




Dezembro de 1994, tinha combinado com um amigo que iríamos fazer uma trilha em Parati, em um lugar que eu estava estudando para um projeto. Era uma explicação simples para o que eu pretendia realmente, pois já estava estudando o caminho a meio ano para integrar entre outros, o roteiro de trilhas e história do projeto Escola do Mar de Amyr Klink.
Iríamos sair em um sábado de madrugada, para chegarmos no destino por volta das 7 da manhã e logo começarmos a caminhar. Recém casado, meu amigo estava no portão do prédio onde morava as 2 da manhã como combinado, mas não com a bagagem, e sim com a notícia que não iria mais, porque a esposa não estava gostando da idéia de sua ausência e que sua sogra já estava armando a intriga entre os dois. Bem, cada um com seu destino, e o meu era chegar na hora planejada no início da trilha.
Viagem tranqüila , cheguei na altura da igreja da penha, na estrada Parati – Cunha as 7 horas, local onde já tinha feito algumas fotografias de vestígios do trecho calçado do caminho. Resolvi começar a caminhada um pouco mais acima, saindo junto a propriedade do Sr. Oliveira, que algumas semanas antes havia me indicado o melhor e mais conservado trecho. Arrumei melhor minha mochila, ela estava com uns 30% a mais de peso do que o previsto, pois meu caro amigo iria ficar com a função de levar a barraca e alimentação para os dois dias e eu levaria o equipamento fotográfico .
Logo já se percebe as pedras do calçamento, em uma área desmatada onde segue até 3 Km acima, começando seu trecho melhor conservado. No final deste trecho ficava o sítio do Sr. Antônio, onde fiz uma parada pois já o conhecia, e era sempre interessante escutar suas estórias sobre o caminho. Uma das mais interessantes era sobre o espírito de um "Capitão do Mato" que aparecia de vez em quando. Infelizmente o Sr. Antônio faleceu em 1997 e sua família mudou-se para a cidade de Parati.
Depois de uma hora de boa conversa segui o caminho que entrava agora em um trecho pouco conservado, com capim, bananeiras e capoeiras de mata pioneira. Logo acima cheguei em um local onde se faziam as paradas das tropas de burro, um grande largo onde se tinha uma boa visão do trecho acima e também abaixo. Lugar onde os tropeiros apitavam antes de subir ou descer para não dar de encontro com outras tropas nos trechos estreitos e com barrancos do caminho. Após este ponto entrei em um trecho que ainda não conhecia. Subindo mais 1 km cheguei na mata ainda conservada e o caminho em bom estado, mas com suas pedras escorregando bastante devido a umidade e limo acumulados.
A minha idéia era registrar exatamente este trecho do caminho calçado dentro da mata naquele mesmo dia, pois o tempo estava bem claro e na serra do mar o clima muda sem dar muito aviso. Caminhei mais uns 2 km parando para tirar as fotos, mas desejava encontrar logo um ponto para acampamento, armar a barraca e ficar mais leve para percorrer o caminho até onde pudesse. Logo cheguei em um pequeno riacho, me abasteci de água e comecei a procurar um ponto de acampamento. Queria ficar o mais próximo do caminho possível, mas estava difícil e além do mais não era muito seguro, pois na região existem muitos caçadores que se utilizam do calçamento na mata. Achei um ponto a uns 20 metros do caminho, montei a barraca e continuei a seguir o calçamento com uma certa pressa, pois não conhecia o trecho e já eram 3 horas da tarde.
O que se seguiu foi uma mata que invadiu e destruiu uma grande parte do calçamento, principalmente onde desciam enxurradas das freqüentes chuvas. Foi difícil passar em alguns pontos e até reencontrar o caminho, ainda mais com minha mania de usar pouco o facão. Em um ponto mais íngreme encontrei uma engenharia mais arrojada onde foram construídos muros de arrimo de blocos de pedras para sustentar o ziguezague do caminho que estava extremamente conservado.
Logo após este ponto o caminho se perdeu em meio a um bambuzal de taquara do mato que levei quase meia hora para atravessar, saindo em um barranco onde subi e encontrei novamente a estrada Cunha -Parati na altura do Fecha Nunca, antigo entreposto de transporte de banana da região.
Desci logo em seguida pois tinha apenas 2 horas de luz para chegar a barraca. Com o caminho marcado foi mais fácil e chegando comecei a tomar as providencias do jantar. Logo após me preparei para dormir pois sozinho, sem rádio, o que resta fazer em acampamentos deste tipo é refletir sobre o que você fez e o que pretende fazer.
O que mais gosto em acampamentos solitários é o ganho de percepção que se tem. Escuta-se longe, olha-se tudo e tudo te olha. Percebe-se quem é e o que é. Fora isso é só descansar e esperar o outro dia chegar.
Amanheceu chovendo, noite tranqüila, sem espirito de capitão do mato nem bicho gritando da forma que haviam me dito que iria acontecer. Minha estratégia de fazer tudo no dia anterior deu certo. Tranqüilamente fiz meu café, desarmei a barraca , arrumei a mochila. Comecei a descer a trilha e só parei para observar algumas ferraduras de mulas que encontrava cravada na terra. Provavelmente eram das últimas tropas que percorreram o caminho ainda neste século. É interessante estar em um lugar que representou tanto para o país durante um bom tempo. Onde tantos passaram, riquezas desciam e também subiam. A história realmente oferece uma viagem sem limites e talvez a maior aventura seja preservar e descobrir o que ela pode oferecer para nos ajudar.
Carlos Vageler é professor de educação física e fisiologista.
Trabalhou profissionalmente durante 8 anos na área de turismo ecológico e educação ambiental, de 1986 a 1994.
Aventura: Caminhadas e escaladas em vários pontos do Brasil.
Escaladas nos Alpes, Cordilheira dos Andes e Kilimanjaro Membro do CEB (Centro Excursionista Brasileiro) e Deutscher Alperverein ( Clube Alpino Alemão ). É mergulhador autônomo e mestre amador de embarcações. Tem cursos de primeiros socorros e sobrevivência no mar.
e-mail: cevageler@remar.com.br
Texto escrito especialmente para esta coluna.
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