Caíram os 1000 quilômetros de vôo a vela no Brasil! Confira o relato

Tema:Vôo à vela
Autor: Thomas Milko
Data: 22/11/2002

Mais de mil quilômetros no ar. Esta foi a façanha de Thomas Milko que, sozinho em seu planador, aventurou-se pelos céus que ligam Currais Novos (RN) até Balsas (MA). A tarefa não foi fácil. Dificuldades na decolagem, inseguranças em regiões inóspitas e, acima de tudo, muita resistência. Superadas as barreiras, o piloto comemorou o recorde. O presente ficou por conta das visões espetaculares e experiências, descritas no relato que você confere abaixo:

Hoje decolei de Currais Novos, quarta maior cidade do Rio Grande do Norte, a 150 quilômetros sudoeste de Natal. Fiz o primeiro vôo acima de 1000 quilômetros realizado no Brasil.

Mais precisamente, o vôo teve extensão de 1059,6 quilômetros de distância livre (ou aproximadamente 1070 quilômetros, se for considerado com ponto de virada), terminando em Balsas (MA), com motor desligado, às 8h25. Pousei às 17h27, ou seja, praticamente nove horas de vôo sem motor.

O planador voado foi um DG800B-KT, PP-XEZ monoplace (apenas uma pessoa), de fabricação alemã.

Preparando o vôo

No dia anterior havia decolado às 8h30 de Juazeiro - pronto para tentar os 1000 quilômetros. Contudo, o tempo não estava bom para o lado do Maranhão e Tocantins (oeste). Karl sugeriu que eu tentasse Posse, mas após uma hora de vôo vi que o rumo era muito ao sul. O vento, que deve ser um aliado num vôo destes, estava totalmente de lado.

Desisti, pois não achava que seria possível realizar a distância dos 1000 quilômetros. Fiquei meio chateado, já que estava pegando térmicas acima de 1m/s antes das 9h com o planador bem pesado: cheio de lastro, 22 litros de gasolina no tanque principal, e mais 15 nas asas - fora a bagagem. Resolvi ir atrás do meu plano principal.

Queria ir o mais a leste possível, para aproveitar o vento constante que sempre vem de lá (rumo 110°). Assim, voaria a maior parte do tempo no semi-árido nordestino - adentrando pouco nas úmidas terras do Maranhão e evitando Tocantins por completo. Mas não sabia direito por onde, porque sobrevoava várias pistas.

No guia de aeroportos Currais Novos aparecia como pista de terra. Um ponto negativo, já que muitas delas ficam no meio da cidade ou são meio abandonadas. Gostei da localização: o relevo bem montanhoso ao redor ajudaria a disparar as primeiras térmicas do dia.

Para minha surpresa, ao sobrevoá-la notei que era asfaltada. Como ainda era cedo, resolvi subir numa térmica que, além de forte, fez milhares de sacos plásticos e pedaços de papel voarem alto.

Ainda nesta fase, tentei visitar o Oceano Atlântico. Fui em direção da costa, distante 150 quilômetros. Quando passei a marca dos 80 quilômetros do mar, a base das nuvens começou a descer sistematicamente, de 1800 para 1200 metros, a 60 quilômetros da costa. Como o solo continuava hostil, e as nuvens rareando, resolvi voltar para Currais Novos.

O asfalto era antigo. A pista foi asfaltada em 1987, com 22 metros de largura, confortável para os 18 metros de envergadura do planador DG800B. O vigia diurno pediu para a prefeitura um vigia para a noite, que veio após a confirmação de uma gratificação minha. O hotel Tungstênio (a cidade vivia da mineração de xilita, usada na fabricação de lâmapadas) resolveu meu sono, afinal, havia voado oito horas e meia, e tinha que estar bem descansado para o dia seguinte.

Nesta reportagem:

» Caíram os 1000 quilômetros de vôo a vela no Brasil! Confira o relato
» Dificuldades no início do vôo pelo céu azul de Caicó e Souzas
» Literalmente nas nuvens
» Reflexões após o vôo



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