Dia 20 de dezembro era dia de recorde. Assim eu pensava, mas já tinha pensado isso várias outras vezes.
Olhando para trás, vi que de cada 5 tentativas sérias, uma resultava em recorde. Algumas terminaram durante o vôo, outras terminaram ainda na cabeçeira da pista de Bauru, vendo a esperada pré-frontal ter dado um passo a mais durante a madrugada e chegar em Bauru antes que o esperado.
Mas dessa vez ia ser dia de recorde. Afinal, nós, os pilotos de planador, temos que ser otimistas, senão a gente nem decolava.
Como dá para voar sem motor, usando essa tal fonte térmica que ninguém vê? Só sendo muito otimista mesmo.
Uma das coisas legais dos recordes são os dias que antecedem a tentativa. A preparação é muito divertida.
Ir analisando o que o dia térmico pode nos oferecer, como ele está evoluindo, e qual recorde cabe ali. Preparar os loggers, o planador para um vôo longo, o amigos para uma polarização entre resgate x cerveja.
O dia anterior, sexta-feira, não foi um dia onde caberia um recorde, então sábado teria que melhorar um pouco, sendo que se melhorasse muito era certeza de chuva... seria interessante.
Analizei que o dia 20 não seria potente, nem permitiria bases altas, mas poderia ser longo. Então caberia um recorde de distância, na Classe Olímpica (PW-5).
Pré-fixei um recorde de ida e volta de 409.9km, saindo de Bauru para perto de Araçatuba, voltando se os desígnios do tempo assim o permitissem.
O recorde de distância de ida e volta é o mais safado deles, pois se as coisas derem errado, vão dar errado muito longe de casa. É claro que o de distância livre é pior, mas neste recorde o piloto já dá a largada estando ferrado, pode beijar a patroa e as crianças e dar o "até amanhã", então nao tem surpresa.
Saí de São Paulo as 5 da manhã e estava pronto para decolar em Bauru as 10 da manhã.
Em horário solar, decolei as 10:38hrs, o rebocador me largou no local do crime, uma termicazinha honesta em cima da faixa de largada, colei na base (um fiapo a 800mts) e dei a largada as 10:46hrs.
Haviam poucas nuvens no céu, e eu não tinha pressa. O negócio era ir remando devagarinho, e ir colocando quilometragens no logger, sem risco, até que o tempo firmasse. Não queria ser dado como morto em combate logo no início.
A base ia subindo devagar, assim como devagar era a minha média - em torno de 60 km/h.
Cheguei em Lins, 100km fora de Bauru, pouco depois das 12:00hrs. Cheguei pela primeira vez a 1.300metros de altura, isso a uns 130km fora de Bauru, e apesar das bases não estarem muito uniformes, e as boas térmicas de 2.0m/s serem raras, achei que era a hora de andar rápido para melhorar a média e não complicar o final do dia.
Coloquei maccready 2.0m/s e segui forte até me encontrar pouco depois em uma situação ruim.
Claramente eu tinha superestimado o tempo. O altímetro marcava 400metros, havia um azul grande a frente depois de ter passado por algumas nuvens que não funcionaram direito.
Os 400metros ainda me permitiam fazer um desvio de 90 graus para a esquerda e buscar uma nuvem distante. Eu chegaria baixo lá, mas daria ainda para uma ou duas tentativas de centragem. Mas eu não queria ir para lá.
Desvios de 90 graus doem até quando vc não está competindo. É a constatação clara de que vc fez bobeira, e eu me recusava a aceitar que fiz bobeira: até então tinha voado sério, com um macready esperançoso sim, mas menos que isso é melhor nem sair de casa.
Enquanto razão e emoção brigavam no cockpit desviei 45 graus, rumo ao nada que o azul me oferecia, em cima de uns arados (sempre eles...).
Como não havia térmica seca, a chance de se pegar algo , onde não havia nuvens, estaria calçada na primeira bolha, desprendida pelo primeiro gatilho, a primeira das térmicas.
Ou seja, sorte. E lá estava ela, sorrindo no meu climb com um 2.0m/s integrado.
Subi a 1.100metros no azul, e no topo formou-se um fiapo, estava salvo de um pouso fora bem distante de casa, e toquei em frente.
A base foi subindo, mas a proximidade do rio criava uns azulões interessantes. Achei que ia acabar virar o ponto por trás, de tantos desvios... Quando fiz a rota, o vento previsto de 15km/h de SE não me traria problemas quanto ao sombreamento do rio.
Porém o vento foi quase nulo, e o apagão perto do rio se fez presente.
Virei o ponto conseguindo subir a 1.200metros de altura, mais ou menos as 14:00hrs, com média de 66km/h. E dei GOTO para Bauru, logo ali, uns 205km pra frente.
No caminho de volta a base começou a se animar e em Birigui fui a 1.500metros de altura. Aí eu suspeitei que o dia térmico estava se acabando, com os panelões ficando cada vez mais espaçados, sendo criados pelos últimos suspiros dos arados - não haveria reciclagem.
Ali no topo, onde várias fontes térmicas se uniam, a térmica era forte, os panelões se alimentavam, mas se ficasse baixo as coisas poderiam se complicar.
Agora era hora de pensar no recorde, reduzir o maccready e chegar em casa.
Fiz altura, e cheguei em Bauru com a certeza de que não daria para ter voado nem mais 10 km pre-fixados se eu quisesse.
O dia tinha terminado e pousei com média de 67km/h, as 16:55hrs, em 6.15 horas de vôo.
Domingo a meteorologia piorou de vez, desaguando logo as 13:00hrs, e voltei para SP, com um recorde na manga (o meu décimo recorde), e mais algumas histórias para contar.
» CICLISMO
» CAMINHADA
» 13/02 De volta pra casa com um recorde na manga e histórias pra contar!
» 31/10 Vôo a vela - recordes
» 28/04 Vôo à Vela
» 09/07 Repórter 360°: Um vôo de planador
Mais >>





