Azul, dourado e branco


Data: 1/3/2003

Os escoceses tiveram uma participação muito importante na exploração da Antártica. No começo do século XX chegaram a montar duas expedições científicas ao continente totalmente custeadas por doadores e tripuladas, majoritariamente, por escoceses. O navio norueguês que utilizaram foi rebatizado como “Scotia” e tinha em seu comando o médico e cientista William Bruce, de Ebimburgo.

Em Port Lockroy, na latitude mais austral a que chegamos (64o49’30” S), Duncan Ross comprou uma bela gravata para dar de presente a seu pai com o “Tartan Antártico”. Tartans são padrões de tecidos xadrezes coloridos que caracterizam os “clans” escoceses. São usados na fabricação de “kilts”, as saias masculinas, de chapéus e de gravatas.

O tartan antártico é formado pelas cores azul turquesa, dourado e branco. Nada mais apropriado, pois estas são as cores dominantes por aqui. O azul intenso é o do gelo dos icebergs ou do ceú em dias de bom tempo. O branco é o das montanhas permanentemente nevadas. O dourado homenageia a luminosidade incrível das manhãs e finais de tarde.

Dias atrás, quando chegamos à Ilha Wiencke e ancoramos na Baía de Dorian fiquei maravilhado com o cenário que se desenha quando a luz baixa do sol ilumina as Montanhas Fief. Encrustradas na ponta sul da ilha, as montanhas tem um formato serrilhado com cinco picos nevados e igualmente espaçados. Voltados para oeste, estes picos recebem em cheio os raios dourados do final de tarde, enquanto as encostas mais baixas junto à baía já estão escurecidas. É quando aparecem as cinco pepitas de ouro sobre um manto branco e aveludado.

Na grande pingüineira que contorna a baía, centenas de animais fazem um barulho incessante. Nesta época do ano, os pingüíns recém-nascidos correm gritando atrás de suas mães para receberem comida. Elas trabalham sem parar para buscar alimento, processá-lo e regurgitar para seus filhotes. Ficam cansadas e, de vez em quando, bicam e dão fortes broncas para poderem descansar um pouco. Além do barulho, um cheiro acre fortíssimo emana das fezes e urina destes simpáticos bichos.

O cenário é tão impactante que decidimos passar a noite acampados no alto da encosta que leva ao Monte Jabet e que separa a enseada de Port Lockroy da Baía de Dorian. A barraca foi instalada pelo Makoto, pela manhã, a cerca de 250 metros de altitude. Eu, Fábio e Igor fizemos uma caminhada suave de pouco mais de meia hora sobre a neve fofa para nos instalarmos nela.

Uma grande lua, que começava a minguar, iluminava nosso caminho. Embora não pudéssemos vê-la, pois esta estava por trás do Monte Jabet, sua luz prateada permitia ver claramente as duas enseadas e as incríveis montanhas que as cercam: Monte Luigi, ao sul, com cerca de 1.550 metros de altitude, é o ponto mais alto das Montanhas Fief; ao norte, vê-se a Cordilheira Trojan, na Ilha Anvers, em que se destaca o Monte Français, ponto mais alto da península Antártica.

Quando acordamos, no dia seguinte, fomos premiados com um dia de céu límpido. A luz que surgia por trás do Monte Jabet criava enormes sombras e delineava com clareza os contornos da paisagem. De novo, o dourado, o azul e o branco eram as cores dominantes. Fiquei bastante tempo sentado olhando e fotografando. Pouco a pouco, Betão, Duncan, Clayton, Júlio e Makoto foram chegando para, junto com Fábio e Igor, iniciarem a subida do Monte Jabet.

Fiquei ainda algum tempo parado observando o inicio desta escalada e aproveitando ainda mais o cenário que começava a mudar com a subida do sol. Minha máquina fotográfica parecia ter vida própria: não parava de disparar tentando registar estas vistas marcantes.

De volta ao Kotic II, junto com Roberto e sob a condução de Olga, saímos de bote para ver os muitos icebergs da Baía de Dorian. Alguns deles eram incrivelmente azuis e Olga me confirma que são os mais mais antigos. Quanto mais azul é o gelo, mais compactado está e, portanto, pertence a camadas mais inferiores dos glaciares.

Alguns são entrecortados por canais, pequenas fendas que se formam pela constante erosão que se sofrem até eventualmente dissolverem-se. Outros contém pequenas lagoas recortadas em formato de semi-círculo. Estes espaços são de um azul turquesa intenso que emana das porções submersas dos icebergs.

Escolhemos um iceberg plano, baixo e que parecia estável para subirmos. Era a parte acessível de um bloco maior separada do resto por um sinuoso canal. O piso tem um formato estranho de pequenas e rasas covas emendadas umas às outras. É bastante difícil manter-se em pé e todo movimento tem de ser calculado nesta escorregadia superfície. Sentei na beirada do bloco de gelo com os pés sobre o canal azul e fiquei observando os outros icebergs na baía, tendo as montanhas nevadas ao fundo: o azul e o branco.

Na tarde deste mesmo dia Duncan Ross cumpriu sua promessa e me levou para velejar no catamaran em meio a estes mesmos icebergs. As condições atmosféricas já haviam se modificada substancialmente. Nuvens escuras formavam-se a noroeste e o vento já atingia 25 nós.

Subi a bordo e Duncan pediu que eu ficasse a cargo da buja, a vela dianteira. O pequeno barco acelerou fortemente e percebi imediatamente que tratava-se de um barco “nervoso e arisco”. O vento começou a aumentar ainda mais e tive uma velejada que jamais esquecerei, com o barco furando as ondas que começavam a se formar.

Na chegada, um grande susto: rajadas de até 45 nós tornaram quase impossível navegar o nosso catamaran. Felizmente Betão estava atento no Kotic II e percebeu que estávamos em apuros. Do bote de apoio lançou-nos um cabo e, depois de muito esforço físico e confusão à bordo para baixar as velas, conseguimos trazer o pequeno barco para o costado a sotavento do Kotic II. Ufa!

Foi em nosso último dia por aqui que Duncan comprou a gravata azul dourada e branca. A base inglesa do porto tem uma lojinha, um posto de correio e é um pequeno museu. Ali podemos ver o ambiente preservado tal como era há mais de 50 anos, com comidas enlatadas, jornais, revistas, bebidas e tudo o mais que permitia longas estadas na base. Há uma cozinha da época funcionando e vários equipamentos que foram utilizados em pesquisas científicas.

Por dois dólares americanos (sim, os preços estão cotados em moeda americana, algo que deve fazer os orgulhosos ingleses torcerem o nariz) você pode mandar um postal para casa, devidamente carimbado em Port Lockroy. Comprei um exemplar do excelente livro sobre a Antártica editado pela australiana Lonely Planet por vinte dólares, A gravata do pai de Duncan saiu por vinte e cinco dólares.

Meu passaporte recebeu o carimbo de minha passagem pelo “British Antarctic Territory”. Talvez os sempre colonizadores ingleses ainda sonhem em pleitear parte da Antártica como sua, a despeito de serem signatários e membros fundadores do Tratado da Antártica que determina que este maravilhoso, pouco conhecido e afastado continente não pertence a qualquer nação. É uma reserva para todos nós.


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