Odontologia


Data: 30/1/2003

Puerto Williams é um porto natural que fica numa pequena baía, dentro de uma baía. Uma verdadeira jóia para quem busca abrigo no Canal de Beagle. Até navios de grande calado conseguem esgueirar-se pela sua entada estreita pois a profundidade é bastante grande.

O cenário da chegada é majestoso. Por trás do porto erguem-se os “Dentes de Navarino”, uma seqüência de seis picos pontiagudos em que o mais alto atinge 1.120 metros. Trabalhados primeiro pelos glaciares que aqui existiram e depois pelos ventos fortes, estes picos negros com alguns pedaços ainda cobertos pela neve e gelo são um aviso de que o clima agradável que desfrutamos no momento é apenas uma breve pausa no embate gigantesco entre o mundo fixo das montanhas e o fluxo das águas e do ar. Fúria, parecem dizer aos que chegam.

Teremos de passar ao menos 24 horas aqui para que toda a papelada de imigração e autorização para navegar seja processada. A polícia e a marinha chilenas, como sempre, mostram-se solicitos e corretos, mas certas coisas tomam tempo mesmo. Resolvemos aproveitar o tempo parado para excursionar até o “Cerro Bandera”, na direção dos “dentes”, sob a condução segura de Igor, filho de Oleg e Sophie. Com 20 anos e atualmente estudando matemática e fisica na Universidade de Lyon, Igor tem larga experiência na exploração desta região.

A caminhada começa em uma estrada pedregulhada e ampla que passa por trás do porto, segue até um pequeno dique de captação de água no sopé da montanha. A água que desce das geleiras e das neves acima é tratada com cloro mas não é fluoretada, apesar de haver muitas crianças e adolescentes entre os quase 2.000 habitantes daqui. É curioso notar que a Internet chegou antes do flúor para os jovens navarinos. Ainda assim, os jovens e crianças que vi exibem belos sorrisos.

Uma vigorosa caminhada por uma mata de lengas e ñires com inclinações que chegam a 50% nos leva em cerca de 90 minutos ao topo dos 680 metros do Bandera.De lá há uma vista maravilhosa do Beagle e da costa argentina. Quase que diretamente opostas a nós há a Ilha Gable e a Estância Haberton, que visitei enquanto estava em Ushuaia e foi a primeira povoação argentina no canal há cerca de 100 anos.

Condores passeiam suas imensas asas pelo céu aproveitando as térmicas que fluem das encostas. Atrás de nós estão os “dentes”, agora mais próximos e ainda mais belos e terríveis. Podemos ver algumas lagoas encrustradas nas montanhas a uns 900 metros de altitude. Em todos nós começa a despertar uma grande vontade de ir até lá. Desta vez não será possível, temos de estar preparados para zarpar amanhã.

Como consolo, depois de uma breve refeição desfrutando as vistas que nos cercam, resolvemos seguir um pouco mais e subir um pico adjacente. Uma caminhada leve em pedras firmes, muito diferente do barro com que tivemos de duelar momentos antes, nos conduz através de escarpas até um ponto em que se pode ver o triângulo formado pelas Ilhas Wollaston de um lado, os “dentes” de outro e o Beagle surgindo através de desfiladeiros de mais outro. Inesquecível!

As Ilhas Wollaston abrigam o famoso e temido “Cabo Horn”, o ponto de terra mais ao sul do continente e passagem obrigatória para quem quer ir do Atlântico para o Pacífico ou vice-versa. O pedaço de mar entre o Horn e a Península Antártica se constitue na Passagem de Drake , o cenário para o desafio que Betão e Duncan enfrentarão em breve.

Chegamos de volta do passeio montanha abaixo completamente suados e não houve como resistir a um banho rápido e sem roupas na água gelada do reservatório da cidade. O choque térmico nos revigora e tem o sabor de um bom expresso após uma farta refeição.

Sophie nos preparou carneiro patagônico assado no pequeno forno de bordo e Olga perpetrou uma deliciosa torta de ruibarbo. É incrível o que elas conseguem fazer na diminuta cozinha de bordo. Os carneiros, aliás, foram comprados em Ushuaia e transportados na proa do barco debaixo de sacos pretos de plástico para que fossem curtindo na viagem. O ruibarbo foi coletado por Sophie no meio do mato. Para deixar a coisa toda ainda melhor, a refeição foi acompanhada por vários vinhos tintos argentinos. Sem o café expresso a bordo, resignei-me em finalizar a festa com um chá Earl Grey, meu favorito.

Depois dos de Navarino e dos das crianças navarinas, outro dentes chamaram minha atenção. Há castores por toda a Terra do Fogo e são considerados uma praga. Trazidos pelo homem há pouco tempo, estes animais não encontraram aqui nenhum predador natural e desenvolveram colônias enormes. Com sua atividade intensa de roedores tem destruído grandes porções de florestas e inundando solos que são já muito frágeis. Há uma preocupação em conter o desenvolvimento deste bichinho simpático e até domesticável e garantir o equilíbrio do ambiente.

A presença do homem e a urbanização da região criam enormes potenciais de desequilíbrio. Parece haver um projeto de ocupação civil responsável do governo chileno ligado a industrialização da “centolla”, o caranguejo gigante da Antártica. Não há qualquer incentivo para que os chilenos se instalem por aqui e o custo de vida é alto. Por exemplo, o gasto médio por residência com energia elétrica gerada a partir de diesel é de aproximadamente 1.200 pesos, ou seja, quase 20 dólares. Este número é alto se considerarmos que as casas são pequenas (uns 60 m2) e há pouquíssimos eletrodomésticos.

Por outro lado há alguns subsídios fornecidos pela infraestrutura militar. O serviço odontológico, por exemplo, é oferecido pelo Hospital Naval indistintamente para civis e militares. Há muitos dentes para cuidar.


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