Tudo sobre a expedição que atravessou o Drake em um veleiro sem cabine

Tema:Travessia do Drake
Autor: Redação 360 Graus
Data: 12/3/2003

O brasileiro Betão Pandiani (45) e o sul-africano Duncan Ross (39) foram os primeiros velejadores do mundo a atravessar o Estreito de Drake em um veleiro sem cabine. Foram 4 dias de viagem por um dos mares mais temidos do mundo. “A emoção ao chegar é indescritível. Não foi fácil, apesar de termos aproveitado uma janela de tempo perfeita”, comenta Betão Pandiani. Momentos de ansiedade, alegria, indisposição e alucinações foram alguns dos fatos marcantes da viagem.

A saída do Satellite ocorreu depois de serem consultados 3 serviços de meteorologia. “A competência dos serviços francês e americano é fantástica. Se tivéssemos demorado uma hora a mais na decisão teríamos ficado no mínimo mais uma semana na Caleta Martial”, afirma Betão. A travessia começou depois de um trabalho intenso de preparação e grande ansiedade. “São muitas coisas envolvidas, não poderíamos errar”, comenta Duncan.

O primeiro dia de velejada foi o mais difícil. Apesar da experiência e dos cuidados médicos, Betão e Duncan foram surpreendidos por um dos elementos mais inconvenientes de uma velejada: o enjôo. A escopolamina via trans-dérmica, um pequeno adesivo colocado atrás da orelha usado para evitar o enjôo, não fez efeito. “Não é uma condição de velejo normal. Tem muita ansiedade e adrenalina envolvida e por isso não deve ter funcionado nas primeiras horas”, conclui Betão. O mal estar começou à noite e Duncan foi o primeiro a apresentar os sintomas. Em seguida Betão Pandiani, que havia assumido o comando do barco, também não resistiu.

Mas foi o pensamento na equipe que deu a eles mais disposição para seguir em frente. “Foram dois anos de trabalho e preparo. Uma equipe inteira trabalhou de maneira incessante para que a travessia pudesse ser concluída. A família, os amigos e ainda os amigos da Semp Toshiba, Água Crystal e Visa, todos confiaram em nós, queriamos seguir em frente e seguir bem”, desabafa Pandiani. No dia seguinte, quarta-feira, depois de um processo de hidratação intenso, eles voltaram a se alimentar e os enjôos desapareceram.

No terceiro dia de viagem, o veleiro Satellite enfrentou um período de calmaria. Foram 5 horas boiando, bem no meio da travessia. A grande preocupação era a corrida contra o relógio. A boa janela de tempo terminaria em cerca de 5 dias e qualquer minuto perdido poderia significar o fim do projeto. “A preocupação nessa hora não é com a vida, mas com o barco. Se o tempo mudasse estávamos preparados e com todos os elementos de segurança funcionando, mas poderíamos perder o barco e só a possibilidade disso acontecer já causa uma dor enorme”, comenta Betão. A noite foi de mais sorte e os ventos voltaram a soprar sobre as velas do Satellite e o catamaran de 21 pés voou com as 3 velas levantadas. “Velejamos muito rápido e no escuro, sem nenhuma referência visual, foi maravilhoso”, completa.

Ao final do quarto dia, Betão e Duncan avistaram o Kotic II aguardando por eles na Península. A travessia estava concluída. “É uma experiência quase mística, uma alegria incrível, emocionante”, concordam Duncan e Betão.

Segundo eles, uma das experiências mais surpreendentes durante a travessia é a condição emocional que se projeta. “Você está acordado e dormindo ao mesmo tempo. O cansaço é enorme e você não se dá conta e chega ao limite”, comenta Duncan. “Talvez esse cansaço, não sei, acaba gerando uma situação meio mística. Algumas vezes nós tínhamos a sensação de que havia uma outra pessoa a bordo”, completa Betão. Essas experiências só foram relatadas quando a travessia foi concluída. “O mais estranho é que as alucinações, se é que podemos chamar assim, foram as mesmas para nós dois. Vimos as mesmas coisas e no mesmo instante”, completa.

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