
Ainda que compreensível para mim, tenho tido uma estranha sensação ao ver estes três homens – Oleg, Betão e Duncan – debruçados sobre as cartas náuticas para discutirem a estratégia da travessia da Passagem do Drake em um Hobiecat. Serão quase 500 milhas (900km) neste temido mar que separa o Cabo Horn da Península Antártica. Betão e Duncan, sozinhos e expostos nesse pedaço molhado do planeta, conhecido como o pior mar do mundo, enfrentarão frio, cansaço, sono e uma imensa pressão. Agora percebo que estes fatores serão dificuldades menores para eles.
Oleg será o anjo da guarda que manterá as asas abertas sobre os dois, 24 horas por dia, monitorando-os pelo tempo que durar a travessia, estimado em 3 a 4 dias. Mesmo com mais de 35 anos de experiência nestes mares, ele se mostra apreensivo. E sua apreensão não é fruto de qualquer dúvida sobre suas próprias capacitações.
Eles discutem sobre vento, roteiro, condições do mar e da meteorologia. Esta discussão me leva a cavoucar os cantos empoeirados da minha memória, tentando recordar os tempos em que eu escalava montanhas. Coisas como frio, cansaço, sono e exaustão física eram também meus companheiros.
Tinha também a convicção de que se as montanhas tivessem vontade própria e não quisessem que alguém pisasse em seus cumes, ninguém o faria. Não se pode enfrentar a natureza como se ela fosse uma adversária. É necessário respeitá-la e aprender a interpretar seus sinais para entender suas ações. Se você for bom nisso, a natureza passa a ser sua amiga. Não é que a natureza decida de quem gostar ou não, ela é totalmente imparcial. Ao reaprendermos a interpretá-la, readquirimos um instinto que a civilização foi eliminando do bicho homem.
Quando nos lançamos em um projeto onde os fatores naturais são determinantes para garantir a nossa existência, recriam-se as condições para que tenhamos que, mesmo no terceiro milênio da Era Cristã, resgatar o elo com o mundo natural. Passamos a ter que monitorar pequenos sinais como vento, nuvens, cor do céu, cheiro do ar, temperatura, comportamento das aves e tantas outras coisas para entendermos o nosso meio. Os que avançam nesse processo conseguirão, em maior ou menor grau, pelo menos por um determinado tempo, reativar suas percepções instintivas e essenciais para sobreviverem no meio natural em que estão.
Vendo estes três homens começo a perceber que o mar não é tão plano quanto parece. Da mesma forma que as montanhas, se o mar tivesse vontade própria e não quisesse que os homens navegassem sobre ele, nós jamais o faríamos. Tanto quanto as montanhas, os mares são imparciais. Essa convicção me trouxe uma grande tranqüilidade mesmo ante a envergadura e a dificuldade desse projeto que busca um feito inédito na história da navegação mundial.
Toda vez que eu apresentava a um amigo o que eu gostaria de fazer nas montanhas, ele dizia: “É isso aí Makotão, mostre a diferença que separa os homens dos meninos”. Agora sou eu quem se sente um menino diante destes três homens. A vida dá voltas e isso é maravilhoso.
A teoria de que uma linha define a menor distância entre dois pontos não vale neste projeto. Talvez seja como a vida, não se pode traçar um destino linear entre o nascimento e a morte. Todos nós cometemos erros. Damos as nossas cabeçadas. Mas também temos os nossos momentos de acertos e fazemos coisas legais. E o que faz com que certas pessoas tenham uma vida mais bem sucedida do que outras?
Talvez os bem sucedidos sejam exatamente aqueles que tenham percebido que na vida raramente se pode unir dois pontos com uma reta. O que é evidente na montanha não é no mar. Mudando-se o ambiente, mudam-se as condições. Estes homens que conseguem enxergar o invisível e prever o imprevisível têm melhor chance para estarem no lugar certo na hora certa e para conseguirem elaborar o melhor plano e trilhar o melhor roteiro. Acho que isso vale igualmente para a montanha, o mar ou a vida.
Sinto-me feliz por estar aqui, no papel de um cego, assistido por guias desse naipe para ser conduzido pelas montanhas fluidas do mais sedutor dos mares. Aprendemos nas aulas de matemática o conceito básico da menor distância entre dois pontos, mas não o melhor caminho entre eles. Vendo Oleg, Betão e Duncan revisarem os planos do Drake, percebo que existem homens que além de deterem conhecimentos são dotados de sabedoria. Talvez seja a sabedoria o componente essencial para se ter sucesso na realização dos grandes projetos. E por que não, também na vida.
Tenho a impressão de que um dia vai aparecer alguém para definir, não a menor distância, mas a melhor forma de unir dois pontos. E se isso acontecer, tenho quase certeza de que será feito por alguém que não um matemático ou físico. Quase, pois Oleg é um excelente físico por formação e devem existir alguns outros como ele no mundo...
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