descobrir o que é aquela coisa colorida e flutuante na qual você está sentado. Fazem isto esbarrando na embarcação e mordendo o seu casco. O Kotic II já teve seu bote mordido por uma foca leopardo e, felizmente, ninguém estava a bordo dele naquele momento.

O outro perigo é o da queda de blocos de gelo do alto das paredes do canal. Isto acontece com freqüência e de maneira imprevisível. Na maior parte das vezes caem pedras pequenas que podem lhe machucar somente se você estiver junto às encostas. Quando blocos maiores caem, grandes ondas se formam e podem virar o seu barco e obrigá-lo a um indesejável banho de água a 0oC.

Embora você saiba dos perigos, não há como não se aproximar das focas ou das encostas e cavernas de gelo à sua volta. Uma das visões mais bonitas se dá quando você adentra um canal que vai se estreitando e as paredes de gelo vão “crescenco para cima de você”. De repente você ouve aquele barulho assustador de um bloco de gelo partindo-se e: “Ufa! Não foi tão próximo assim”.

Aqui em Melchior ainda tive a oportunidade de aproximar-me de uma baleia. Olga, que nos levava de bote para apreciar icebergs trazidos pelas correntes aos canais, conseguiu chegar a menos de quatro metros desta jubarte. A baleia, que estava fazendo sua refeição de “krill”, nadava com graça e mostrou sua cauda para nós. Sumia e reaparecia soltando seus borrifos de água. Não parecia se importar muito conosco, estava concentrada em abocanhar aqueles pequenos camarões que são a base de sua alimentação.

O dia seguinte amanheceu sob nevasca. Tudo em nossa volta se transformou e o deck do barco chegou a ficar totalmente coberto por uma camada de dois centímetros de neve. Como sempre acontece quando neva, não fazia frio e subi de novo uma encosta para apreciar a paisagem modificada. Agora as paredes de gelo assumiam contornos mais arredondados e as quedas freqüentes de neve acumulada criavam desenhos verticais nas encostas. Do alto pude notar que alguns icebergs haviam mudado bastante de posição e um deles virou de cabeça para baixo enquanto eu estava por lá.

Este fenômeno é bastante comum, pois a erosão do bloco de gelo se dá de maneira desigual mudando seu centro de gravidade com frequência. Icebergs que já viraram várias vezes apresentam o formato de um parafuso, com gomos e ranhuras paralelas. No dia anterior Olga já havia me advertido de que há que se ter muito cuidado para selecionar um iceberg antes de se aproximar ou mesmo tentar subir nele.

Ainda penso em subir em um deles. Para nós que moramos em um país tropical, a neve e o gelo são muito estranhos e desafiadores. Pela primeira vez, sob a direção segura de Makoto Ishibe, subi ontem uma pequena montanha de gelo. Com botas rígidas, crampom, piolet e cabos de segurança lá fui eu uns trinta metros montanha acima.

É preciso menos esforço físico do que pensava, mas se requer muito equilíbrio e regularidade de movimentos. É como diz Makoto: “É preciso entender a montanha para que ela deixe você subir, assim como há que entender o mar para que ele nos deixe navegá-lo.”


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